quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007 às 02:48

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Diamante de Sangue: uma espécie de "Cidade de Deus" na savana africana

Diamante de Sangue (Blood Diamond, 2006) é uma espécie de "Cidade de Deus" na savana africana. Uma história que choca, comove e nos transforma. O filme mostra uma realidade inimaginável para os padrões humanos "civilizados".

A história tem como pano de fundo o caos e a guerra civil que dominou Serra Leoa na década de 1990. Leonardo DiCaprio é Danny Archer, um ex-mercenário paramilitar do Zimbábue, e Djimon Hounsou interpreta Solomon Vandy, um pescador de etnia Mende. Embora ambos tenham vidas totalmente diferentes, o destino os reúne numa busca para recuperar um raro diamante rosa, um tipo de tesouro que pode transformar vidas.

No primeiro massacre mostrado no filme, Solomon é arrancado de sua família pelo grupo de rebeldes denominado R.U.F. (Revolutionary United Front). O cara é forçado a trabalhar nos campos de diamante, encontra a pedra extraordinária e se arrisca a escondê-la, mesmo sabendo o perigo que corre. A idéia de Solomon é usar a pedra para salvar a esposa e as filhas de uma vida de refugiadas, e resgatar seu filho, Dia, recrutado de maneira bárbara como soldado infantil.

Archer, que vivia da troca de diamantes por armas, fica sabendo da pedra de Solomon enquanto está na prisão por contrabando. Ele quer roubar o diamante e comprar seu bilhete de saída da África e do ciclo de violência e corrupção. Então surge Maddy Bowen (Jennifer Connelly), uma jornalista americana idealista que está em Serra Leoa para desvendar a verdade por trás dos diamantes de sangue, expondo a cumplicidade dos chefes da indústria das pedras, que optaram pelo lucro no lugar dos princípios.

      

Nossa rotina é tão escrota, que muitas vezes não nos permite um tempo para reflexão. Coisas simples, como imaginar a vida de refugiados. Nessa circunstância, um filme do quilate de Diamante de Sangue preenche parte dessa lacuna. São 138 minutos de tiros, mortes, massacres, carnificina, correria, terrorismo e espanto.

Mas no meio dessa confusão o filme nos convida a refletir sobre o amor de um pai por seu filho. Mas não um filho qualquer, um menino tirado de seus braços, seqüestrado por bárbaros, treinado como um soldado guerrilheiro mirim, intoxicado com drogas e álcool. Um menino desses tem salvação? É possível reverter um trauma psicológico desse nível?

A ética jornalística é outro assunto que percorre o longa. Numa das cenas Maddy Bowen desabafa sobre a eficácia de seu trabalho: "Quer saber, isso é droga. É como um desses comerciais informativos. Você sabe que garotinhos negros lançam bombas que voam diante dos seus olhos. Então aqui eu tenho mães mortas, mas não é nada novo, e talvez seja o suficiente para fazer algumas pessoas chorarem quando lerem. Talvez até dêem um cheque, mas não será o suficiente para fazer isso parar. Estou cansada de escrever sobre as vítimas. Mas essa porra é tudo o que eu posso fazer."

      

É por esse tipo de reflexão que adorei Diamante de Sangue. Há uma saída para essa guerra dos diamantes? Houve uma saída para a guerra do marfim? E do ouro? E do petróleo, haverá? No final o filme quer saber se é possível respirar sabendo dessa realidade. É?

Dirigido pelo ótimo Edward Zwick e roteirizado por Charles Levitt, com base na história dele em parceria com C. Gaby Mitchell, Diamante de Sangue concorre ao Oscar 2007 com 5 indicações: Melhor Ator (Leonardo DiCaprio), Melhor Ator Coadjuvante (Djimon Hounson), Melhor Edição, Melhor Som e Melhor Edição de Som.

Leonardo DiCaprio como melhor ator é possível, realmente foi uma excelente atuação. Mas o destaque pra mim é Djimon Hounsou. Esse ator negro é incrível. Ele protagonizou as duas melhores cenas do filme. Agora uma curiosidade. Em vários momentos cheguei a pensar estar assistindo "Apocalipse Now", do Francis Ford Coppola. O DiCaprio com o rosto coberto de lama atravessando o selva, um oásis mágico no meio do inferno, o ataque de bombas com campo de mineração, tudo muito real.

