O resultado é um coquetel-molotov fumegante lançado bem no meio da cabeça do Tio Sam. Uma crítica ferrenha e bem arquitetada ao Império Yankee. Não serei cínico, confesso que senti certo prazer em vê o descontrole americano numa área tão essencial como a saúde.
O filme começa mostrando os truques usados por alguns americanos para receber atendimento em hospitais do Canadá. Depois Moore nos levar à Inglaterra. Na terra da Rainha ele conhece o Serviço Nacional de Saúde Britânico. Logo depois a viagem segue até a França. As descobertas de um americano em Paris chamam atenção pelas inúmeras diferenças em áreas como saúde, jornada de trabalho, férias e tudo que envolve "direitos sociais".
O xeque-mate foi levar alguns dos personagens do documentário (os doentes americanos) para buscar assistência médica gratuita em Havana, Cuba. Sensacional! O impacto simbólico desse aventura foi tão grande que o Departamento do Tesouro abriu uma investigação em relação a essa viagem. Uma clara demonstração de perseguição ao maior opositor do Governo Bush.
No longa Michael Moore diz que existem 50 milhões de norte-americanos sem seguro médico. "Eles rezam todos os dias para não ficarem doentes porque 18.000 deles morrerão neste ano, simplesmente porque eles não tem seguro". O cineasta faz revelações sobre as Companhias de Seguros de Saúde dos EUA, mostrando a forma como agem para aumentar seus lucros.
E o porquê de tudo isso? Num dos melhores momentos do filme, um estudioso traça uma visão perturbadora do controle social exercido pelo sistema para dominar a população. A distopia literária da década de 40, enfim, ganha corpo, torna-se real, Sicko nos mostra um futuro ainda mais opressivo e destruidor. A dominação não só ocorre diante de nossos olhos, como nós a validamos diariamente.
"Acho que a democracia é a coisa mais revolucionária do mundo. Mais revolucionária do que idéias socialistas ou de qualquer outra pessoa. Se tiver poder, ele é usado para prover as suas necessidades e as da sua comunidade. E esta idéia de escolha, de que o capital fala constantemente, 'tem que ter uma escolha', a escolha depende da liberdade de escolher. E se estiver coberto de dívidas, não tem liberdade de escolha.
Parece que o sistema beneficia se o trabalhador comum estiver coberto de dívidas. As pessoas em dívida perdem a esperança, e pessoas sem esperança não votam. Dizem que toda as pessoas devem votar, mas acho que se os pobres na Grã-Bretanha ou nos Estados Unidos, parecem que votassem em pessoas que representassem os seus interesses, seria uma verdadeira revolução democrática. E não querem que isso aconteça, por isso mantém as pessoas oprimidas e pessimistas. Creio que há duas formas nas quais as pessoas são controladas: em primeiro lugar, assustar as pessoas e em segundo, desmoralizá-las.
Somos verdadeiramente livres? Por que o povo americano não faz nada? Medo do Governo? E no Brasil? Somos tão diferentes assim? Nossos hospitais funcionam? Estamos felizes com nossos Planos de Saúde? É possível uma saúde pública de qualidade? Ou isso é um sonho impossível para os brasileiros?
Sicko é uma belíssima demonstração de inteligência americana. Duas horas de revelações intrigantes, como a emblemática história do sujeito que perdeu dois dedos e teve que escolher apenas um deles para repor, já que não tinha o dinheiro suficiente. E como todo documentário de Moore, não podia faltar Bush falando asneiras. A diferença é que em Sicko o cineasta põe parte da culpa na imprensa: "Elas [TVs americanas] ajudaram o presidente Bush a mentir para o povo americano, não fizeram perguntas difíceis, são cúmplices de Bush". Pá pá pá, cuidado para não levar um tiro na testa.
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