sábado, 9 de dezembro de 2006 às 06:18

A Revolução dos Bichos: hoje teremos leitão assado no jantar

A Revolução dos BichosImagine que você é um jovem operário. Numa bela manhã você está indo trabalhar e vê ao longe uma gigantesca tsunami vermelha chamada "Revolução Bolchevique". Ela vem em sua direção e o golpe é inevitável. Quase sufocado pela água, você olha para cima e vê seus companheiros a bordo de um navio chamado "Socialismo". Homem ao mar! Homem ao mar!

O capitão do navio é Josef Stalin, um velho companheiro admirado por todos. Você se enche de esperança, entusiasmo, alegria, começa a imaginar um mundo perfeito, um mundo livre da exploração, do trabalho forçado, da ganância, um mundo governado por operários. Mas tão logo assume o poder, o capitão começa a eliminar inimigos, reprimir companheiros, executar intelectuais, prender militares e deportar todos que são contrários à nova filosofia stalinista.

Você não acredita no que seus olhos vêem. Como nosso Companheiro foi capaz de fazer isso?! Se não bastasse, o capitão manda expulsar Leon Trotski do barco e o joga aos tubarões. Leon Trotski, um velho amigo, fundador do Exército Vermelho, impossível!, pensa você. Os poucos marujos que restam fazem as contas e calculam que entre fuzilamentos, trabalhos forçados e deportações, o capitão chegou a vitimar 20 milhões de ex-companheiros.

Pois bem, o escritor britânico George Orwell (1903-1950) transformou essa tragédia russa numa fábula animalesca e publicou sua história no livro A Revolução dos Bichos (Animal Farm, 1945). Alçado à categoria de grande clássico político no século XX, A Revolução dos Bichos é um prelúdio ideológico da complexa obra "1984" (leia a resenha).

O livro se passa numa fazendinha britânica chamada "Granja do Solar", pertencente ao Sr.Jones. A história começa quando o velho porco chamado Major convoca uma reunião com a bicharada. No silencioso movimento do galpão da granja, os animais começam a chegar. Os primeiros foram os três cachorros, depois os porcos, as galinhas, as pombas, as ovelhas, as vacas, os cavalos, a cabra, o burro, os patinhos e demais convidados vão se acomodando.

O porco agradece a presença dos camaradas e começa um discurso convocando todos a uma revolução, um basta na dominação humana. O velho porco sonhava um mundo perfeito, um mundo livre da exploração, do trabalho forçado, da ganância, um mundo governado pelos animais [déjà vu?].

Para ele "o Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante. Nosso trabalho amanha o solo, nosso estrume o fertiliza, e, no entanto, nenhum de nós possui mais que a própria pele".

Três noites depois e o velho Major morre. Mas as palavras do porco já haviam entrado na mente de todos os animais daquela fazendinha. Ninguém sabia quando a rebelião começaria, mas todos tinham a certeza que um dia ela viria, e começaram a se preparar. A tarefa de organizar os insurgentes ficou para os porcos, segundo Orwell, o mais inteligente dos bichos. Destaque para Bola-de-Neve e Napoleão, dois jovens barrões que o Sr.Jones criava para vender.

Pouco tempo depois da morte de Major, os animais rebelam-se e expulsam os humanos da fazenda. Os porcos mudam o nome do lugar para "Granja dos Bichos" e implantaram um novo sistema de pensamento chamado "Animalismo". Era possível resumir seus princípios em sete mandamentos:
  1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimiga.
  2. O que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
  3. Nenhum animal usará roupa.
  4. Nenhum animal dormirá em cama.
  5. Nenhum animal beberá álcool.
  6. Nenhum animal matará outro animal.
  7. Todos os animais são iguais.
Os mandamentos foram escritos na parede da fazenda, para que todos os animais pudessem enxergar. Mas com o passar do tempo, os animais observam que nem todos trabalhavam e que o leite e as maçãs estavam sumindo. Descobriram que os porcos estavam por trás de tudo isso. Eles se defendem:

"Camaradas, não imaginais, suponho, que nós, os porcos, fazemos isso por espírito de egoísmo e privilégio. Muitos de nós até nem gostamos de leite e de maçã. Eu, por exemplo, não gosto. Nosso único objetivo ao ingerir essas coisas é preservar a saúde. O leite e a maçã (está provado pela ciência, camaradas) contém substâncias absolutamente necessárias à saúde dos porcos. Nós, porcos, somos trabalhadores intelectuais. A organização e a direção desta granja repousam sobre nós. Dia e noite velamos pelo vosso bem-estar. É por vossa causa que bebemos aquele leite e comemos aquelas maçãs. Sabeis o que sucederia se os porcos falhassem em sua missão? Jones voltaria! Sim, Jones voltaria!"

