domingo, 27 de março de 2005 às 19:30

A Ética Protestante e o "Espírito" do Capitalismo: a centenária e inquietante criação de Max Weber

A Ética Protestante e o O alemão Max Weber destacou-se em seu tempo por analisar fenômenos econômicos a partir de seus estudos da Sociologia. Ele tentou entender um fenômeno economicamente relevante: o protestantismo ascético e o surgimento de um novo tipo de mentalidade capitalista, fato gerador de importantes conseqüências econômicas. O resultado desse desafio foi a publicado no livro A Ética Protestante e o "Espírito" do Capitalismo (Editora Companhia das Letras, 2004) que representa o mais célebre dos estudos do autor.

Weber acreditava que as pessoas imbuídas do "espírito capitalista" costumam ser, se não diretamente hostis à Igreja, ao menos indiferentes a ela. Na visão dele, "a idéia do piedoso tédio do paraíso pouco tem de atraente à sua natureza ativa, a religião lhes aparece como um meio de desviar as pessoas do trabalho sobre a face da terra". No entanto, é preciso esclarecer que essa ligação entre a ética religiosa e o capitalismo não termina nas relações de causa e efeito tradicionais, mas sim em uma maior capacidade de adaptação de certas religiões ao sistema econômico que impera.

Dizia Weber citando Offenbacher: "O católico [...] é mais sossegado; dotado de menor impulso aquisitivo, prefere um traçado de vida o mais possível seguro, mesmo que com rendimentos menores, a uma vida arriscada e agitada que eventualmente lhe trouxesse honras e riquezas. [...] No presente caso, o protestante prefere comer bem, enquanto o católico quer dormir sossegado."

A Ética Protestante e o "Espírito" do Capitalismo apresentou ao mundo uma nova maneira de enxergar o desenvolvimento do capitalismo, sendo inquietante e importante até hoje. A forma ascética dessa ética protestante ajudou a moldar e a difundir o espírito do capitalismo moderno e racional, ao demolir a desaprovação ética que cercava o capitalismo tradicional, criando e promovendo ativamente uma abordagem mais metódica das questões econômicas.

Essa desaprovação ética do capitalismo, engendrada pela Igreja Católica e suas máximas que pregavam o apego à pobreza, rejeitavam a busca por riquezas materiais mundanas, criou barreiras para o desenvolvimento econômico e acessão social. Talvez por isso o católico seja mais acomodado, normalmente preferindo uma vida de menores posses a trabalhar mais duro. O católico aceita sua situação social com mais facilidade, pois acredita que sua verdadeira riqueza está no Reino do Céu; ser pobre ou ser rico é uma vontade de Deus. O resultado disso é que quanto mais rico o sujeito é, menos católico ele se torna.

No lado oposto, os agentes capitalistas comemoraram o surgimento do protestantismo ascético com suas máximas: trabalhar é exercer um dom dado por Deus; o dinheiro ganho na profissão é abençoado por Deus; mesmo rico, não se pode deixar de trabalhar, deve-se sempre buscar aumentar as riquezas; não se pode perder tempo, pois tempo é dinheiro; deve-se amar o trabalho, seja ela qual for. Princípios que passaram a reger a vida de muita gente, dirimindo a desaprovação da ética capitalista. Ganhar muito dinheiro não só passou a ser eticamente aceito, como era até incentivado por constituir um sinal de que Deus via com bons olhos o trabalho de alguém.

O poder do ascetismo religioso passou a fornecer ao agente capitalista, operários sóbrios, conscienciosos e inusitadamente industriosos, que se agarravam a seu trabalho como se este fosse a vida e o propósito desejado por Deus. Eis, porém, algo ainda mais importante: a valorização religiosa do trabalho profissional mundano, sem descanso, continuado, sistemático, com o meio ascético simplesmente supremo, a forma mais segura e visível da regeneração de um ser humano e da autenticidade de sua fé. Essa devoção ao trabalho tornou-se a alavanca mais poderosa da expansão do capitalismo como "espírito".

Dessa forma, a maior contribuição que a religião fez para o nascimento do capitalismo racional foi ajudar a eliminar a atitude negativa da Igreja Católica em relação às questões econômicas, principalmente a idéia de que a ação econômica metódica, como sentido de vida, fosse algo negativo. Essa nova religião também teve um efeito psicológico de libertar o enriquecimento dos entraves da ética tradicionalista, rompendo as cadeias que cerceavam a ambição de lucro, não só ao legalizá-lo, mas tratá-lo como diretamente querido por Deus.

Evidentemente o protestantismo não é a salvação do mundo capitalista. Não basta tornar um país protestante para acelerar seu desenvolvimento econômico e social. Também não acreditamos que o católico de hoje tenha o espírito franciscano de outrora. Mesmo que essa idéia esteja no cerne do pensamento católico, atualmente a Igreja perdeu parte de seu poder de influência sobre o modo de vida de seus fiéis.

No todo, entendemos que a Igreja Católica não construiu, destruiu ou influenciou decisivamente as instituições econômicas. A Igreja, isso sim, influenciou negativamente a atitude das pessoas em relação à economia, pois promovia uma mentalidade econômica essencialmente tradicionalista. A Igreja, como hierocracia de forma geral, incentivou uma mentalidade não capitalista e, em muitos casos, anticapitalista. Nota 5/5
Comentários
0 Comentários

0 [+] :

Postar um comentário

Related Posts Plugin for Blogger...