segunda-feira, 20 de novembro de 2006 às 01:36

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Jogos Mortais 3: resultado de um pacto com o demônio

Semana passada eu estava em Brasília/DF, aproveitei para assistir um filme no cinema do shopping Pátio Brasil. Entre as boas opções em cartaz, optei por Jogos Mortais 3 (Saw 3, 2006).

Consegui um bilhete para a sessão das 21hs, última da noite. Paguei incríveis R$17,50, praticamente um DVD. Esses caras de Brasília são loucos. Mas justifica pelo fato da cidade ser dona da maior renda per capita do Brasil, mais de R$17 mil!!! Já os turistas, como sofrem...

Pouco antes das 21hs fui procurar a tal sala 1. Não encontrei ninguém pelo caminho e fui entrando. Não demorou muito e já estava de cara com a tela. Cheguei atrasado? Passei longos 5 segundos para entender que a sessão anterior ainda não tinha acabado [não sou burro, apenas fiquei meio confuso pelo horário de verão, acredite]. Resultado: assisti a última cena e acabei comendo o bolo antes do parabéns. Triste.

Vacilo à parte, encontrei a fila. Alguns minutos e o povão começou a aglomerar. Contei uns 50 malucos que nem eu. Mas Jogos Mortais não escolhe público, tinha patricinhas, marombeiros, punks, coroas, pivetes e casais, muitos casais. Agora me diga: o que faria um cara levar a namorada para assistir um filme do cacife de Jogos Mortais?

      

Vamos ao filme. Jogos Mortais 3 é a terceira parte do melhor filme de terror dos últimos anos. Com tantos remakes pipocando por aí, curtir um longa tão original é um tanto especial. Dirigido por Darren Lynn Bousman e escrito por Leigh Whannell, o filme baseia-se na história de James Wan e Leigh Whannell.

Quem assistiu "Jogos Mortais 2" (2005), deve lembrar que o "assassino" Jigsaw (Tobin Bell), estava a beira da morte. Então, para propagar suas idéias, ele convoca a jovem Amanda (Shawnee Smith). A bela morena também foi destaque nos filmes 1 e 2 como uma das "jogadoras" de Jigsaw.

Em Jogos Mortais 3 o velho passa todo o filme deitado numa maca, quem comanda os jogos é mesmo Amanda. Paciente terminal de um câncer, Jigsaw manda seqüestrar a médica Lynn Denlon (Bahar Soomekh). Nela ele instala um equipamento mortal controlado por seus batimentos cardíacos. Caso ele morra, ela morre também.

Mas esqueça a história. É fraca. O barato do filme são as imagens. Logo na primeira cena um sujeito é obrigado a esmagar o próprio pé na tentativa de fugir de correntes. Confesso que cheguei a levantar da cadeira para ir embora. Comecei a sentir na boca o gostinho da pizza que havia comido algumas horas antes. Mesmo assim resolvi ficar, afinal, 17,50 são 17,50!

Na cena dois aparece um camarada todo grampeado em correntes. Ele tem 1 minuto para fugir, senão uma bomba destrói tudo. A cada grampo que ele descolava da pele, mais próximo do chão eu ficava. Destaque para os gritinhos da pláteia, torcendo para o sujeito morrer de uma vez.

      

Não vou contar tudo do filme, assista. Mas não posso deixar de falar de mais uma cena. Uma mulher está amarrada pelo tórax. Na sua frente um tubo contendo ácido e no fundo a chave que a soltaria da armadilha. Também 1 minuto para sair. O ácido queimando a mão da mulher é sinistro. E inútil também. A máquina divide a pobre em duas partes, deixando a moça parecendo um frango de padaria. Bizarro!

Agora é sério, achei Jogos Mortais 3 explícito demais. Para se ter uma idéia, o filme teve que ser enviado 7 vezes ao MPAA para obter uma censura tipo R. Em todas as vezes anteriores o filme recebera uma censura tipo NC-17, mais rigorosa. Para mim, a maioria das cenas poderia ter ficado apenas na nossa imaginação.

