quinta-feira, 6 de dezembro de 2007 às 02:05

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Os Simpsons - O Filme: uma história sociologicamente incorreta

Sou fã dos Simpsons. Desde sempre. A "Magia Amarela" é irresistível, não há como passar diante da TV e não parar para saber o que está acontecendo com aquela família maluca. Assim como eu, muita gente que acompanha o seriado esperava ansiosa para vê-los na telona. Mas tenho a impressão que os mercadólogos exageraram no lançamento do longa-metragem de Os Simpsons - O Filme (The Simpsons Movie, 2007).

Pouco antes da estréia, Os Simpsons invadiram redes de supermercado, estamparam capas de revista (como a Rolling Stone Brasil), enlataram nossa comida e gritaram em tudo que foi blog: Simpsonize-se! Simpsonize-se! Eu também experimentei (veja aqui). Na minha opinião, os amarelos não precisavam de tanto barulho para fazer do filme um sucesso. Não é de graça que estão há 20 anos no horário nobre da TV americana.

Agora vamos deixar o seriado um pouco de lado e falar do filme. O chavão que muitos críticos estavam usando após a pré-estréia, era que Os Simpsons - O Filme nada mais era senão um episódio alongado do seriado. Teve até gente em revistas especializadas dizendo que não havia motivo suficiente para ir ao cinema "pagar por algo gratuito". O fato é que independentemente do quanto valem, Os Simpsons no cinema é uma experiência nova e prazeirosa. E os roteiristas souberam usar isso a seu favor.

      

O início da história mostra toda a Família Simpson no cinema de Springfield. A cidade inteira curte o lançamento do ano: "Comichão e Coçadinha - O Filme". Então Homer levanta no meio da platéia e de maneira sarcástica dispara: "Todos vocês são idiotas! Estão pagando para assistir um negócio que passa toda semana de graça na TV." A provocação de Homer mostra bem o desafio de Matt Groening e companhia: fazer valer a grana do ingresso.

E vale. O filme diverte a família toda. Piadas apimentadas não faltam. A tradicional frase que Bart escreve no quadro da escola, ganhou um novo contorno: "não farei download ilegal desse filme". O capetinha também gerou polêmica ao aparecer nu pela primeira vez. Além disso, o mais interessante é que cada cena tem seu charme. No concerto do "Green Day", por exemplo, os caras pedem um minutinho para falar de preservação da natureza. Resultado: são apedrejados. Quer crítica maior à onda verde que ganhou o mundo?! Agora bom mesmo foi a entrada da Família Simpson na igreja. O ápice, com certeza. Críticas à igreja são sempre um prato cheio aos agnosticistas.

Como argumento para o filme, Homer precisa provar para todos em Springfield e, principalmente, para sua Marge, que é um homem capaz de concertar as bobagens que faz. Especificamente nesse caso, a bobagem da vez é causada por um silo perfurado e cheio de fezes de porco (bicho de estimação de Homer). Nosso gorducho polui o lago da cidade e causa um desastre de grandes proporções. Isto faz com que uma multidão sedenta por vingança se reúna diante da casa dos Simpsons, querendo matar Homer e sua família.

      

O filme brinca até com essa onda de trilogias e continuações. Em certo momento o filme parece que vai acabar e que a continuação será em "Os Simpsons - Parte 2". Mas é só um susto, logo recomeça. Nunca li nada sobre o processo criativo dos autores, mas ao que parece, os caras vão escrevendo a história e colocando todas as putarias sem censura. Isso até a primeira metade, a segunda é meio melódica.

