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domingo, 22 de setembro de 2013 às 11:40

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Inferno: uma peregrinação malthusiana pelo ponto turístico criado por Dante Alighieri

Nota 4/5
Inferno - Uma Nova Aventura de Robert Langdon
Acabamos de chegar à marca de 7,2 bilhões de pessoas vivendo na Terra. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), as projeções de crescimento demográfico apontam que esse número será de 8,1 bilhões em 2025. É matemática: o consumo de recursos naturais hoje excede em 50% a capacidade da natureza de se renovar. Mantendo esse padrão de vida, em 20 anos serão necessários dois planetas Terra. Esse é o resultado do ritmo de crescimento da população mundial a partir da Revolução Industrial.

A explosão demográfica foi abordada de forma contundente em 1968, através da publicação do livro "A Bomba Populacional", do biólogo americano Paul Ehrlich. Naquela época a população era de apenas 3,5 bilhões. O problema da superpopulação estava só decolando. Desastres envolvendo a escassez de alimentos, a destruição da natureza e riscos biológicos, eram apenas enredos de ficção científica. A revista Superinteressante de maio de 1993 (ed. 068) abordava o tema: "O argumento de Ehrlich era simples: se o crescimento da população não fosse contido, a própria natureza se incumbiria de contê-lo."

Esse assunto volta à pauta global por culpa do livro Inferno - Uma Nova Aventura de Robert Langdon, sexto romance policial do escritor americano Dan Brown. Em teoria, debater um tema tão complexo através das peripécias de um professor de simbologia que usa relógio do Mickey, chega a ser patético. Na prática, os recursos estilísticos empregados têm compromisso apenas com a beleza estética do texto e com o nível de imersividade na história. A ficção termina na ficção. Mas o que não podemos negar é a plasticidade da Teoria Populacional Malthusiana, argumento que sustenta o romance.

quarta-feira, 11 de julho de 2012 às 00:52

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As Crônicas de Gelo e Fogo - A Dança dos Dragões: o patamar inexpugnável de mil personagens

Nota 4/5
As Crônicas de Gelo e Fogo - A Dança dos Dragões
A revista Superinteressante (ed. 276 / mar-10) trouxe um texto do Alexandre Versignassi sobre ebooks readers, em especial Kindle e iPad. Ele escreveu: "Quem gosta de ler sente um afeto físico pelos livros. Curte tocar neles, sentir o fluxo das páginas, exibir a estante cheia. Uma relação de fetiche. Amor até." Eu me enquadro nesse grupo. Por mais que aprecie dispositivos eletrônicos, prefiro livros "de verdade". Gosto de sentir a textura, o acabamento, algum detalhe em relevo. Quando compro um volume novo, passo horas apenas dedilhando as páginas, admirando a capa...

Por essa minha fixação, fiquei triste ao receber a primeira edição de A Dança dos Dragões, quinto capítulo da saga As Crônicas de Gelo e Fogo, de George R.R. Martin. Em março a Editora LeYa havia divulgado uma versão fantástica, valorizando a belíssima arte do ilustrador Marc Simonetti. Mas a versão final que chegou às livrarias em julho veio com um problema de enquadramento. A personagem Daenerys foi jogada para a orelha. Sobrou o dragão negro, que sozinho perdeu o sentido. Como castigo da khaleesi, o livro estava com um capítulo a menos, obrigado recall de 150 mil exemplares!

Mas sejamos claros: As Crônicas de Gelo e Fogo é uma história acima de qualquer uma dessas bobagens. Fosse escrito no chão com carvão, a história despertaria a mesma fome de leitura que assola os fãs. Pra mim George R.R. Martin é um demônio, fazendo malabarismo com mais de mil personagens em caminhos totalmente díspares. Bem verdade que no caso desse livro, assim como o anterior, o autor agrupa o pessoal. A Dança dos Dragões foca os acontecimentos ao longo da Muralha e no outro lado do mar, incluindo a volta do anão Tyrion, Jon Snow e a Mãe dos Dragões.

segunda-feira, 25 de junho de 2012 às 22:59

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As Crônicas de Gelo e Fogo - O Festim dos Corvos: pouca objetividade para preencher lacunas pós-guerra

Nota 3/5
As Crônicas de Gelo e Fogo - O Festim dos Corvos
Ao fim da primeira trilogia da saga literária As Crônicas de Gelo e Fogo, o escritor americano George R. R. Martin declarou que originalmente havia planejado continuar a história dando um salto de cinco anos a partir do terceiro romance. A ideia era dá tempo aos personagens mais jovens e corpo aos filhotes de dragão. A estratégia foi abandonada, tendo o autor escrito um calhamaço com mais de 1500 páginas para preencher a lacuna. Por pressão dos editores, segregou os personagens em dois livros: um centrado em Porto Real e outro ao longo da Muralha.

Esta resenha é sobre a primeira parte dessa jornada, chamada O Festim dos Corvos. O título sintetiza bem a história, pois a narrativa explora a reação dos personagens diante da nova estutura de poder. Aqui, Westeros encontra-se em um cenário pós-guerra, com corpos espalhados pelas estradas e criminosos levando terror aos sobreviventes. Em momentos assim, os seres humanos da vida real costumam se apegar à religiosidade. Não é diferente na ficção.

O Festim dos Corvos explora a fé como nenhum outro até agora. Eu estava bem ancioso para mergulhar nesse novo paradigma da aventura. Porém, depois de algumas centenas de páginas, comecei a achar bem chata a exploração massiva das divindades. Praticamente todos os personagens tiveram que conviver com algum tipo de profeta. O pior deles é Olho de Corvo e seu Deus Afogado. Falta aos homens de ferro carisma para conquistar a empatia do público. É difícil imaginá-los em Porto Real.

segunda-feira, 4 de junho de 2012 às 18:39

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As Crônicas de Gelo e Fogo - A Tormenta de Espadas: carnificina real numa guerra de coragem e covardia

Nota 5/5
As Crônicas de Gelo e Fogo - A Tormenta de Espadas
Existe um velho conto árabe chamado "As Mil e uma Noites", narrado pela jovem Xerazade. Corajosa, ela se ofereceu a casar com o rei persa Xariar, conhecido por matar todas suas esposas ao amanhacer, após tomá-las a virgindade. Porém, na noite de núpcias, Xerazade oferece a rei uma de suas histórias. Inteligente, interrompe a narrativa ao raiar do dia, provocando uma curiosidade a respeito do desfecho. Sob a bênção do rei, escapa da morte. Na noite seguinte, repete a tática. E assim suas maravilhosas histórias garantiram-lhe a vida por um longo tempo.