E a história ficou perfeita com aquele final incrível, de fazer chorar. Foi um erro não colocar Diamante de Sangue na lista de melhores filmes de 2006. Poucas histórias conseguiram me comover tanto. E pensar que é a sede dos americanos por diamante que alimenta essa indústria da mutilação, carnificina infantil e ganância. Não é à toa que o chão africano é tão vermelho quanto o sangue. Nota 3/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007 às 01:58

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Syriana - A Indústria do Petróleo: uma história de difícil digestão

Syriana - A Indústria do Petróleo (Syriana, 2005) é um dos filmes mais chatos que já vi. Os diálogos são longos, confusos, cheios de detalhes burocráticos e com muitas palavras técnicas.

O tema é a geopolítica do petróleo. Mas no final dos 126 minutos de exibição, nem sabia mais como aquilo tudo tinha começado. Mais de 70 personagens se revezam na tela em 4 tramas paralelos. Informações demais para o dono deste blog.

Escrito e dirigido por Stephen Gaghan (o mesmo de "Traffic") e baseado no livro "See No Evil" do veterano da CIA, Robert Baer, Syriana deu o Oscar de "Melhor Ator Coadjuvante" em 2006 a George Clooney.

      

Entendo a importância do assunto, achei louvável a coragem das empresas envolvidas nesse projeto, gostei das locações no Oriente Médio e fiquei empolgado com o destino dos personagens principais. Mas até agora não consegui digerir o filme. Quem sabe ruminando mais um ou duas vezes eu conseguisse captar alguma coisa, por hora detestei Syriana. Nota 1/5

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quarta-feira, 24 de janeiro de 2007 às 02:33

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Vôo United 93: um tijolo caindo diretamente ao encontro do dedo do pé

Cinco anos após o fatídico 11 de setembro, os americanos aceitaram bem o filme Vôo United 93 (United 93, 2006), do diretor e roteirista Paul Greengrass. Tanto que o longa apareceu duas vezes na lista de indicações do Oscar 2007: Melhor Diretor e Melhor Montagem.

Diretor é impossível ganhar, mas montagem é bem provável. Afinal, como realizar um filme sobre uma história em que nenhum dos protagonistas está vivo para testemunhar? Desafiador.

Pois Greengrass pegou o papel e a caneta e comentou a montar, minuto-a-minuto, esse enorme quebra-cabeça. Para isso ele contou com a ajuda das famílias de 40 passageiros e integrantes da tripulação do verdadeiro vôo 93. Foram eles que ajudaram os produtores com informações sobre as roupas que os mortos usavam, bagagens que carregavam e a própria personalidade das pessoas envolvidas.

      

Quase tudo nessa tragédia saiu como Bin Laden queria, mas especialmente nesse vôo as coisas deram errado. Primeiro o vôo atrasou 40 minutos, depois os passageiros começaram a ligar para suas famílias e receber notícias sobre outros atentados. Com isso os caras começam a se organizar para reaver o controle do avião. No meio da confusão acontece o que todos sabemos.

O tema do filme é pesado, as cenas são fortes e o clima é tenso. Ponto forte também para o estilo documentário, sem chatas historinhas paralelas. O filme Vôo United 93 é seco feito um tijolo. No final, a sensação é vê-lo caindo diretamente ao encontro do dedo do pé. O jeito é fechar o olho e esperar o impacto. Nota 3/5

Confira o trailer legendado clicando no botão play da imagem abaixo.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007 às 01:08

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A Rainha: entrando na intimidade da mais reclusa das mulheres

A Rainha (The Queen, 2006) é um filme estilo documentário. Na noite de ontem, o longa venceu 2 Globos de Ouro, nas categorias de Melhor Atriz - Drama (Helen Mirren) e Melhor Roteiro (Peter Morgan).

O premiado roteiro mostra os conturbados momentos vividos pela família real britânica depois da morte da (ex) princesa Diana. No filme a rainha Elizabeth II (Helen Mirren) é fria, arrogante e alienada, fazendo pouco caso da importância que Lady Di tinha para o mundo.

Mas se a Beth é tudo isso que mostra o filme, Vossa Majestade que me perdoe, mas quanta perturbação. A pobre da Diana morta e ela fazendo de conta que nada estava acontecendo, isolada do mundo, trancada no castelo, totalmente perdida em relação aos anseios do povo. O marido é um bundão, a mãe uma louca, o filho um animal que anda escondido pelos cantos da casa, uma família de loucos.