Nos capítulos finais, a única piada que consegui aproveitar foi a gozação feita com Arnold Schwarzenegger. A idéia de colocar o Exterminador como presidente dos Estados Unidos foi sensacional. Hilária a cena em que ele toma suas decisões com base na teoria do "uni-duni-tê". Isso sem falar na "praticidade" das idéias americanas de acabar com "certos problemas". E também a forma que a população yankee tem de fugir deles. Enfim, Os Simpsons, como sempre, nos dão uma aula de sociologia e emolduram de amarelo nossa sociedade. D'oh! Nota 4/5

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sábado, 1 de dezembro de 2007 às 19:31

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As Férias de Mr. Bean: o bom e velho palhaço voltou

Mr. Bean é um daqueles comediantes que: ou você ama ou odeia. Em 1995, quando apareceu pela primeira vez no programa Fantástico (Rede Globo), o sucesso foi estrondoso. O ator britânico Rowan Atkinson, que interpreta o personagem, fazia uma comédia sem palavras. Caras e bocas que transformavam situações simples em grandes trapalhadas.

O maior mérito do personagem era fazer um humor ingênuo com toques de malvadeza. Como o Renato Aragão nos bons tempos. Hoje você liga a TV e só encontra programas humorísticos com mulheres seminuas, piadas preconceituosas, cenas de constrangimento público e muita vulgaridade. O próprio Didi rumou por um caminho melancólico. Nosso trapalhão esqueceu a fórmula de nos fazer feliz.

      

Voltando ao Mr. Bean. O humorista lançou esse ano o seu segundo longa-metragem: As Férias de Mr. Bean (Mr. Bean's Holiday, 2007). Nele Mr. Bean ganha uma rifa local. De prêmio leva uma câmera filmadora, 200 euros e uma semana de férias no sul da França. O período de sua viagem coincide com a realização do Festival de Cinema de Cannes, um dos mais famosos do mundo.

Daí em diante é só confusão. Acho que ele deve ter pronunciado umas três frases no filme inteiro. Mas é na primeira metade que o comediante está realmente inspirado. Uma verdadeira coleção de momentos hilariantes. Um bom exemplo é a cena em que o o britânico conhece a gastronomia francesa. Particularmente seu famoso prato escargot (apesar do clichê, muito boa a cena). Também divertida a separação entre pai e filho que Mr. Bean promove na estação de trem.

      

Agora antológica mesmo é a cena em que Mr. Bean dança em praça pública para conseguir uns trocados. Sensacional! Esse cara é o máximo. Já no final do filme, aparecem todos os personagens cantando "La Mer", um clássico francês que inclusive já tocou na série Lost. Lembra não? É cantada pela loirinha Shannon. Continua sem lembrar? Foi também ouvida na freqüência da rádio que Hurley e Sayid captam, quando estão na praia. Ah, esquece.

As Férias de Mr. Bean é um filme para a família bolar de rir. Sem palavrões, sem pornografia, apenas o bom e velho palhaço em cena. Humor que emociona e transforma. Não pela história, que é uma das piores que já vi, mas pelo personagem. Mr. Bean representa toda a loucura velada da raça humana. Mr. Bean sou eu, é você. Somos nós quando ninguém está olhando. Nota 3/5

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segunda-feira, 26 de novembro de 2007 às 02:54

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O Senhor dos Anéis - As Duas Torres: o segundo livro da trilogia Tolkien

Nota 4/5
O Senhor dos Anéis - As Duas Torres
O Senhor dos Anéis - As Duas Torres (Editora Martins Fontes, 2002) é o segundo volume da Trilogia do Anel. Em junho comentei o primeiro livro: "A Sociedade do Anel". Quero reforçar aqui a impressão que tive ao lê os dois livros da série. O Senhor dos Anéis é uma história para ser contada em seis filmes. Somente três foi muito pouco para revelar toda a magia da obra de J.R.R. Tolkien.

Mas ao contrário do que ocorreu no primeiro, o filme "As Duas Torres" (2002) é absolutamente fiel ao livro. O capítulo da Barbávore, por exemplo, é igualzinho. Nenhuma grande história foi contada sem que todos não conhecessem. Tudo bem, dessa vez houve um pouco de déjà vu, mas nada que diminua a emoção da história do Um Anel. Então vamos analisar as 364 páginas do livro e contar um pouco das diferenças em relação ao filme.

Começo falando de liderança. Aragorn é um péssimo líder! Dizer isso para alguém que só viu o filme é quase uma blasfêmia. Mas no livro todas as decisões de Passolargo resultam em tragédias. Boa parte dos problemas são causadas pela incompetência do Senhor dos Homens. Leia-se: a morte de Boromir, a morte de Gandalf, o seqüestro dos hobbits, a fuga de Frodo e Sam.