Sinto isso a respeito do escrito George R. R. Martin, autor da série de fantasia As Crônicas de Gelo e Fogo. Assim que terminei o livro três da saga, intitulado A Tormenta de Espadas, fiquei imaginando pra onde a história caminhará. É realmente uma incógnita. E isso é ótimo para o leitor! pois mantém o cérebro sempre esperto para absorver acontecimentos importantes e reprogramar as conjecturas. Especialmente no caso desse livro, são tantos acontecimentos importantes que se tornam obrigatórias paradas para reflexão ao longo dos capítulos.

Personagens cruciais criados e desenvolvidos, simplesmente viram filé de corvo. Não um, mas vários. Dessa forma, as páginas vão passando e novos cenários sendo construídos. Junto a isso, temos o aumento dos eventos sobrenaturais. Ao que parece, cada canto de Westeros agora tem sua própria "magia": dragões, feiticeiras, mortos-vivos, lobos-homens. Para quem tinha lido o primeiro livro e pensado que os Lannisters eram a grande ameaça, o autor nos coloca na garupa de Jon Snow, no meio do acampamento dos selvagens... Gigantes!, mamutes! e criaturas despertas de um longo sono.

domingo, 18 de março de 2012 às 15:37

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As Crônicas de Gelo e Fogo - A Fúria dos Reis: uma sanguinária corrida entre homens e deuses

Nota 4/5
As Crônicas de Gelo e Fogo - A Fúria dos Reis
Assim que terminei a leitura do Livro Um de As Crônicas de Gelo e Fogo, fiquei bastante orgulhoso por ser contemporâneo do autor George R. R. Martin. Como nenhum outro pós-Tolkien, ele imprimiu em A Guerra dos Tronos, uma história crua e real, sem deixar de lado o misticismo e a fantasia. Ao tempo em que nos inundava com intermináveis intrigas e conspirações, oferecia lobos gigantes, caminhantes brancos e a beleza dos dragões. Em cada detalhe era possível enxergar a motivação, aflições e prazeres de cada personagem.

Assim que terminei o primeiro livro, parti para o próximo: A Fúria dos Reis. Esse eu li antes de assistir à segunda temporada da série da HBO, que volta à TV no próximo 1º de abril. Achei que isso deixou a leitura mais saborosa, recheada de surpresas. Também ri bastante, é um livro divertido. Só não diria que é um livro juvenil porque a história é ainda mais violenta que a anterior. São muitas cenas de carnificina e banhos de sangue. Pesado mesmo! O livro narra diversos estupros contra senhoras, moças e até crianças.

É realmente um cenário terrível, em especial para as mulheres. Muitas são subjugadas pelos próprios pais e irmãos, sendo obrigadas ao sexo e procriação. Apesar de considerado um tabu universal, o incesto é explorado no livro com muita coragem. O estupro é outro assunto polêmico que o autor não foge. Praticamente todas as raças usam mulheres e crianças como espólios de guerra. É uma tradição respeitada pelas próprias mulheres, assim como esposas de sal e diversos outros direitos sexuais dos suseranos sobre seus vassalos.

domingo, 4 de março de 2012 às 15:16

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As Crônicas de Gelo e Fogo - A Guerra dos Tronos: uma intrigante aventura épica de poder e conquista

Nota 4/5
As Crônicas de Gelo e Fogo - A Guerra dos Tronos
Uma versão erótica de "O Senhor dos Anéis". Pode me chamar de pervertido, mas foi isso que me atraiu para a série televisiva "Game of Thrones", exibida pela HBO em 2011. A partir de então comecei a me familiarizar com a história. Trata-se de uma adaptação do livro A Guerra dos Tronos, primeiro volume de uma saga de fantasia épica chamada As Crônicas de Gelo e Fogo. A obra é escrita por pelo americano George R. R. Martin e foi publicada originalmente em 1996. Somente após assistir à primeira temporada na TV, comecei a leitura do livro.

A aventura tolkiniana é centrada em Lorde Eddard Stark, patriarca de uma nobre família de Winterfell, um dos Sete Reinos de Westeros. Como Guardião do Norte, a vida é pacata e sem as ostentações dos reinos sulistas. O grande problema é o frio. O inverno costuma durar décadas. Mas a vida da Casa Stark muda completamente com a visita do Rei Robert Baratheon. Eddard é convidado a assumir o cargo de Mão do Rei, principal conselheiro e comandante militar no Reino. A família então se divide e tem início um grande jogo de intrigas e conspirações.

É um grande livro. Rico em detalhes, tudo é muito bem escrito e preciso. No começo o que mais me impressionou foi a semelhança entre o texto e a série de TV. Cheguei a pensar em abandonar o volume e partir direto para o livro seguinte. Mas o autor é tão caprichoso na descrição dos cenários, que fui sendo seduzido de volta ao livro. Percebi muitos detalhes que não estão na adaptação, como a definição da estratégia de batalha, com a mãe Catelyn fazendo o filho Robb tomar uma posição firme sobre a guerra.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012 às 20:25

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As Crônicas de Nárnia: um chantilly para adocicar a força opressora daapologética cristã

Nota 4/5
As Crônicas de Nárnia
Com o fim da série "O Senhor dos Anéis", começou uma especulação sobre a nova fantasia capaz de preencher o vazio deixado pela Terra-média. Na época, fiquei sabendo que o C.S. Lewis, autor de As Crônicas de Nárnia, fez faculdade com J.R.R. Tolkien. Consta que os dois eram muito amigos e conversavam sobre suas obras. A associação foi imediata. Comecei a enxergar muita coisa no trabalho de Lewis que gostava em Tolkien. Havia um mundo paralelo, seres mitológicos, um jovem herói buscando a paz, batalhas épicas e a ascensão de um novo rei.

Na prática, as obras não podiam ser mais diferentes. As Crônicas de Nárnia é bem mais infantil e fácil. A leitura é rápida e sem paradas. Ao contrário de três, temos sete livros compondo a saga. Eu li a edição Volume Único da editora Martins Fontes, com os livros apresentados na ordem de preferência de Lewis. Entre um capítulo e outro, belíssimas ilustrações do artista Pauline Baynes. Realmente é um livro muito bem acabado e diagramado. A única chatice é o peso. Depois de uma hora o braço começa a ficar cançado. É preciso um pouco de malabarismo para manter o ritmo da leitura.