      

Sem dúvida houve exageros. Tanto em macular a imagem da família real, quanto em enaltecer o recém-empossado primeiro-ministro britânico Tony Blair (Michael Sheen). O terrorista do Tony Blair é mostrado como um ser supremo, nobre, sensato, o homem que assumiu as rédeas do país durante a crise. Acreditem, foi Tony Blair o responsável pela manutenção do regime monárquico na Inglaterra, essa é a moral da história.

O diferencial de A Rainha é mostrar a intimidade da mais reclusa das mulheres. Mas ponto forte mesmo é a atuação de Helen Mirren. Dizem que durante o Festival de Veneza o público a aplaudiu de pé durante cinco minutos. Eu duvido, mesmo assim acredito que a atriz é a grande concorrente de Meryl Streep (O Diabo Veste Prada, leia meu post), para o Oscar 2007. Nota 3/5

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domingo, 14 de janeiro de 2007 às 16:02

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O Hobbit: um prelúdio da trilogia "O Senhor dos Anéis"

Nota 5/5
O Hobbit
Conheci a obra "O Senhor dos Anéis" através do cinema, pelos olhos do diretor Peter Jackson. Então descobri os três livrinhos mágicos que originaram o filme. Volume 1: A Sociedade do Anel; Volume 2: As Duas Torres; e Volume 3: O Retorno do Rei.

Acho o filme uma obra-prima, já devo ter assistido umas 50 vezes [fácil], mas foi conhecendo os livros que despertei para a profundidade da criação de J.R.R. Tolkien. E o primeiro livro sobre esse universo é O Hobbit (Editora Martins Fontes, 2001), publicado em 1937. O Wikipédia conta uma curiosidade sobre esse livro.

Segundo a enciclopédia, a idéia de escrever O Hobbit, surgiu em 1928, quando Tolkien, então professor em Oxford, examinava documentos de alunos que queriam ingressar na Universidade. Um dos alunos deixou uma das páginas em branco e Tolkien escreveu: "Em um buraco no chão vivia um hobbit".

Foi a partir desta frase solta que a Terra-Média foi tomando forma. Mas Tolkien só começou a escrever definitivamente O Hobbit dois anos mais tarde, e assim abandonou o trabalho antes de terminar. Mas o manuscrito incompleto do autor foi para nas mãos de Susan Dagnall, editora da Allen & Unwin. Dagnall ficou tão encantada com o material que simplesmente implorou a Tolkien que ele terminasse o livro. E em 1937 é publicada a primeira edição de O Hobbit [obrigado Susan].

O Hobbit é considerado um prelúdio de "O Senhor dos Anéis". O livro conta a primeira grande aventura do hobbit Bilbo Bolseiro. Nosso pequeno herói inicialmente não quer nem saber de aventuras. Somente depois de muita insistência do mago Gandalf e dos 13 anões (Dwalin, Balin, Kili, Fili, Dori, Nori, Ori, Oin, Gloin, Bifur, Bofur, Bombur e Thorin Escudo-de-Carvalho), o hobbit resolve pegar a estrada.

O plano da tropa é atravessar as Terras Ermas, mergulhar nas profundezas das Montanhas Sombrias, atravessar a Floresta das Trevas, vencer a Montanha Solitária, matar o Dragão Smaug e reconquistar o tesouro dos anões. Tudo isso fugindo de aranhas gigantes, elfos, trolls, orcs e lobos. Moleza! Principalmente para um hobbit e 13 anões.

Apesar de pequenos, hobbits não são anões. Segundo a descrição que Tolkien faz no livro, eles "são (ou eram) um povo com cerca de metade de nossa altura, e menores que os anões barbados. Os hobbits não têm barba. Não possuem nenhum ou quase nenhum poder mágico, com exceção daquele tipo corriqueiro de mágica que os ajuda a desaparecer silenciosa e rapidamente quando pessoas grandes e estúpidas como vocês e eu se aproximam de modo desajeitado, fazendo barulho como um bando de elefantes, que eles podem ouvir a mais de uma milha de distância".