Já Gandalf, que representa um papel secundário no filme, é mostrado no livro como um semideus. E o bom de tudo é que podemos saber o que houve nas horas que antecederam sua morte e o desfecho da luta contra o dragão. Outro ponto forte do mago é o duelo com o já derrotado Saruman. E uma curiosidade: o cavalo Scardufax, que Gandalf ostenta, foi por ele roubado. Os Senhores dos Cavalos ficaram irados. Somente após curar o Rei Théoden, é que o Mago Branco finalmente ganhou a posse do cavalo.

Agora responsa rápido: o que você sabe sobre os Orcs? Eles são nojentos. Okay, o filme só mostra isso mesmo. Mas através do livro conhecemos uma nova perspectiva da história. As páginas nos levam à intimidade dos monstrengos. No meio deles a dúvida: quem manda, Sauron ou Saruman? Essa e outras perguntas só estão no livro. Surpreendente também foi saber que no meio da batalha do Abismo de Helm, Aragorn achou tempo para negociar com os Uruk-hai. Falando nele, outra curiosidade: no filme Aragorn cai de um penhasco e quase morre, lembra? Pois no livro não tem nada disso.

A história de O Senhor dos Anéis - As Duas Torres, apesar de sofrer com a "síndrome do irmão do meio", funciona numa crescente. Já beirando o fim, entramos numa das mais belas passagens: a Floresta de Fangorn. Aqui o livro é bem mais lento que o filme. Graças a essa lentidão, nos familiarizamos com o anão Gimli. O papo dele com o elfo Legolas Verdefolha, sobre as Cavernas de Helm, foi surpreendente. Quebrou o estereótipo de marrento que o anão costuma carregar.

Diferente do filme, os Caveleiros de Rohan, incluindo o Rei Théoden, acompanharam Gandalf na comitiva para Isengard, através da grande floresta das árvores falantes. Pensando um pouco com Administrador de Empresas, a conclusão é que O Senhor dos Anéis daria um belo parque temático. Eu pagaria qualquer preço para fazer um passeio a cavalo por Fangorn. Não sei se tal parque já existe, mas seria um sucesso.

Em termos de estrutura narrativa, livro e filme divergem um pouco. Principalmente com relação a seqüencia da história das comitivas. No livro cada história é contada por completo. Já no filme elas se intercalam. Por fim, vem o tão comentado capítulo a Toca da Laracna. Essa é justamente a parte que mais diverge entre livro e filme. No livro o hobbit Frodo não briga com seu amigo Sam, mandando-o embora. Aqui os dois entram juntos na toca da grande aranha. Também não é Frodo que briga com a criatura Gollum, e sim o próprio Sam. Aliás, esse episódio sequer aparece no segundo filme da trilogia.

E chega ao fim mais um episódio do fantástico texto do mestre Tolkien. Um livro que leio com o sentimento de dúvida. O que é melhor: assistir ao filme e lê o livro, ou o inverso? Confesso que sempre achei que a obra original merece prioridade. Mas o diretor e roteirista Peter Jackson adaptou a obra de Tolkien de uma maneira tão especial, que livro e filme se confundem. Pois bem, a jornada agora entrará em sua reta final. Ainda espero muitas surpresas. Tchau.

Outras resenhas sobre o assunto:

O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel: o primeiro livro da fantática aventura (09/06/07)
O Hobbit: um prelúdio da trilogia "O Senhor dos Anéis" (14/01/07)
As Crônicas de Gelo e Fogo - A Guerra dos Tronos: uma intrigante aventura épica de poder e conquista (04/03/12)

domingo, 18 de novembro de 2007 às 16:44

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Ligeiramente Grávidos: uma comédia sobre sexo, drogas e bebês

Para quem acabou de ser pai, Ligeiramente Grávidos (Knocked Up, 2007) me pareceu um ótimo filme. Porém, não é tudo aquilo que andam dizendo por aí. A revista SET, por exemplo, fez tantos elogios que cheguei a acreditar que o filme ganharia o Oscar. O fato é que Ligeiramente Grávidos é uma comédia juvenil bem mais inteligente que "American Pie" (1999), clássico do besteirol.