Algumas pessoas saíram dizendo que os produtores do filme fizeram algum pacto com o demônio. Eu acho que os caras fizeram pacto foi com dono de frigorífico, isso sim. O certo é que Jogos Mortais 3 é mais uma vez sucesso de público. E veja só, já está confirmado para novembro de 2007, "Jogos Mortais 4".

No final dei graças por ter saído vivo. Fiquei com medo de um candango maluco sair metralhando todo mundo. E não é nada difícil alguém acreditar na teoria de Jigsaw, supondo que somente através desses jogos demoníacos as pessoas aprenderão a valorizar a vida. Por via das dúvidas, sou tipo B positivo. Nota 3/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

terça-feira, 14 de novembro de 2006 às 23:05

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O Iluminado: o pior filme de Stanley Kubrick

O Iluminado (The Shining, 1980) é um filme de terror escrito por Stanley Kubrick em parceria com Diane Johnson, baseado no livro homônimo de Stephen King. Já comentei aqui o mais famoso filme do Kubrick, "Laranja Mecânica". Já O Iluminado, não é tudo que aparenta ser.

A história é sobre solidão e loucura. O personagem principal Jack Torrance (Jack Nicholson) é contratado como zelador de um majestoso hotel em baixa temporada. Logo na entrevista de contratação Jack é avisado que o hotel sofre de uma "maldição". Nenhum homem consegue passar os longos e tenebrosos 3 meses de rigoroso inverno, sem enlouquecer.

Isolado nesse hotel fantasma com a mulher (Shelley Duvall) e o filho (Danny Lloyd), Jack tenta passar seu tempo escrevendo um livro. Constantemente interpelado, ele vai tornando-se cada vez mais agressivo e perigoso. A loucura chega ao auge quando Jack começa a vê fantasmas por todo o hotel.

      

Sinceramente? Não gostei do filme. Muito trash! É engraçado como alguns filmes tem tudo para me conquistar mas não conseguem. Lembro de "O Apanhador de Sonhos" com Morgan Freeman, baseado no mesmo Stephen King, que achei ridículo. Um monstro que entra pelo ânus das pessoas. Bizarro ao extremo! Nunca li os livros do Stephen King, mas tenho certeza que são bem melhores que os filmes.

O Iluminado recebeu 2 indicações ao Framboesa de Ouro, de Pior Diretor e Pior Atriz (Shelley Duvall), a última foi muito merecida. As caras e bocas de Shelley ficaram muito engraçadas. Mesmo sendo uma história terror, é impossível não morrer de ri. Apesar dos pesares, eu diria que Jack Nicholson é a salvação. O filme é todo dele. Nota 1/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

sábado, 11 de novembro de 2006 às 03:20

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As Paixões e os Interesses - Argumentos políticos a favor do capitalismo antes do seu triunfo

As Paixões e os InteressesO aristocrata francês Charles-Louis de Secondat, o Barão de Montesquieu, em 1748 escreveu o livro "Espírito das Leis", em que dizia que para os homens, é uma felicidade encontrarem-se numa situação em que, ao mesmo tempo em que as suas paixões inspiram-lhes a idéia de serem maus, eles têm interesse em não sê-lo.

É a partir desse argumento de Montesquieu que em 1977 o alemão Albert O. Hirschman, inspirou-se para escrever o ensaio As Paixões e Os Interesses - Argumentos políticos a favor do capitalismo antes do seu triunfo (Editora Record, 2002). Em pouco mais de 150 páginas o autor defende a crença que o capitalismo desperta algumas tendências benignas do homem à custa de algumas malignas. O âmago do debate é a idéia que o interesse próprio é a única salvação para o futuro das sociedades.

Antes de tudo, o próprio Hirschman no prefácio que seu livro, nos avisa que não adota nem se opõe a nenhum conjunto de pensamento existente, segundo ele, o livro tem a qualidade especial de se desenvolver de maneira livre e independente. Veremos.