O SOBRINHO DO MAGO

Apesar das dores físicas, O Sobrinho do Mago, primeiro livro da série, compensa o sacrificio. O texto tem uma linguagem simples, gostosa e rápida. Ótimo para leitura em voz alta. Em síntese, a história conta a aventura de um casal de crianças levadas pelo tio a usar um anel mágico, entrando num universo paralelo. Os dois acabam conhecendo uma bruxa e a levando para Londres. Mas o garoto fica mal visto, tendo que provar seu mérito numa aventura. A ideia da bruxa em nosso mundo é boa, mas foi pouco explorada pelo autor. Ele limitou-se a uma peripércia na rua e pronto. Seria divertido vê-la tentando conquistar o poder na Terra.

sábado, 20 de março de 2010 às 15:00

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Caim: um livro, um crime, uma sentença

Nota 5/5
Caim
Caim (Editora Companhia das Letras, 2009) é daqueles livros que depois de terminados ficam na memória. Especialmente daqueles, que como eu, nunca haviam lido um José Saramago. Outro ponto que posso apontar: o livro ganha uma dimensão maior caso o leitor tenha um bom conhecimento das histórias do Velho Testamento. Elas farão parte da jornada errante percorrida pelo personagem título.

Mesmo tendo frequentado por alguns anos um escola religiosa e tido aula de religião, não sei quase nada das histórias presentes na Bíblia. As poucas que sei dizem respeito ao mito da criação, mas sem muitos detalhes. Mas adianto que isso não me impediu de apreciar a narrativa de Saramago.

O livro como o título se refere, trata a história de Caim, o filho de Adão e Eva que cometeu o maior dos crimes: assassinou seu irmão. O crime foi premeditado, já que antes do ocorrido ele escondeu num campo aberto uma queixada de jumento que seria usada no crime.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010 às 06:00

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Vampiros em Dallas: sequestro e religião

Vampiros em DallasEm Vampiros em Dallas (Editora Arx, 2009), Sookie e Bill namoram firme e sua relação pelo menos é tolerada pela pequena cidade de Bon Temps, porém outro assassinato ocorre, que irá, dessa vez colocar o detetive Andy Bellefleur na suspeita, já que o cozinheiro gay do Merllote, Lafayette, foi encontrado morto em seu carro, no dia anterior a um grande "porre" de Andy.

Nesse livro vemos que a vida dá muitas voltas, pois no livro passado Andy perseguiu Jason pela suspeita dos assassinatos que vinham ocorrendo na cidade e agora, ele precisará da ajuda e do dom de Sookie para provar sua inocência.

Paralelamente a esses acontecimentos, Eric como chefe da zona onde mora Bill, resolve emprestar Sookie para vampiros de outra zona dos Estados Unidos, devido ao sumiço de um vampiro que pertence a um ninho influente em Dallas.

Em Dallas, o preconceito contra os vampiros ainda encontra-se presente, porém existe nela uma estrutura melhor para atender aos seres da noite, como prédios preparados para recepcioná-los e protegê-los durante o dia, além de um serviço de quarto personalizado, com pessoas devidamente prontas a literalmente darem seus sangues aos hospedes.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010 às 06:00

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Morto Até o Anoitecer: preconceito, amor e assassinatos

Morto Até o AnoitecerMorto Até o Anoitecer (Editora Ediouro, 2007) é o primeiro livro da série “Sangue Fresco – A saga” de Charlaine Harris e nos introduz a um universo que está atualmente na moda, o sobrenatural estrelado por vampiros, por isso suas histórias foram escolhidas pela HBO e se transformaram no seriado True Blood.

A autora partiu de um contexto interessante para criar a trama, a criação de sangue sintético pelos japoneses fizeram que os vampiros não tivessem mais a necessidade de sangue humano para sobreviver e por isso esse grupo de andarilhos noturnos resolveram “sair do caixão”, expressão usada no livro para dizer que eles se revelaram ao mundo e agora reinvidicam cidadania e igualdade, algo não distante do que clama as minorias na atualidade.

Em Morto Até o Anoitecer somos apresentados a Sookie Stackhouse, uma jovem garçonete que mora com sua avó, devido à morte de seus pais numa enchente, vivem numa cidade pequena e tem um irmão chamado Jason, que trabalha como fiscal de obras do estado e “pega” tudo que é mulher da cidade. Sookie tem um grande interesse por conhecer algum vampiro desde que eles se revelaram, pois ela tem um dom de ler mentes, dom esse que apenas os familiares e amigos próximos sabem.

segunda-feira, 13 de abril de 2009 às 17:19

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Anjos e Demônios: tirando a excitação mágica, é cópia de "O Código Da Vinci"

Anjos e DemôniosAnjos e Demônios (Editora Sextante, 2004) me persegue. Desde que descobri o enigmático "O Código Da Vinci" (leia a resenha), muita gente veio dizendo que eu precisava conhecer Anjos e Demônios, a primeira aventura do simbologista Robert Langdon. Como o filme será lançado no próximo mês, achei que esse era o momento ideal para finalmente conhecer a história. Percorri as 464 páginas sem dificuldade. O livro é fácil, a linguagem bastante simples, fatos que transformaram a leitura num momento de prazer e diversão. Méritos do autor Dan Brown. Ele desenhou uma história aparentemente séria, com muito senso de humor, ação e aventura. De quebra ele oferece um cardápio de descobertas milenares banhadas em arte e cultura. Resumindo: uma mentirinha bem contada.

Peraí... isso aí parece com o "O Código Da Vinci", ou não?! Tudo bem que Anjos e Demônios veio três anos antes, tendo sido publicado originalmente em 2000. A questão é que "O Código Da Vinci" é bem mais conhecido, tendo quase o dobro de sua tiragem. É até normal que muita gente só o tenha descoberto depois do livro da Mona Lisa. Sendo assim, Anjos e Demônios sofre com essa grande semelhança com seu irmão mais novo e mais famoso. O modelo narrativo de ambos é idêntico. Tudo começa com um misterioso assassinato e uma investigação semiótica. O corpo da vítima contém uma marca pouco conhecida. Um simbologista reconhece a imagem como pertencente a uma seita secreta. Surge uma heroína, um assassino de aluguel e um chefão secreto que irá trair todo mundo. Ah, faltou a polêmica com a Igreja Católica. Pronto!

Essa receita me deixou incomodado. É como se já soubesse a história. Isso tirou muito o brilho do livro. Por outro lado, Anjos e Demônios possui uma temática muito mais instigante: ciência e fé. Foi divertido acompanhar a guerra entre cientistas e religiosos, principalmente na perspectiva de alguém que buscava encontrar um ponto em comum entre esse dois lados aparentemente antagônicos. Gostei da forma como os Illuminati foram construídos: uma poderosa fraternidade fundada por Galileu Galilei e composta por mentes brilhantes como Bernini, eminente artista do barroco italiano conhecido por suas numerosas obras em Roma e no Vaticano. Segundo o livro, a Igreja Católica e os Illuminati travavam uma guerra que já durava 400 anos. Anjos e Demônios seria o fim dessa guerra. De posse de uma nova arma devastadora, os Illuminati ameaçam explodir a Cidade do Vaticano durante a sucessão papal. Já pensou?