A meu ver, o problema é que o protagonista é absurdamente bossal. O cara passa o tempo todo falando de sexo, bacanais, drogas. Será que esse fulano é o retrato do jovem americano? Ele fala sobre uso de drogas com uma naturalidade incrível. Até mesmo com sua namorada grávida, ele fica malucão com maconha, crack e outros entorpecentes. Nos Estados Unidos a situação do jovem é essa mesmo?

Acho difícil alguém aqui no Brasil tomar o gorducho como espelho. Simplesmente é fora de nossos padrões culturais. Nesse caso é melhor deixar tudo isso de lado, fingir que somos americanos aloprados, amanteigar a pipoca e curtir o filme. Então... vamos ao play.

      

Allison Scott (Katherine Heigl) é uma jovem bonita e ambiciosa, que está para estrear como repórter de uma importante emissora de TV. Ben Stone (Seth Rogen) e seus quatro amigos dividem o aluguel de uma casa bagunçada, sendo que todos insistem em se manter na adolescência, mesmo já tendo 20 e poucos anos. Allison e Ben se conhecem numa casa noturna e, completamente bêbados, passam a noite juntos. A ligação entre eles terminaria aí, mas algumas semanas depois Allison liga para Ben para informá-lo que está esperando um filho dele. A notícia faz com que Ben passe a questionar sua própria vida, além de aproximar duas pessoas que preferiam jamais ter se conhecido.

O melhor do filme acontece quando a grávida Allison e sua irmã trintona Debbie (Leslie Mann), são barradas na porta de uma casa noturna. O porteiro autoriza somente as mulheres mais lindas e jovens a furar a fila e entrar. Nossas meninas são barradas e mandadas para o rabo da fila. Elas devem esperar, como os mortais. Aí começa a discussão: "Você não é Deus para escolher quem é bom e quem não é", diz Debbie . Depois de muita insistência, o porteiro dá uma lição nas duas:

      

"Você está certa. Eu lamento muito. Odeio esse maldito trabalho. Não quero ser aquele que julga e decide quem entra. Essa merda faz mal ao meu estômago. Tenho diarréia devido ao estresse. Não é que você não seja quente. Adoraria dar um tapa nesse traseiro. Poderia destruí-lo. Mas não posso te deixar entrar porque você é velha. E ela, grávida. Não podemos aceitar velhas e grávidas. Isso é loucura. Só posso deixar passar 5% dos negros. Significa que se houverem 25 pessoas aqui, só poderei deixar que entre um negro e um quarto. Então espero que haja um nanico negro na multidão. Por que estão aqui mesmo assim? Precisam estar numa aula de ioga ou algo do tipo. Que diabos essa grávida faz numa casa noturna? Seu traseiro velho deveria saber mais do que ninguém."

Desenvolvido para ser uma seqüência de "O Virgem de 40 Anos" (2005), com Seth Rogen e equipe reprisando seus personagens, Ligeiramente Grávidos ganhou vida própria. O sucesso do filme mostra que foi uma decisão acertada. Eu gostei. Afinal, não é todo dia que conhecemos alguém que ganha a vida assistindo filmes e procurando cenas de nudez para jogar em seu website (estilo Mr. Skin). Isso sem contar o barato que deve ser mascar cogumelos alucinógenos durante uma apresentação psicodélica do Cirque de Soleil em plena Las Vegas. Mandrake! Nota 3/5

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Outros posts sobre o assunto:

quinta-feira, 15 de novembro de 2007 às 22:55

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O Ultimato Bourne: o melhor filme de ação do ano

O Ultimato Bourne (The Bourne Ultimatum, 2007) é a terceira e última parte da Trilogia Bourne, a aventura do espião sem memória saído dos livros de Robert Ludlum. Um filme de ação inteligente, rápido e empolgante. Por esse trabalho, o diretor Paul Greengrass se tornou meu favorito na corrida ao Oscar 2008. Para quem não conhece a história contada no filme, Jason Bourne (Matt Damon) é uma mistura de Jack Bauer (do seriado "24 Horas"), Michael Scofield (do seriado "Prison Break") e MacGyver (do extinto seriado "Profissão: Perigo"). Só.