Com esse mantra terrorista: "Jones pode voltar!", os porcos aumentam seu poder. Até que Bola-de-Neve e Napoleão, os porcos líderes, divergem sobre a construção de um moinho de vento. E num golpe, Napoleão põe os cachorros contra Bola-de-Neve e expulsa-o da fazenda. Com esse acontecimento, muita coisa começa a mudar. O porco Napoleão começa a adotar novas políticas, muda-se para a ex-casa do Sr.Jones e a passa a dormir na cama.

Bola-de-Neve vira uma espécie de entidade invisível, tudo de ruim que acontecia na granja era culpa dele, um bode expiatório para justificar os insucessos do Animalismo. Paralelamente, o porco Napoleão começa a desconfiar de todos a seu redor. Começa a eliminar seus amigos porcos, assassinar outros animais e ameaçar os contrários à sua filosofia. O porco promove um verdadeiro massacre. Põe os outros animais para efetuar trabalhos forçados e diminui a ração.

Para suprimir insatisfações, Napoleão repassa dados estatísticos que "provam" que a situação na granja melhorou. "A fazenda prospera, existe mais ração, a água é de melhor qualidade e as pulgas já não incomodam tanto". Era como se a granja se houvesse tornado rica sem que nenhum animal tivesse enriquecido. Com exceção dos porcos, evidentemente.

Indignados com tanto trabalho, os outros animais desejam saber o que tanto os porcos fazem trancados na casa do Sr.Jones. Um deles responde dizendo que "os porcos despendiam diariamente enormes esforços com coisas misteriosas chamadas 'arquivos', 'relatórios', 'minutas' e 'memos'. Eram grandes folhas de papel que precisavam ser miudamente cobertas com escritas e, logo depois, queimadas no forno".

O livro termina quando os porcos começam a andar sobre duas patas, beber litros de cerveja e jogar pôquer com os fazendeiros vizinhos. Pela janela do velho casarão, "as criaturas olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco".

Droga!!! Começo a lê esses livros distópicos e minha cabeça entra em parafuso. Leio Max Weber e aprendo que o trabalho é o único caminho para o Éden. Aí leio um ensaio orwelliano como esse e descubro que sou dominado por porcos. Porcos!

Descubro que são os porcos que fazem as leis, são os porcos que nos obrigam a fazer hora-extra, é neles que se concentra a riqueza, nos tiram a educação, a cultura. Os porcos roubam nossos filhos, encurtam nossas aposentadorias, chicoteiam, racionam a comida e a água. E ainda por cima dizem que a situação está ótima. Eles nos amedrontram com fantasmas invisíveis, mudam nosso foco e limitam nossa inteligência. Que meu colesterol vá pro inferno, mas hoje teremos leitão assado no jantar!

Alguns minutos depois de saborear o livro, fiquei brincando de Orwell. Imaginei uma história dessas sobre o Brasil. Meu conto se chamaria: "A Revolução dos Bichos Marinhos". E para liderar o novo governo subaquático eu escolheria o mais inteligente dos animais marinhos. Nota 5/5
Comentários
2 Comentários

2 [+] :

Anônimo disse...

Tenho hoje quarenta e "alguns" e,quando na quinta série , meu iluminado professor de português nos "aplicou" esta vacina-de-papel ... que nos tornou imunes a "febre vermelha" que , já naquela época , era espalhada por
uma legião de porcos travestidos de professores- substitutos ... será que os suinos vão proibir este
livro no nosso Brasil ?
Um abraço de um burro velho (mas ainda vivo!)!

Senhor Jones disse...

Muito divertida sua mensagem, amigo burro velho. Que a vacina alcance mais animais. hehe

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