Muito boa a idéia de infiltrar os Illuminati na maçonaria, na política e em todas as esferas do poder mundial, inclusive no próprio Vaticano. Anjos e Demônios explora com maestria a caçada por criptas, igrejas e catedrais, empreitada pelos protagonistas Robert Langdon e Vittoria Vetra. Os dois desvendam enigmas e seguem uma trilha que pode levar ao covil dos Illuminati. Nesse refúgio secreto está a única esperança de salvação da Igreja. Muito legal o envolvimento da história com a votação do novo papa, os detalhes das cerimônias secretas da Igreja, as bibliotecas que ninguém tem acesso, os livros que poucos podem tocar. Tudo isso com uma dupla de jornalistas oportunistas (e qual não é?) no seu encalço. Pode ter sido apenas uma estratégia narrativa para trazer realismo à história, mesmo assim achei uma bela crítica à imprensa inglesa.

Alguns debates no livro me chamaram atenção, o principal deles envolveu o assassino e o papa temporário, o Camerlengo Ventresca. Gostei da forma como o assassino definiu a Igreja e as barreiras que ela coloca para o progresso da Ciência. Mas ao mesmo tempo, e igualmente genial, foi a forma como o papa questionou a forma como os cientistas lidam com moral diante dos desafios éticos que o progresso impõe. Um bom livro, mas infelizmente não chega aos pés da excitação mágica gerada pelo "O Código Da Vinci". O mais engraçado é que a maioria das pessoas que enaltece Anjos e Demônios nunca leu "O Código Da Vinci", conhecem apenas o filme. E quem leu o livro sabe que as páginas têm muito mais sabor do que os frames. Espero que o filme de Anjos e Demônios supere ao menos isso. Nota 3/5

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quarta-feira, 14 de janeiro de 2009 às 06:00

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Assassinatos na Academia Brasileira de Letras: um bom livro do Jô Soares, mas sem surpresas

Assassinatos na Academia Brasileira de LetrasDepois de se lançar como escritor com "O Xangô de Baker Street", Jô Soares encontra-se atualmente na sua terceira obra com Assassinatos na Academia Brasileira de Letras (Companhia das Letras, 2005). Porém esse livro de história policial mescla vários elementos dos dois últimos livros do escritor, o que torna uma leitura sem muita novidade.

A trama está ligada a um livro escrito pelo Senador Belizário Bezerra, cuja obra tem o mesmo nome da obra, dando um ar metalinguístico à produção: um assassino que mata envenenado no "chá das cinco" todos os imortais da Academia. Obra bastante badalada e com tiragem enorme e bastante vendida no interior de Pernambuco, lugar onde o senador tem muitas terras e recursos, mostrando que nesse país desde a década de 20 tudo pode ser manipulado.

Na trama, o primeiro assassinato é justamente de Belizário, durante a posse na ABL, devidamente fardado com a roupa dos imortais. Dando início a investigação com toda atmosfera dos contos policiais. Com um investigador que atende pelo nome de Machado e sobrenome Machado e o legista Gilberto de Penna-Monteiro. Temos, novamente, um quadro de Sherlock Holmes e Watson, porém devido a independência investigativa do legista esse quadro fica um pouco diferente do original.

Mesmo gostando muito da narrativa do autor, que consegue alocar comédia numa obra policial, devo admitir que a trama não me surpreendeu como nos outros livros, pois na metade do livro já consegui descobrir o assassino e o modus operandi do mesmo. Mas o livro consegue atingir o alvo do entretenimento e mostra nas manchetes de jornais antigas, como nossa língua portuguesa no Brasil mudou da década de vinte para os dias atuais, sendo algo bem atual devido a reforma ortográfica da língua. Ver o nome do jornal "O País" escrito como "O Paiz" é algo a ser refletido. Nota 3/5

domingo, 21 de dezembro de 2008 às 06:00

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Os Contos de Beedle, o Bardo: a volta do universo de "Harry Potter"

Os Contos de Beedle, o BardoCom o fim da série Harry Potter e o enriquecimento de sua escritora J.K.Rowling, o universo fantástico que ela criou volta à tona com seu novo livro: Os Contos de Beedle, o Bardo (Editora Rocco, 2008). A proposta do livro é mostrar os contos que permeia a vida dos bruxos quando crianças, contos que contém mensagens e lições de moral, como tantos contos que lemos para nossas crianças.

Tendo 5 histórias escrita por Beedle, o Bardo, é uma coletânea de histórias destinadas às crianças bruxas ao passar dos séculos, porém "como quem conta um ponto aumenta um ponto" eles foram modificados para se adequar melhor a pensamentos atuais de certos preconceitos dos bruxos ou modificados para amenizar aspectos cruéis encontrados em certos contos do livro, por isso que no início é mostrado que o livro foi traduzido do original por Hermione Granger e com notas do professor Dumbledore.

Por ser um livro de contos infantis a autora que fez um bom trabalho com a série Harry Potter mostra que também sabe escrever histórias de fantasias iguais a presente em várias de nossas culturas, e que há muitos anos embalaram e aterrorizaram crianças.

Essa crítica que a autora faz contra a censura e modificação de contos infantis em minha opinião dizem respeito aos contos dos Irmãos Grim que também é uma coletânea de histórias que já existiam na Europa e que por eles foram postos em livros, porém certos contos são bastante macabros e por isso sofreram mudanças, principalmente nas versões de filmes da Disney.

Além de ser uma leitura agradável e rápida (já que o livro é pequeno), Os Contos de Beedle, o Bardo é recomendado até para aqueles que conhecem a série Harry Potter apenas das telas do cinema, e para melhorar a boa imagem da escritora, parte do dinheiro arrecadado com as vendas será destinado ao "Children's High Level Group", entidade que faz campanhas para promover os direitos das crianças e melhorar a vida de jovens em condições precárias. Nota 3/5

quinta-feira, 16 de outubro de 2008 às 00:43

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Alice - Edição Comentada: a interpretação simbólica do País das Maravilhas

Alice no País das Maravilhas; Através do Espelho - Edição ComentadaAlice - Edição Comentada (Editora Jorge Zahar, 2002), contempla dois livros: Aventuras de Alice no País das Maravilhas (1865) e Através do Espelho e o que Alice Encontrou por lá (1872). Escrito pelo britânico Lewis Carroll (pseudônimo do matemático Charles Lutwidge Dodson), com ilustrações originais de John Tenniel e notas do especialista Martin Gardner, esse volume permite ao leitor descobrir as inúmeras mensagens escondidas atrás de um inocente livro infantil.