Antes de começar, já sabemos que Bourne é um espião da CIA que vive sem país e sem passado. O cara foi submetido a um treinamento brutal. E não lembra de nada. Ele é uma sofisticada arma humana, perseguido incessantemente pelos seus ex-chefes do Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Após sua última aparição o cara decidiu sumir para sempre e esquecer a vida que lhe foi roubada.

      

O Ultimato Bourne começa no metrô de Londres. Uma matéria publicada num jornal especula sobre sua existência. Isso torna Bourne novamente um alvo. No filme, o programa Treadstone, que criou Bourne, já não existe mais. O problema é que os federais usaram o programa para desenvolver um ainda mais letal: o Blackbriar. Esse novo programa objetiva desenvolver uma geração de novos matadores treinados secretamente pelo governo.

Essa terceira parte da Trilogia Bourne nos leva à lindas locações na Inglaterra, Espanha e Marrocos. Mas é no país africano que somos presenteados por uma das mais espetaculares perseguições do cinema. Explosões, batidas, socos e muita correria pelos estreitos becos de uma típica cidade marroquina. Mas não dá para esquecer a perseguição de carro em Nova York. Eu imagino a trabalheira para filmar aquilo tudo.

            

Gostei muito do filme. O Ultimato Bourne é um marco do cinema-ação. Especialistas dizem que a Trilogia Bourne tem tanta importância para a década de 2000, quanto "Duro de Matar" teve para os anos 1980. Com textos curtos, locações inspiradoras, uma câmera alucinada e razoáveis interpretações, O Ultimato Bourne é o melhor filme de ação do ano. Mesmo que você não tenha assistido aos outros dois filmes, recomendo muito. Nota 5/5

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quarta-feira, 31 de outubro de 2007 às 04:34

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Tropa de Elite: mais uma vítima do jogo midiático

Que merda, acabei de assistir Tropa de Elite (Tropa de Elite, 2007). Não há saída, estamos todos fudidos. Que filme louco rapaz. Tropa de Elite cospe fogo e fala tudo que o povo brasileiro queria dizer, mas não conseguia. É como se um filho-da-puta alemão saísse metendo bala com uma AK47 num quarto escuro lotado de gente. O som das balas é mais ou menos assim...

Parapapapapapapapapa... / Morro do Dendê é ruim de invadir / Nois com os Alemão vamo se diverti / Porque no Dendê, eu vo dizer como é que é / Mas não tem mole, nem pra DRE / Pra entrar lá na de Deus até a BOPE treme / Não tem mole pro exército civil nem pra PM / Eu dou o maior conceito, pra os amigos meus / Mais Morro Do Dendê também é terra de deus.

Os rappers Cidinho e Doca dão o tom no começo. Mas a farra termina logo no primeiro pipoco. O filme é baseado no livro "A Elite da Tropa", do antropólogo Luiz Eduardo Soares, uma das maiores autoridades do Brasil em segurança, contando com ajuda de dois policiais, André Batista e Rodrigo Pimentel. Não li o livro, infelizmente.

Tropa de Elite é um filme violento. Mais violento do que todas as merdas que Hollywood nos impõe goela abaixo. O longa brazuca põe no chinelo qualquer filme do gênero lançado nos últimos 5 anos. Que se foda o Oscar, Tropa de Elite já deixou o seu recado. Covardia mesmo é não premiar um trabalho de tamanha qualidade. Wagner Moura deu um show como Capitão Nascimento, isso é indiscutível, tanto que não se fala de outra coisa. Mas direção (José Padilha), edição (Daniel Rezende) e fotografia (Lula Carvalho), fazem tudo funcionar com a interatividade de um videogame. A câmera sempre está onde gostaríamos que ela estivesse. E isso não tem preço.

