sábado, 20 de agosto de 2005 às 20:28

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A Invasão Cultural Norte-Americana: um verdadeiro manifesto antropofágico de alto teor crítico multifacetado

Nota 5/5
A Invasão Cultural Norte-Americana
Será que os diferentes povos que compõe essa aldeia global conseguirão manter, daqui para frente, a riqueza contida em suas diversidades culturais? Ou será que o atual processo de mundialização da cultura norte-americana deixará todos eles com a mesma cara dos USA? O que acontecerá com a cultura brasileira, se até agora ainda estamos construindo nossa própria identidade cultural?

Para responder a essas perguntas, a autora Júlia Falivene Alves transforma seu livro, A Invasão Cultural Norte-Americana (Editora Moderna, 2004), em um verdadeiro manifesto antropofágico [cultura comendo cultura], sem ufanismos e com alto teor crítico multifacetado. A autora percorre as variáveis que compõe a cultura brasileira, denunciando as conseqüências da invasão cultural norte-americana no Brasil.

O mais grave nesse manifesto é a característica subliminar da invasão. Como se fosse um vírus, infiltrado dentro de nossas mentes. São invasores invisíveis, confundem-se com nossos valores, nossas crenças e nosso estilo de vida. Os invasores estão em nosso tênis (Nike), em nosso som (Punk Rock), são nossos ídolos (Nirvana), estão nos filmes (Star Wars), na nossa comida (McDonald's), na nossa bebida (Coca-Cola), nos nossos apelidos (baby), nos desenhos animados (Scooby-Doo), nos nossos sonhos (Hawaí), enfim. Indubitavelmente somos hospedeiros culturais made in USA.

O livro A Invasão Cultural Norte-Americana, percorre a história buscando a origem da doença. A autora mostra que desde o início de nossa industrialização, somos mantidos por capital estrangeiro, principalmente americano. O imperialismo americano mostra-se na desigualdade do intercâmbio econômico, na qual o Brasil é mero fornecedor de matérias-primas e alimentos e importador de manufaturados, tecnologia e capitais dos Estados Unidos.

Os USA tem o poder de influir sobre os assuntos de interesse público no Brasil, opondo-se e interferindo nas tentativas de emancipação que porventura possam ocorrer, usando para isso tanto pressões diplomáticas, sanções econômicas e campanhas publicitárias, como ainda operações secretas e intervenções militares.

Segundo a autora, "durante a ditadura militar, a TV brasileira se transformaria em anestésico e analgésico socioculturais. Em decorrência, surgiam ante nosso olhos 'dois Brasis': um que a gente de fato vivia, e outro, que a gente apenas 'televia'. Entender como programas e anúncios publicitários televisivos nos manipularam naquele período é meio caminho para nos livrarmos de possíveis manipulações nos dias de hoje".

A autora cita como exemplo a Rede Globo. A emissora foi criada a partir do capital americano através de um consórcio de US$ 5 milhões com o grupo Time-Life. Inclusive nessa época foi aberta uma CPI para averiguar esse misterioso contrato. A CPI concluiu que o acordo infringia preceitos constitucionais, que proibiam a participação de estrangeiros na orientação intelectual e administrativa da TV brasileira. No governo militar de Costa e Silva (1967-1969), o caso foi arquivado.

Gilberto Gil, em seu discurso de posse como ministro do governo Lula, disse:
A multiplicidade cultural brasileira é um fato. Paradoxalmente, a nossa unidade de cultura – unidade básica, abrangente e profunda – também. Em verdade, podemos mesmo dizer que a diversidade interna é, hoje, um dos nossos traços identitários mais nítidos. É o que faz com que um habitante da favela carioca, vinculado ao samba e à macumba, e um caboclo amazônico, cultivando carimbós e encantados sintam-se – e, de fato, sejam – igualmente brasileiros. Como bem disse Agostinho da Silva, o Brasil não é o país do isto ou aquilo, mas o país do isto e aquilo. Somos um povo mestiço que vem criando, ao longo dos séculos, uma cultura essencialmente sincrética. Uma cultura diversificada, plural – mas que é como um verbo conjugado por essa pessoas diversas, em tempos e modos distintos. Porque, ao mesmo tempo, essa cultura é una: cultura tropical sincrética tecida ao abrigo e à luz da língua portuguesa.
Viva a cultura brasileira! Viva a produção nacional! Viva o novo! Viva o inédito!

O livro A Invasão Cultural Norte-Americana é fruto de um estudo amparado por números e fatos que comprovam o colonialismo cultural que o Brasil se submete aos Estados Unidos. É um livro, é um manifesto, é uma luz que se acende nesse mar de penumbra cultural.

Outras resenhas sobre o assunto:

domingo, 14 de agosto de 2005 às 02:23

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Amor é Prosa, Sexo é Poesia - Crônicas Afetivas: boa leitura, mesmo com o excesso de teatralidade

Amor é Prosa, Sexo é PoesiaO livro Amor é Prosa, Sexo é Poesia - Crônicas Afetivas (Editora Objetiva, 2004) é um apanhado de crônicas afetivas escritas pelo extra-série Arnaldo Jabor. É uma anormalidade percorrer a alma feminina na visão de um homem, que segundo ele próprio, nasceu para ser travesti. "O mundo está tão indeterminado que está ficando feminino, como uma mulher perdida. [...] Mas não é um mundo delicado, romântico e fértil da mulher, é um mundo feminino comandado por homens boçais. Talvez seja melhor dizer um mundo travesti".

Jabor ostenta um variada constelação semântica, deixando suas tiradas sempre oportunas e contextualizadas. Embora é preciso dizer que o autor é repetitivo em seus exemplos, além de adorar frases de efeito. Amor é Prosa, Sexo é Poesia mostra um Jabor saudosista. Tudo para ele é saudade. Tudo era melhor no passado. Tudo era mais romântico. Ele menospreza os anos 80 e 90. Em muitos momentos vi um homem perdido no tempo, sem conseguir cortar as amarras de sua geração.

Jabor entende que a "publicidade devastou o amor, falando na 'gasolina que eu amo', no sabonete que faz amar, na cerveja que seduz. Há uma obscenidade flutuando no ar o tempo todo, uma propaganda difusa do sexo impossível de cumprir". Um tapa na cara daqueles que apostam no Marketing Afetivo. Corroborando com Jabor, Humberto Gessinger dos Engenheiros do Hawaii, escreveu a letra da música "3ª do Plural", onde ele diz: "eles querem te vender/eles querem te comprar/querem te matar de rir/eles querem te fazer chorar/quem são eles?/quem eles pensam que são?". A arte faz seu papel de denunciar os excessos, cabe a nós, mercadólogos, abraçar a ética e dormir com ela todos os dias.

Voltando ao Amor é Prosa, Sexo é Poesia, Jabor supera-se, ao escrever: "Se antes, havia a polarização de ideologias em oposições binárias, pretos contra brancos, socialismo versus capitalismo, isso vinha da idéia de 'sistema e contra-sistema', de cultura e contra-cultura. Tudo era banhado pela luz vertical e orwelliana das televisões massificadas, de uma mídia centralizada, buscando uma narrativa única. Vemos agora que a distopia iluminista de Orwell foi passada pelos restos podres do mercado e pela anomia (e anemia) de qualquer projeto totalitário". Apesar do excesso de teatralidade, Amor é Prosa, Sexo é Poesia vale a leitura. Nota 3/5