Porém, Gardner alerta de saída que há algo de insensato numa Alice comentada. O estudioso cita que em 1932, no centésimo aniversário do nascimento de Lewis Carroll, Gilbert K. Chesterton expressou seu "medo terrível" de que a história de Alice já tivesse caído sob as mãos pesadas dos acadêmicos e estivesse se tornando "fria e monumental como um túmulo clássico". Segundo ele, "não só a apanharam e a fizeram estudar lições; foi forçada a infligir lições a outros. Alice agora não é só uma aluna como uma professora".

Alice não faz sucesso somente em sala de aula, ela constantemente tem aparecido em filmes, livros, músicas. A Trilogia Matrix, dos irmãos Wachowski, é uma das produções que melhor tiraram proveito dos personagens de Lewis Carroll. As diversas referências mostradas no filme serviram de combustível para alimentar debates sobre realidade e ilusão. O fato, segundo Gardner, é que assim como Homero, a Bíblia e todas as outras grandes obras de fantasia, os livros de Alice prestam-se facilmente a qualquer tipo de interpretação simbólica – política, metafísica ou freudiana.

Uma boa maneira de ilustrar a riqueza desse debate é citar a discussão sobre loucura entre o Gato de Cheshire e Alice. O bichano diz que todos no "País das Maravilhas" são loucos, inclusive Alice. Lewis Carroll tenta representar nesse trecho que o sonho tem seu próprio mundo e com frequência é tão real quanto o nosso. Esse é um dos temas mais recorrentes nas indagações de Sócrates, que no diálogo platônico "Teeteto" diz: "Como podes tu determinar se nesse momento estamos dormindo, e todos os nossos pensamentos são um sonho; ou se estamos despertos, e conversando com um outro em estado de vigília?"

O problema é que muitos fãs de Alice ficam tão obcecados em descobrir lógica em cada palavra, que muitas vezes esquecem que o livro é apenas uma história infantil. Gardner cita como exemplo a semelhança entre versos nonsense e a pintura abstrata. "As palavras que Carroll usa podem sugerir significados vagos, como um olho aqui e um pé ali numa abstração de Picasso, ou podem não ter absolutamente sentido algum – um mero jogo de sons agradáveis como o jogo de cores não-objetivas numa tela".

A história de Alice se originou numa "tarde dourada" de 1862, quando Lewis Carroll fazia um passeio de barco no rio Tâmisa com sua amiga Alice Pleasance Liddell (com 10 anos na época) e suas duas irmãs. Lá ele começou a contar uma história que deu origem à atual. A menina pediu-lhe que ele lhe escrevesse um conto. Carroll atendeu ao pedido e em 1864 ele a presenteou com um manuscrito. Mais tarde ele publicou o livro e mudou a versão original, acrescentando as cenas do Gato de Cheshire e do Chapeleiro Louco.

Há muita coisa por trás desse simples acontecimento, não quero entrar em detalhes polêmicos. Chamo atenção apenas para o jogo de letras entre "Lewis Carroll" (pseudônimo do escritor) e sua musa infantil "Alice Liddell". Preste atenção no cumprimento dos nomes, nas posições das vogais, consoantes e letras duplas no último nome. Outro detalhe: considere as consoantes iniciais de "Dear Lewis Carroll" (Querido Lewis Carroll). Perceba que de trás para frente são as iniciais de "Charles Lutwidge Dodgson" (nome real do escritor).

Alice é recheado desses trocadilhos, enigmas lógicos e referências à vida pessoal do autor. Chapeleiro Louco, personagem mais legal do livro, é dono da famosa adivinhação feita à Alice: "Por que um corvo se parece com uma escrivaninha?". Ela pensou, pensou, pensou e desistiu. "Qual a resposta?", perguntou a curiosa menina. "Não faço a mínima idéia", disse Chapeleiro Louco na maior simplicidade do mundo. É por essas e outras, reforço o que disse Gardner, que as crianças de hoje se sentem aturdidas e às vezes apavoradas pela atmosfera de pesadelos dos sonhos de Alice.

Ainda assim, é através dos olhos dessa criançada que reside o melhor de Aventuras de Alice no País das Maravilhas. Livre do paranóico calhamaço das notas explicativas, o leitor pode sentir o prazer de mergulhar com Alice na toca atrás do Coelho Branco, sem nem pensar de que jeito conseguiríamos sair depois. Através do Espelho e o que Alice Encontrou por lá, continuação da obra original, representa um jogo de xadrez em que Alice (seis meses mais velha) terá que tornar-se rainha e vencer a partida. A história perde em paixão, mas ganha em qualidade inventiva.

Quando Alice se joga através do espelho, tudo fica invertido. Num certo sentido, diz Gardner, "o próprio nonsense é uma inversão sanidade-insanidade. O mundo usual é virado de cabeça para baixo e de trás para frente; torna-se um mundo em que as coisas tomam todos os rumos, menos os esperados. Estreitamente relacionado com o humor que Carroll extraía da inversão é o humor que extraía da contradição lógica. Comem-se biscoitos secos para matar a sede; um mensageiro sussurra aos gritos; Alice corre tão depressa quanto pode para ficar no mesmo lugar".

Só mesmo numa edição comentada para percorrer sem medo esse abstrato quebra-cabeça vitoriano. Mas para quem não tem tanta paciência, a Disney anunciou para março de 2010 o lançamento de Alice no País das Maravilhas em versão 3-D. O filme contará com direção de Tim Burton e terá Johnny Depp como Chapeleiro Louco. Veja o que Burton disse ao site Sci-Fi Wire: "Nunca vi uma versão de Alice em que eu sentisse que toda a obra original foi traduzida na tela. É uma série de aventuras esquisitas, e tentar fazê-las funcionar como filme será interessante. As histórias [de Alice] são como drogas para menores, sabe?"

Por essas e outras que Alice é uma das obras que mais tiveram adaptações no cinema, TV e teatro. Mas País das Maravilhas e Através do Espelho sempre funcionarão melhor como livros infantis. É no papel amarelado que Alice têm sua imortalidade assegurada. Somente na tranquilidade de casa podemos – junto com nossos filhos – vasculhar os caminhos que nos levam cada uma das direções. Cortem a cabeça de quem duvidar disso! Nota 5/5

quinta-feira, 9 de outubro de 2008 às 23:10

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Ensaio Sobre a Cegueira: José Saramago disseminando o vírus da verdade humana

Ensaio Sobre a CegueiraEstou com Hepatite A. Peguei quando viajava pelo sul do Piauí. Para quem não sabe, Hepatite é uma inflamação do fígado causada por um vírus, sendo altamente contagiosa. A transmissão ocorre através de contaminação direta (pessoa para pessoa) ou através do contato com alimentos e água contaminados. Fui logo jogado em quarentena. Senti na pele o que é ter um vírus "contagioso". Ninguém me queria por perto.