      

Tropa de Elite virou moda, caiu na boca da torcida do Flamengo, virou tatuagem de playboy, animou festas e está fazendo a cabeça dos brasileiros. E não me venha com ideologias de merda, a pirataria [imprensa?] é a grande responsável por levar o filme até o estrelato, ou seja, mais de 2 milhões de espectadores nos cinemas. Fora isso, uma pesquisa feita pelo I-bope chegou a estimar que mais de 11 milhões de brasileiros teriam visto o filme de forma ilegal. Agora me diga: de que adianta essa história ficar presa na cabeça dos filhos-da-puta da classe média-alta? "Cidade de Deus" (2002) fez alguma diferença pra você? [seu viadinho de merda!] Fez? Tropa de Elite fará.

Tropa de Elite mete o pau [literalmente] nos maconheiros, nos otários que se vestem de branco pela paz, na polícia militar do Rio de Janeiro e em tudo que aparece pelo caminho. O BOPE não entra pra morrer, entra pra matar. O símbolo deles é uma caveira. Acredite, eles não se vestem de preto à toa. O treinamento dos caras é mais pesado que o do exército de Israel. O que a polícia militar suja, o BOPE limpa. Missão dada é missão cumprida.

      

Putz... acho que exagerei. Só agora, depois de sentir minha pressão sangüínea voltar lentamente ao normal, quero, com calma, destacar alguns pontos do filme que irão tirar meu sono logo mais. Começo com as variações de humor do Capitão Nascimento. Tudo bem que ele é o cara que todo distopiano gostaria de ser, mas vê-lo gritar daquele jeito com a pobrezinha de sua mulher foi aterrorizante. Eu cheguei a pensar que o Capitão tinha um botão "liga-desliga", mas depois daquela cena, vi que não. O cara é Jack Bauer 24 horas por dia mesmo.

Outra coisa é o sistema montado pela polícia. Ele [sistema] não defende a sociedade, defende o próprio sistema. Que coisa louca, fica parecendo que existe um saco de plástico prendendo a respiração da sociedade civil. Por fim destaco o debate em sala de aula sobre a polícia. Que momento monstruoso de nosso cinema. Parecia que eu estava lá, sentado naquela faculdade. Dando minha merda de opinião sobre um assunto tão distante [e tão próximo] de minha realidade. Feliz da vida por ser um "cidadão informado". Na verdade sou um cego, mais um babaca vítima do jogo midiático. Só nos resta implorar: "Na cara não chefe, para não estragar o velório". Nota 5/5

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quinta-feira, 27 de setembro de 2007 às 02:27

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Sicko - S.O.S. Saúde: um coquetel-molotov fumegante na cabeça do Tio Sam

Sicko - S.O.S. Saúde (Sicko, 2007) é o novíssimo trabalho do extra-série Michael Moore, o responsável pelo histórico documentário "Fahrenheit 9/11" (2004). E como sempre, mais uma polêmica para o currículo do cineasta: um dossiê sobre o sistema de saúde pública dos Estados Unidos.

O resultado é um coquetel-molotov fumegante lançado bem no meio da cabeça do Tio Sam. Uma crítica ferrenha e bem arquitetada ao Império Yankee. Não serei cínico, confesso que senti certo prazer em vê o descontrole americano numa área tão essencial como a saúde.

O filme começa mostrando os truques usados por alguns americanos para receber atendimento em hospitais do Canadá. Depois Moore nos levar à Inglaterra. Na terra da Rainha ele conhece o Serviço Nacional de Saúde Britânico. Logo depois a viagem segue até a França. As descobertas de um americano em Paris chamam atenção pelas inúmeras diferenças em áreas como saúde, jornada de trabalho, férias e tudo que envolve "direitos sociais".

O xeque-mate foi levar alguns dos personagens do documentário (os doentes americanos) para buscar assistência médica gratuita em Havana, Cuba. Sensacional! O impacto simbólico desse aventura foi tão grande que o Departamento do Tesouro abriu uma investigação em relação a essa viagem. Uma clara demonstração de perseguição ao maior opositor do Governo Bush.

