Com direção de Francis Lawrence ("Constantine", 2005) e roteiro de Mark Protosevich e Akiva Goldsman, Eu Sou a Lenda é uma adaptação cinematográfica da clássica história de horror publicada em livro homônimo por Richard Matheson. O livro original de 1954 inclusive já foi filmado outras duas vezes com os títulos de "Mortos que Matam" (The Last Man on Earth, 1964) e "A Última Esperança da Terra" (The Omega Man, 1971). A obra de Richard Matheson é considerada por muitos como a mais inteligente e empolgante ficção sobre vampiros desde Drácula.
O romance distópico centra-se em Robert Neville (Will Smith), um brilhante cientista que não pôde conter o terrível Krypton Vírus, criado pelo próprio homem com intuito de achar a cura para o câncer. De alguma forma imune, Neville é agora o último ser humano que sobrevive na cidade de Nova York, e talvez no mundo. Por três anos, o cientista tem enviado mensagens de rádio diariamente, desesperado para encontrar outros sobreviventes que possam estar em algum lugar.
O filme começa numa New York abandonada. Logo pegamos carona no lendário Mustang Shelby Cobra GT 500. O cara persegue uma manada de antípoles em plena Manhattan, dando de cara com uma família de leões. A Warner Bros. disponibilizou os três primeiros minutos do filme na internet (clique aqui). O trabalho da direção de arte é perfeito, deixando a Big Apple de maneira inacreditável. Consta que os produtores precisaram da autorização de 14 agências governamentais para rodar as cenas abertas. O custo estimado para a realização de seis noites de filmagens foi de US$ 5 milhões.
Ao contrário de outros filmes de terror, Eu Sou a Lenda não nos apresenta os infectados logo de cara. O filme trabalha numa espécie de espiral. Com isso, temos uma bela ambientação da situação de Neville, sem pressa. As explicações vêm em formato de flashback, que ajudam a criar um clima de emoção, humanizando o personagem principal. A despedida de Neville da sua família, por exemplo, é comovente. Tudo com muita sutileza, nada explícito. O diretor trabalha o tempo todo com a sugestão de imagens.
Falando nisso, o filme trabalha muito bem o lado psicológico da história. Uma das melhores passagens ocorre quando Neville, depois de passar mais de mil dias sozinho, encontra a brasileira Anna (Alice Braga). Imagine você: há três anos sem família, de repente encontra na bandeja uma mulher (tão linda quanto a sua) e um garoto (da idade de sua filha). Fica bem claro ao expectador que Neville sucumbirá. Mas não há tempo. Eles agora estão encurralados. E naquele momento, olhando para a foto da família, diante do ódio e da loucura humana, parte para o sacrifício máximo e torna-se a própria divindade, o Salvador. Eu Sou a Lenda seria um anagrama da história de Cristo?
Isso eu não sei, mas posso garantir que o filme é uma tremenda homenagem a Bob Marley. O reggae real domina a história por completo. Músicas como "Three Little Birds", “I Shot The Sheriff” e "Stir It Up" sonorizam a história e deixam tudo mais colorido. Numa das cenas Neville explica quem é Bob Marley à Anna, que diz não conhecer o mito. Ainda que o filme se passe em 2012, existiria alguém incapaz de saber quem é Bob Marley? Não sei. Talvez seja uma dura crítica do roteirista querendo dizer que a humanidade está esquecendo o legado desse gênio da música.
O cientista conhece Bob Marley, mas não conhece Deus. Quando Anna o chama a fugir de New York em busca de sobreviventes, Neville explode: "Deixa-me te falar sobre o plano do teu Deus. Havia seis bilhões de pessoas na Terra, quando começou a infecção. O vírus K teve uma taxa de 90% de mortes. Isso são 5,4 bilhões pessoas mortas! Esmigalhadas e esvaídas em sangue. Mortas! Restou menos de 1% de imunidade. Os outros 588 milhões tornaram-se seus piores pesadelos. E eles ficaram famintos, mataram e alimentaram-se de todos. Todos! Não existe Deus. Não existe Deus!"
O final é brilhante. Com tudo prestes a um destino trágico... o barulho cessa. Lentamente a voz de sua pequena filha invade seus pensamentos. É um momento mágico! Na hora lembrei do filme "Matrix" (1999), com Neo descobrindo que tinha surperpoderes. Está provado que grandes se tornaram gênios após esse mergulho cósmico mental. Tudo começa a se encaixar envolto a um silêncio sepulcral: "Eu tenho a cura! Eu tenho a cura! Eu posso salvá-los!" Não há mais tempo. Tudo agora é um grande nada. Minerva. Eu Sou a Lenda é um filme para deitar, pensar, pensar, pensar...
Confira o trailer legendado clicando no botão play da imagem abaixo.
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