No livro Ensaio Sobre a Cegueira (Ed. Companhia das Letras, 1995) ocorre mais ou menos a mesma coisa. A obra do escritor português José Saramago, laureado em 1998 com o Prêmio Nobel de Literatura, conta a história de uma terrível epidemia de cegueira, isso mesmo, uma cegueira branca que se espalha incontrolavelmente. Jogados em quarentena pelo governo, os primeiros cegos contaminados irão encarar uma indescritível viagem ao mundo das trevas.

Segundo palavras do próprio José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira "é um livro francamente terrível com o qual eu quero que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo. Nele se descreve uma longa tortura. É um livro brutal e violento e é simultaneamente uma das experiências mais dolorosas da minha vida. São 300 páginas de constante aflição. Através da escrita, tentei dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso."

Ensaio Sobre a Cegueira é exatamente isso, um livro que explora o lado mais nojento, degradante, mesquinho, egoísta e selvagem do ser humano. E isso é tremendamente legal. Um exemplo da forma como o autor trata a natureza humana pode ser vista logo no começo da história. Um sujeito fica cego quando estava parado num semáforo. Não uma cegueira qualquer, essa é diferente, luminosa, como se ele tivesse mergulhado de olhos abertos num "mar de leite". Um camarada se oferece para ajudar, acompanhando o pobre motorista cego até seu apartamento. Depois o que faz? Rouba o carro do cego.

Esse pequeno trecho da história mostra que o roubo do carro é algo absolutamente normal, como se fosse uma oportunidade que ninguém perderia. A ocasião faz o ladrão. É bem difícil aceitar esse argumento logo no começo, mas o livro inteiro trabalha com esse tipo de raciocínio. Ao fim é impossível não reconhecer esse lado sombrio da psique humana. Todo ser humano deseja – instintivamente – tirar vantagem de tudo. Muitos só não o fazem pela simples falta de oportunidade. Por que você acha que há tanta briga para ganhar uma eleição?

Numa tentativa de frear a epidemia de cegueira, o governo manda isolar os primeiros cegos num manicômio abandonado. Sem nenhum tipo de assistência, os cegos são jogados às dezenas nesse lugar e obrigados a seguir uma série de regras, sendo a principal: "não tentem fugir ou mataremos vocês". No lado de fora o exército faz a guarda, indiferentes mesmo quando o circo pega fogo. Olhe ao redor de sua cidade e veja se não é exatamente isso que os governantes fazem nas favelas, vilas e assentamentos.

Dezenas de cegos num manicômio, esse é um símbolo sensacional. O confinamento aflora todas as mazelas humanas. A maior parte das brigas e conflitos é por água (sempre suja) e comida (sempre rara). Mas chama atenção o pânico das pessoas ao irem ao banheiro. Imagine-se cego, num banheiro sem papel, sem água e sem o mínimo de higiene. Ao reles leitor já é uma experiência sensorial terrível, imagine ao personagem.

Com o passar do tempo, o manicômio ganha novos cegos, gerando uma divisão em dois grupos. A partir daí Ensaio Sobre a Cegueira nos presenteia com uma bela distopia, uma crítica aos governos totalitários e opressores. É nessa hora que a história ganha sua passagem mais polêmica: o estupro coletivo. Os cegos mais fortes exigem as mulheres do grupo mais fraco. O fato, que poderia desencadear uma guerra entre os grupos, é incrivelmente bem aceito pelos homens mais fracos, sepultando qualquer sentimento de honradez e moralidade que um dia possam ter tido.

Quando as portas desse inferno são abertas, os cegos descobrem um admirável mundo novo. Fezes espalhadas pela rua, cachorros comendo restos humanos, pessoas matando e morrendo por comida, correria, pânico, caos. Cada ser humano é posto em seu limite extremo. A cidade torna-se um grande cemitério, pessoas viram almas. Não há mais supermercados, bancos, igrejas, trânsito, água, esgoto, comida, nada. O ser humano regride à estaca zero.

O livro, claro, é uma grande fantasia, um baú de parábolas. E a maior delas assume a forma de mulher, a única entre os cegos que consegue enxergar. A doença, por um motivo qualquer, não a atingiu. Ela carrega a responsabilidade de guiar o grupo, de interpretar aquilo que seus olhos veem. É através de suas mentiras e suas verdades que identificamos o lado da história que queremos recontar.

O texto de Ensaio Sobre a Cegueira é de uma qualidade absurda. É incrível quando encontramos pela frente alguém que tão bem domina a língua portuguesa e todas as suas possibilidades narrativas. Confesso, porém, não ter gostado da imposição do autor para que todo o livro fosse escrito em português de Portugal. Além de tornar a leitura por vezes chata, muitas palavras e expressões são incompreensíveis, dificultando o entendimento da história.

Mesmo assim é impossível não se deixar seduzir pela forma como a narrativa se desenrola, passando de mão em mão, primeiro com o cego do trânsito, depois com o médico e por fim com sua esposa. Também chama atenção a forma como o autor não dá nome aos personagens, chama-os apenas pelas características como a rapariga de óculos escuros, o menino estrábico, a mulher do médico, o homem de venda preta.

José Saramago vetou inúmeras tentativas de adaptação de sua obra, alegando que "o cinema destrói a imaginação". Felizmente o cineasta brasileiro Fernando Meirelles conseguiu convencê-lo do contrário e está popularizando essa bela história. O filme de Ensaio Sobre a Cegueira abriu o Festival de Cannes 2008, tendo causado muita polêmica e críticas controversas. Quero vê com meus próprios olhos, pois como diria o velho português, "se podes olhar, vê. Se podes ver, repara." Nota 5/5

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terça-feira, 30 de setembro de 2008 às 09:42

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Neuromancer: o clássico cyberpunk que criou o universo Matrix

Nota 3/5
Neuromancer
Eu sempre fui um cara apaixonado por filmes. Fico horas assistindo todo tipo de história. Ficção científica, animação, aventura, romance, comédia. Por essa atração natural ao cinema acabo deixando livros, quadrinhos, discos e outras mídias em segundo plano. Por que o cinema é tão legal? Talvez pela sedutora inércia oferecida. Em duas horas de projeção, mundos são construídos, mazelas são denunciadas, amores tornam-se possíveis, grandes utopias nascem, crescem e morrem (a trilogia perfeita!) e você lá, sentado.