No longa Michael Moore diz que existem 50 milhões de norte-americanos sem seguro médico. "Eles rezam todos os dias para não ficarem doentes porque 18.000 deles morrerão neste ano, simplesmente porque eles não tem seguro". O cineasta faz revelações sobre as Companhias de Seguros de Saúde dos EUA, mostrando a forma como agem para aumentar seus lucros.

      

O sonho americano não é tão dourado como aparenta. Pessoas bem sucedidas falam no documentário que perderam tudo graças a tratamentos de saúde caros. Idosos de 80 anos muitas vezes são obrigados a trabalhar para poder comprar remédios que necessitam. Pessoas gordas demais ou muito magras são rejeitadas pelos severos critérios das Companhias de Seguro.

E o porquê de tudo isso? Num dos melhores momentos do filme, um estudioso traça uma visão perturbadora do controle social exercido pelo sistema para dominar a população. A distopia literária da década de 40, enfim, ganha corpo, torna-se real, Sicko nos mostra um futuro ainda mais opressivo e destruidor. A dominação não só ocorre diante de nossos olhos, como nós a validamos diariamente.

"Acho que a democracia é a coisa mais revolucionária do mundo. Mais revolucionária do que idéias socialistas ou de qualquer outra pessoa. Se tiver poder, ele é usado para prover as suas necessidades e as da sua comunidade. E esta idéia de escolha, de que o capital fala constantemente, 'tem que ter uma escolha', a escolha depende da liberdade de escolher. E se estiver coberto de dívidas, não tem liberdade de escolha.

Parece que o sistema beneficia se o trabalhador comum estiver coberto de dívidas. As pessoas em dívida perdem a esperança, e pessoas sem esperança não votam. Dizem que toda as pessoas devem votar, mas acho que se os pobres na Grã-Bretanha ou nos Estados Unidos, parecem que votassem em pessoas que representassem os seus interesses, seria uma verdadeira revolução democrática. E não querem que isso aconteça, por isso mantém as pessoas oprimidas e pessimistas. Creio que há duas formas nas quais as pessoas são controladas: em primeiro lugar, assustar as pessoas e em segundo, desmoralizá-las.

      

Uma nação educada, saudável e confiante é mais difícil de governar. E acho que há um elemento no pensamento de algumas pessoas, 'não queremos que as pessoas sejam educadas, saudáveis e confiantes, porque ficariam fora de controle'. 1% da população mundial detém 80% da riqueza. É incrível que as pessoas tolerem isso, mas elas são pobres, estão desmoralizadas, estão assustadas. E então, pensam que o mais seguro é seguir ordens e esperar o melhor."

Somos verdadeiramente livres? Por que o povo americano não faz nada? Medo do Governo? E no Brasil? Somos tão diferentes assim? Nossos hospitais funcionam? Estamos felizes com nossos Planos de Saúde? É possível uma saúde pública de qualidade? Ou isso é um sonho impossível para os brasileiros?

Sicko é uma belíssima demonstração de inteligência americana. Duas horas de revelações intrigantes, como a emblemática história do sujeito que perdeu dois dedos e teve que escolher apenas um deles para repor, já que não tinha o dinheiro suficiente. E como todo documentário de Moore, não podia faltar Bush falando asneiras. A diferença é que em Sicko o cineasta põe parte da culpa na imprensa: "Elas [TVs americanas] ajudaram o presidente Bush a mentir para o povo americano, não fizeram perguntas difíceis, são cúmplices de Bush". Pá pá pá, cuidado para não levar um tiro na testa. Nota 3/5

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segunda-feira, 24 de setembro de 2007 às 00:10

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Déjà Vu: o passado e o futuro lado a lado

Cá entre nós, filmes com Denzel Washington parecem todos iguais. O cara sempre faz papel de um policial que se envolve com a vítima e para salvar "Los Angeles" terá que matar meio mundo de gente. No thriller Déjà Vu (Deja Vu, 2006) é mais ou menos a mesma coisa.