O tema proposto por As Paixões e Os Interesses é instigante, tendo levado o autor a navegar pelo pensamento social dos séculos XVII e XVIII, atrás nascimento do pensamento capitalista. Para Hirschman, esse período foi marcado pela anarquia intelectual decorrente da inexistência de fronteiras interdisciplinares acerca das teorias econômicas e políticas. Com isso, filósofos e economistas políticos da época podiam especular, sem inibições acadêmicas, sobre a expansão comercial e o crescimento industrial dos países.

A parte um do livro trata da idéia de paixões reprimidas. "No início da era cristã, Santo Agostinho forneceu diretrizes básicas para o pensamento medieval denunciando o desejo pelo dinheiro e posses como um dos três pecados principais do homem degradado, sendo o desejo pelo poder e o desejo sexual os outros dois." Para vencer essa barreira ideológica, adotou-se uma estratégica semântica. Montesquieu propôs a busca pela glória, e não com o desejo pelo dinheiro. Uma justificativa sofisticada amplamente adotada nos dias de hoje.

Outro fato histórico que fortaleceu o pensamento econômico ocorreu com a publicação do livro "A Riqueza das Nações", de Adam Smith. Antes dele, o pensamento predominante era de Bernard Mandeville, que tratava a paixão por bens materiais como um "vício particular", indo contra os "benefícios públicos". Smith amorteceu a penetração desse chocante paradoxo, substituindo "paixão" e "vício" por termos brandos como "vantagem" e "interesse".

Porém, até aqui ninguém havia explicado o lugar que o "interesse" ocupava em relação às outras duas categorias que tinham dominado a análise da motivação humana desde Platão, ou seja, as paixões de um lado, e a razão de outro. "Mas é precisamente contra os antecedentes dessa tradicional dicotomia que o surgimento de uma terceira categoria no final do século XVI e início do XVII pode ser entendido."

"Como a paixão era considerada destrutiva e a razão ineficaz, a visão de que a ação humana podia ser exaustivamente descrita por atribuição a uma ou a outra significava uma perspectiva extremamente sombria para a humanidade. Uma mensagem de esperança foi portanto transmitida pela introdução do interesse entre as duas tradicionais categorias da motivação humana. O interesse era visto na realidade participando da melhor natureza de cada um, como a paixão do amor-próprio melhorada e contida pela razão, e como razão que recebe orientação e força daquela paixão. A resultante forma híbrida de ação humana era considerada isenta tanto da destrutividade da paixão quanto da ineficácia da razão."

A parte dois do livro faz um paralelo entre a expansão econômica e a ordem política. Interessante observar aqui o funcionamento do mundo capitalista a partir dos pressupostos de Montesquieu. O filósofo defendia que "o efeito natural do comércio é o de levar à paz. Duas nações que negociam juntas tornam-se mutuamente dependentes: se uma tem um interesse em comprar, a outra tem em vender [...] todas as uniões são baseadas em necessidades mútuas."

Outro personagem que predomina nessa parte do livro é Adam Smith e suas idéias sobre as conseqüências da busca individual pela riqueza. "É dessa maneira que os interesses e paixões particulares dos indivíduos os dispõem naturalmente a voltar o seu capital na direção de aplicações que em casos comuns são as mais vantajosas para a sociedade."

Na terceira e última parte de As Paixões e Os Interesses, Hirschman nos convida a uma reflexão acerca dos episódio intelectuais debatidos até aqui. Para ele, a realidade do desenvolvimento do capitalismo destruiu a idéia que os homens em busca de seus interesses individuais seriam eternamente inofensivos.

"Como o desenvolvimento econômico nos séculos XIX e XX destruiu milhões de pessoas, empobreceu numerosos grupos ao mesmo tempo em que enriquecia alguns, causou um desemprego em larga escala durante as depressões cíclicas e produziu a moderna sociedade de massa, ficou claro para um certo número de observadores que aqueles que foram surpreendidos por essas violentas transformações ocasionalmente se tornariam passionais - passionalmente zangados, apavorados, ressentidos."