O esforço para gostar de um filme é mínimo. Essa é a regra. Geralmente os campeões de bilheteria são excelentes entretenimentos, mas nada agregam de valor. Porém, existem pouquíssimos filmes que todo mundo gosta, mesmo sem entender muita coisa. "Matrix" (1999), dos irmãos Wachowski, é meu exemplo predileto. Quando o filme foi lançado eu era só um moleque. Achei o máximo os caras vestidos de preto, mandando bala em slow motion, explosões de helicópteros, muita tecnologia, frases de efeito, nerds no poder. O segundo filme abusou mais ainda, continuou misturando religião, política e, claro, muita adrenalina. Novo sucesso.

O terceiro e último filme da seqüencia exagerou na dose ideológica, tornando o filme surreal e chato. Ninguém entendeu a guerra entre homens e máquinas, resultando: um tremendo fracasso. Mais do que isso, os fãs taxaram as partes 2 (Matrix Reloaded) e 3 (Matrix Revolutions) como verdadeiros equívocos, manchas na história do filme original. Okay, confesso, fui por muito tempo um desses fãs. Falava mal porque não entendia a verdade subliminar da "Matrix". Vivia num mundo de sonhos.

Mas lá se vão quase 10 anos. Nesse período comecei a estudar a história. Um de meus melhores aliados nessa aventura foi livro "Matrix - Bem-Vindo ao Deserto do Real" (2003), uma coletânea de artigos organizada por William Irwin. Nele fiquei sabendo toda a base mitológica por trás do filme. Passeando por "Alice no País das Maravilhas" de Lewis Carroll (leia a resenha), "1984" de George Orwell (leia a resenha), além de Jesus Cristo, Buda e todas as grandes alegorias filosóficas como "A Caverna de Platão" e "O Oráculos dos Delfos".

Neuromancer (Editora Aleph, 2003), romance de William Gibson, é uma das influências mais importantes nesse seara. Publicado originalmente em 1984, o livro transformou-se no grande clássico da literatura cyberpunk - até então inédito subgênero da ficção científica. Tratado como "uma versão adulta" da Trilogia Matrix, são tantas semelhanças que alguns dizem que o filme dos irmãos Wachowski plagiou Neuromancer, outros defendem que o longa fez apenas uma homenagem ao livro.

A história é sobre Case é um cowboy cyberespacial, uma espécie de super-hacker do futuro. Com seu sistema nervoso contaminado por uma toxina, ele vaga pelos subúrbios de Tóquio cometendo pequenos crimes. No ameaçador submundo das operações obscuras de transferência de dados e da genética ilegal, Case está a ponto de ser destruído pelas dívidas e pelas drogas, quando é contatado por Molly, uma sedutora mulher samurai das ruas. Molly o leva ao misterioso Armitage, um ex-oficial das Forças Especiais, que oferece a cura de Case em troca da participação em uma missão: hackear um poderoso mainframe.

Garanto para você que é impossível lê o livro sem pensar em "Matrix" o tempo inteiro. Molly veste uma roupa de couro preto colada ao corpo e usa óculos espelhados, igualzinho à indumentária da heroína Trinity. A diferença é que no filme Neo gasta um tempão apaixonando-se por Trinity até levá-la à cama. No livro, Case e Molly rapidinho já fazem sexo, sem amor, só por diversão mesmo. Outra semelhança: os capangas gêmeos albinos de Merovingian (Matrix Reloaded) são iguaiszinhos aos capangas "quase idênticos" de Wage (bandido que Case deve uma grana). O próprio verbete que nomeia o filme é citado inúmeras vezes no livro.

Lembra como é fácil aprender habilidades em "Matrix"? Basta o operador apertar um botão e voalá. Em Neuromancer é a mesmíssima coisa, só que eles usam um chip chamado microsoft. Falando nisso, Neuromancer mostra os "desplugados" rastafáris Maelcum e Aerol, que são parecidos com os "desplugados" rastafáris Tank e Dozer de "Matrix". Sabem onde aqueles filhos de Jah vivem? Zion, uma estação orbital rebelde. Quer mais? Os zionitas adoram música Dub, descrito como um sensual mosaico sonoro mixando uma enorme quantidade de pop digitalizado. Lembrou da festinha promovida por Morpheus?

Case em uma das passagens do livro chega a dizer que enxerga as feições transformadas em um código, como ideogramas japoneses enfileirados. Até balinha de gengibre um dos personagens de Neuromancer oferece a Case. A mesma técnica de aproximação foi usada no filme, quando o Oráculo conversa com Neo. O livro também mostra armas de pulso eletromagnético, idêntica tecnologia da nave Nabucodonosor, de "Matrix". Parecido mesmo é o crescimento intelectual de Case/Neo, sempre amparado pela força protetora de Molly/Trinity.

Ambos os heróis alcançam o ápice de sua capacidade no duelo em pé de igualdade com a Inteligência Artificial, descrita como uma mandala fragmentada de informação visual. Igual à cena em que Neo invade a cidade das máquinas em "Matrix Revolutions". Achei bem interessante a forma como o autor William Gibson inventou o futuro de várias corporações, como a união da Mitsubishi com a Genentech (empresa americana de pesquisa genética), e até da máfia japonesa Yakuza, que no futuro imaginado em Neuromancer, cresceu e absorveu as máfias italiana e russa.

Neuromancer é uma história que já começa pela capa, mostrando uma garota pálida (drogada), com o olho branco. Segundo a sabedoria oriental, o estado de stress ou depressão que faz com que o branco do olho de uma pessoa também apareça abaixo da íris e não só dos lados. É considerado prenúncio de problemas, doenças ou tragédias. Por definição, Neuromancer é a passagem para a terra dos mortos. Nada mais apropriado, então, para uma história que fala de fantasmas, drogas, realidade, ilusão, amor e tecnologia.

E polêmicas à parte, Neuromancer é uma fantástica aventura hacker, que, apesar de muito difícil de ser lido, funciona como um grande vídeo-game. É uma espécie de jogo de aventura num mundo de sonhos, só que ao invés de dormir, basta plugar o cérebro. William Gibson conseguiu reproduzir com precisão dezenas de ambientes complexos num intricado labirinto de realidade virtual. Um futuro possível, um futuro provável. Evidentemente nosso cérebro teria que dá um gigantesco saldo de processamento. Não é fácil viver num mundo em que realidade e ilusão caminham juntas, confundem-se e nos pastoreiam.

domingo, 14 de setembro de 2008 às 13:09

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O Caçador de Pipas: uma jornada redentora em um Afeganistão pouco conhecido

Com mais de oito milhões de cópias vendidas em todo o mundo, O Caçador de Pipas (Editora Nova Fronteira, 2005) é a maior revelação literária dos últimos anos. Feito ainda mais significativo porque esse é o primeiro romance escrito pelo afegão Khaled Hosseini. O livro promove uma série de discussões a respeito de questões históricas e culturais do Afeganistão da década de 1970, passando pela queda da monarquia, a invasão soviética, a emigração de refugiados para o Paquistão, o regime do Talibã até chegar ao bombardeio americano pós 11 de Setembro.