O diferencial empregado pelo diretor Tony Scott em conjuntos com os roteiristas Bill Marsilii e Terry Rossio é um ingrediente completamente novo nas histórias policiais. Os caras resolveram brincar com o tema "viagem no tempo". Eles criaram uma agência dentro do serviço de inteligência da polícia americana, especializada em monitorar o passado e conseguir com isso descobrir autores de crimes.

      

Durante o filme eles investigam uma ação terrorista que explodiu um barco lotado de militares com suas famílias. Doug Carlin (Denzel Washington) com ajuda da máquina começa a buscar pistas que impeçam a ação do assassino. No ápice da loucura dos roteiristas, nosso herói usa um capacete em que enxerga o passado pelo olho esquerdo e o futuro pelo direito. Isso aí pra mim é coisa de Exterminador do Futuro!

Olha só, não sei bem como isso funciona, pergunte aos caras que fizeram o filme. Mas a discussão é boa. E embora muitos digam que é impossível viajar no tempo, eu acredito ser possível. Em "Minority Report - A Nova Lei" (2002), Steven Spielberg, baseado em história de Philip K. Dick, brincou conosco ao colocar investigadores ligados a pessoas especiais que "previam o futuro", ou seja, os caras prendiam os assassinos antes dos assassinatos propriamente ditos.

      

O problema é que a cadeia de indução do filme do Spielberg era mais sofisticada, com direito a toda uma sociedade futurista. Em Déjà Vu a máquina do tempo é hoje. E na minha opinião o filme pecou por isso. Mas não é um filme reprovável, pelo contrário, gostei da nova experiência cinematográfica, gostei do "novo". Nota 2/5

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quinta-feira, 20 de setembro de 2007 às 01:29

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Número 23: um suspense sobre obsessão

Número 23 (The Number 23, 2007) é um suspense perturbador orquestrado por Joel Schumacher (direção) e Fernley Phillips (roteiro). Principalmente quando se assiste ao filme sem ter a menor idéia do que vem pela frente. Um longa para derrubar o estigma de que Jim Carrey é sinônimo de humor.

A história gira em torno de Walter Sparrow (Jim Carrey), um simplório pai de família que ganhou um livro de presente de sua esposa, Agatha (Virginia Madsen). O livro chama-se "O Número 23" e narra a obsessão de um homem com este número e como isto começa a modificar sua vida. Ao lê-lo Walter reconhece várias de suas passagens, como sendo situações que ele próprio viveu.

      

Aos poucos ele nota a presença do número 23 em seu passado e também no presente, tornando-se cada vez mais paranóico. O livro termina com uma morte brutal, Walter passa a temer que ele esteja se tornando um assassino. Meio louco não acha? Pois tudo no filme é assim. A começar pela fotografia barulhenta, parecida com "Clube da Luta" (1999). São muitas sombras, silhuetas, muito sexo, reviravoltas, surpresas e um constante clima de perturbação.

O engraçado é que o número 23 realmente parece que controla nossas vidas. Veja se não é verdade... o mundo tem uma inclinação 23° (na verdade é de 23,5°, mas 5 é apenas 2+3), existem 23 axiomas na geometria de Euclides, o corpo humano possui 46 cromossomos (23 de cada um dos pais). Achou pouco? O sangue leva 23 segundos para circular, os Maias acreditavam que o fim do mundo ocorreria em 20 de dezembro de 2012 (20 + 12 é? 23 ao contrário, ou 20 + 1 + 2).

            

Jogaram a bomba em Hiroshima às 8h15 (8+15 = 23), as explosões em Waco, Texas e Oklahoma City foram em 19 de abril (4+19 = 23), o Trópico de Câncer está a 23,5° norte, o de Capricórnio a 23,5° sul, 10.886 é o número que Al Capone usou em seu uniforme na prisão. Vou parar por aqui. Para um leigo, isso é fantástico. Mas quem assiste a série de TV Lost, isso aí não é novidade. Há muito tempo Lost explora os números 4 8 15 16 23 42 e suas enigmáticas variantes. Sem levar o argumento do filme muito a sério, Número 23 chama atenção e merece aplausos. Nota 3/5

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