As Paixões e Os Interesses é um livro sobre as história das idéias na sociedade capitalista. Hirschman nos oferece um cardápio de interpretações sobre a ascensão do capitalismo, aventurando-se pelos pensamentos de Max Weber, Adam Smith, Karl Marx, James Steuart e diversas outras figuras iconoclastas que permeiam nossas mentes. Ao final, e afinal, tudo que se pode querer da história, e da história das idéias em particular, é não resolver problemas, mas elevar o nível do debate. Nota 4/5

segunda-feira, 6 de novembro de 2006 às 01:16

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A Luta Pela Esperança: vencer para não morrer de fome

Você vai ter que pagar R$14 para lê esse texto. Ao final, caso não fique satisfeito, devolvo seu dinheiro. Já imaginou? Pois é isso que a rede americana de salas de cinema AMC fez com o filme A Luta Pela Esperança (Cinderella Man, 2005). Assistiu, não gostou, pegue seu dinheiro na saída. Bem legal!

Estou torcendo para isso virar moda. Tem cada filme por aí que não vale nem os R$2 do aluguel. Mas os caras não são tão bobos assim. Fizeram isso com A Luta Pela Esperança, porque sabem que é um baita filme, tendo recebido 3 indicações ao Oscar 2006.

O longa é dirigido pelo americano Ron Howard, o mesmo de O Código Da Vinci (2006, leia meu post) e Uma Mente Brilhante (2001). Nesse filme o diretor volta a trabalhar com Russell Crowe, que interpreta o papel do pugilista Jim Braddock.

Baseado em fatos reais, a história de Braddock é uma justificativa para falar do sofrimento do povo americano durante o período que sucedeu a quebra da Bolsa de Nova York em 1929, período conhecido como A Grande Depressão. Na perspectiva sociológica, o filme nos apresenta imagens de uma América nada próspera. E Braddock é o espelho desse povo.

      

Achei muito parecido com o Brasil de hoje. Perceba. Braddock é reconhecidamente um lutador de talento, porém, os desafios são tremendos. E após algumas derrotas, Braddock se vê obrigado a trabalhar fazendo bicos para poder sobreviver.

Algumas cenas marcam bastante. Uma delas Braddock deixa de comer para alimentar sua pequena filha, indo no dia seguinte lutar com a barriga vazia. O filme também reforça alguns valores importantes para os americanos como: não roubar (mesmo diante da fome) e somente aceitar a ajuda do Estado em último caso. Inclusive, depois de dá a volta por cima, Braddock devolve todo o dinheiro que recebeu do governo (Bolsa Família?).

Mas filme de boxe é filme de boxe. Muita porrada, sangue, costelas quebradas, dentes voando pelo ringue, empresários gananciosos, mais sangue, treinadores esperançosos, esposas sofredoras, torcida apaixonada e lutadores estilo "bonecão de posto" (risos).

      

E a volta por cima dos lutadores é sempre legal. Aqui, depois de aposentado, Braddock ganha uma nova chance. Ele foi convidado para ser "o saco de pancadas" numa luta contra o segundo melhor pugilista do ranking mundial. Para surpresa de todos no filme, Braddock vence. Foi aí que ganhou o apelido de "Cinderella Man" e se torna um herói nacional. Sua última luta é contra Max Baer (Craig Bierko), campeão mundial dos pesos pesados, que já havia matado dois lutadores no ringue. O final surpreende.

Duas coisas ficaram marcadas em minha cabeça. Uma é o amor que Braddock tinha pela esposa e pelos filhos. A segunda é uma frase. Quando Braddock estava cedendo uma entrevista coletiva pouco antes da luta final, um repórter perguntou: por que você ainda luta? A resposta ressoou por todos os cantos daquela sala. "Leite", disse o pugilista. Você teria coragem de encarar alguém cuja motivação é "vencer para não morrer de fome"? Eu não. Nota 4/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.