Mas O Caçador de Pipas é, em suma, um livro de memórias. Nele conhecemos a história de Amir, um garoto rico de Cabul, no Afeganistão, que é atormentado pela culpa de ter traído seu melhor amigo, Hassan, filho do empregado do seu pai. De pequeno a adulto, o egoísta e covarde Amir usa todas as artimanhas imorais para conseguir atenção exclusiva de seu pai, não medindo limites para alcançar sua obsessão. Porém, para o leitor brasileiro é um pouco difícil entender a fundo esse ciúme. Tratar empregados como membros da família, é algo bem comum, diria até típico, principalmente na cultura nordestina.

Mesmo assim, é impressionante a força eterna da culpa, da resignação, do passado. O passado é eterno. O romance nos mostra que pequenas decisões podem ocasionar grandes tragédias. A felicidade não está em conseguir tudo que queremos, o mais importante na vida é o preço que pagaremos por cada decisão. Parece auto-ajuda, mas vem embrulhado de uma maneira tão sutil que você nem vai perceber. Do meio da história para frente, O Caçador de Pipas se apresenta como um livro de redenção. Depois de anos sem conseguir dormir pelo peso da culpa que carregava, Amir ganha uma nova chance de "reescrever o passado".

É então que o drama passa por uma série de acontecimentos indescritíveis. O que parecia uma curta jornada em busca do perdão se torna uma triste epopéia de grandes tragédias. Um mundo de medo, terror e selvageria. A lógica Talibã! Pena que o escritor tenha pouco explorado as conseqüências do bombardeio americano, talvez para evitar polêmicas e vender mais livros. Ao fim, não ficamos sabendo nem mesmo se Amir conseguiu encontrar a tal redenção. Um tanto decepcionante para alguém que teve coragem de superar suas fraquezas e encarar o passado, coisa que pouca gente faria.

O Caçador de Pipas é um bom livro. No entanto, apostaria toda a grana que tenho no bolso que ele não teria tido sucesso sem a Guerra do Afeganistão. É como o próprio Amir fala em um trecho do livro: "é estranho vê os telejornais falando das cidades que passei minha infância". Só mesmo uma guerra para levar o Afeganistão para o centro das discussões mundiais. Até porque, para o leigo, imaginar um Afeganistão sem guerra, em que as crianças soltavam pipas e viviam felizes, é quase impossível. Nota 3/5

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terça-feira, 19 de agosto de 2008 às 17:00

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Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes!: os golfinhos são os seres inteligentes da Terra

Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes!No livro Até Mais, e Obrigado Pelos Peixes! (Sextante, 2005), Douglas Adams encerra a "trilogia de 4 livros" iniciada em "O Guia do Mochileiro das Galáxias", na minha opinião esse é o livro que demonstra a capacidade do autor em criar personagens fantásticos, como o deus da chuva, que em nada contribui para o andamento da obra, mas está lá dando sua ajuda em cenas bastante engraçadas.

A história se passa 8 anos após a destruição da Terra e Arthur Dent está de volta sem entender como tudo pode está completamente igual, ele já sendo um personagem bem nervoso passa a desconfiar que ficou completamente maluco, porém nem tudo está igual, todos os golfinhos do planeta sumiram.

Outro ponto importante nesse livro é a entrada de um personagem que será o foco de toda a trama, pois ela é a única que lembra a destruição da Terra, fato que muitos acham ter sido alguma experiência governamental. Essa personagem está presente no primeiro livro, mas como sempre não poderei contar mais coisas para não comprometer as surpresas da obra.

O fato é que com essa personagem, Arthur Dent irá procurar a resposta para o desaparecimento dos golfinhos e descobrir o que há de errado com ela e por que ela é a única pessoa do planeta (fora ele e Trillian) que lembram a destruição da Terra. Depois de tantas aventuras por vários livros saiba qual foi a mensagem que Deus deixou para sua criação. Nota 4/5

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domingo, 17 de agosto de 2008 às 06:00

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A Vida, o Universo e Tudo Mais: declarando guerra ao xenofobismo e à discriminação racial

A Vida, o Universo e Tudo MaisA Vida, o Universo e Tudo Mais (Sextante, 2005) é o terceiro livro de série de Douglas Adams. Sem perder o foco, ele continua à procura da pergunta fundamental da vida, do universo e tudo mais, porém paralelamente a essa busca ocorrem inúmeras histórias que deixam a saga cada vez mais divertida.

No terceiro livro da série nossos heróis estão separados no tempo e espaço devido a fatos ocorridos no segundo volume da série, essa separação faz com que o autor mude um pouco a dinâmica da narrativa que ele seguia nos livros anteriores, deixando a história mais lenta.

As partes que conta a estada de Ford Prefect e Arthur Dent num planeta desconhecido, são hilárias, pois Ford já tem uma certa experiência de ficar preso em planetas o problema é que para Dent, tudo ainda é muito novo e as descobertas que eles farão nesse lugar, deixarão o neurótico Arthur ainda pior.

Mas é em A Vida, o Universo e Tudo Mais que tem a história mais fantástica, pois conta a saga do povo do planeta Krikkit que após descobrirem que existe vida fora do mundo deles, decretam guerra a todas as criaturas do universo. Com isso Douglas Adams usa uma trama de comédia para fazer uma crítica feroz as guerras raciais e também a xenofobia. Nota 5/5

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sábado, 9 de agosto de 2008 às 15:53

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O Restaurante no Fim do Universo: onde fica o fim do universo?

O Restaurante no Fim do UniversoO Restaurante no Fim do Universo é o segundo livro de Douglas Adams, e para mim o que tem o melhor título. É também o que mais me surpreendeu ao lê-lo e descobrir direito o que trata esse título, pois como sabemos o universo não tem fim.

Esse livro é uma continuação do "O Guia do Mochileiro das Galáxias" (leia a resenha) e Arthur Dent continua sua viagem pelo universo com a esquisita tripulação da nave coração de ouro, a busca pela pergunta para a resposta 42 ainda continua a permear a obra, porém nesse livro a trama é para encontrar o homem que controla o universo.

O livro não é tão bom quanto o primeiro livro de Douglas Adams, porém continua mesmo assim muito divertido e o sarcasmo prevalece muito forte e presente. Outro ponto é que a história se desdobra em várias frentes e certos capítulos são apenas explicações como se o autor conversasse com o leitor.

Não me atreverei aqui a tentar contar partes do livro para não correr o risco de contar alguma parte engraçada, mas recomendo a leitura deste e o convido a descobrir o que seria esse restaurante no fim do universo, só descobre quem ler. Nota 3/5

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