"Eles têm tendência a serem gordos no abdome; vestem-se com cores vivas (principalmente verde e amarelo), não usam sapatos porque seus pés já têm uma sola natural semelhante a couro, e também pêlos espessos e castanhos parecidos com os cabelos da cabeça (que são encaracolados); têm dedos morenos, longos e ágeis, rostos amigáveis, e dão gargalhadas profundas e deliciosas (especialmente depois de jantarem, o que fazem duas vezes por dia, quando podem)".

Mas isso eu já conhecia através do filme "O Senhor dos Anéis". No entanto, O Hobbit me ajudou a conhecer diversos pequenos detalhes da história toda. E esse é o barato da coisa. Você lê O Hobbit e começa a entender o quebra-cabeça montado com o fim da trilogia do anel.

Foi em O Hobbit que Bilbo Bolseiro encontra o macabro anel do poder. Em O Hobbit Bilbo conhece Gollum. É nele que presenciamos o momento que Bilbo apelida sua pequena espada élfica de Ferroada. Que aliás, recebeu esse nome depois do hobbit ter matado uma aranha gigante com um golpe certeiro.

Em O Hobbit Bilbo veste pela primeira vez seu colete feito de malha de aço prateado, chamado pelo Elfos de mithril. Os mais atentos devem lembrar que mais tarde Bilbo daria o colete a Frodo, seu sobrinho. E no final das contas, foi através desse livro que passei a respeitar Bilbo Bolseiro. Que Frodo que nada, o verdadeiro herói da Terra-Média é Bilbo, o Magnífico!

Hoje eu sei disso, e amanhã todo mundo também vai ficar sabendo. O Hobbit será adaptado para o cinema. O sonho de todos os fãs é que a mesma equipe de "O Senhor dos Anéis" volte a trabalhar junta. O problema é que a confusão está grande.

Tudo começou quando Peter Jackson moveu um processo contra a New Line em razão da distribuição dos lucros de "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel". Aí então o executivo do estúdio, Robert Shaye, declarou que não pretendia trabalhar com o diretor: "Não quero fazer filmes com alguém que me processou".

O embrólio ficou maior quando os fãs de Jackson planejaram um boicote aos filmes da New Line e colocaram listas no site theonering.net com nomes e endereços de executivos do estúdio e da Time Warner (empresa proprietária da New Line), para onde cartas de protestos podem ser enviadas.

Dinheiro, dinheiro, dinheiro, maldito dinheiro. Apesar de tudo, mantenho as esperanças, pois como diria o mago Gandalf: "Que a floresta verde seja alegre, enquanto o mundo ainda é jovem". Que venha O Hobbit!

Outras resenhas sobre o assunto:

O Senhor dos Anéis - As Duas Torres: o segundo livro da trilogia Tolkien (26/11/07)
O Senhor dos Anéis - A Sociedade do Anel: o primeiro livro da fantática aventura (09/06/07)
As Crônicas de Gelo e Fogo - A Guerra dos Tronos: uma intrigante aventura épica de poder e conquista (04/03/12)

sexta-feira, 12 de janeiro de 2007 às 03:27

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Pequena Miss Sunshine: comédia na velha kombi amarela enferrujada

Pequena Miss Sunshine (Little Miss Sunshine, 2006) é a comédia mais simpática do ano passado. O filme conta a aventura da família Hoover para realizar o sonho da filha caçula: vencer um concurso de miss infantil. A menina em questão é Olive (Abigail Breslin), uma simpática gordinha de óculos fora dos "padrões de beleza" atuais, mas dona de uma simpatia fora do comum.

O final é de chorar de rir. A garotinha detona as concorrentes de maneira surpreendente, causando uma pequena revolução. A cena serve de crítica aos concursos de beleza e a miniaturização de crianças.

Mas o melhor do filme é adentrar nas loucuras de cada personagem. O pai da menina é Richard (Greg Kinnear), um palestrante que desenvolveu um método de auto-ajuda que é um fracasso. Sua teoria dos "9 passos", promete transformar qualquer pessoa em um vencedor.

      

Sheryl (Toni Collette) é a mãe. Fumante e insegura, mas é nela que toda a família se apóia. Dwayne (Paul Dano) é o irmão maluco. O cidadão é fanático pelo filósofo Nietzsche e está fazendo voto do silêncio por 9 meses, até conseguir se integrar na escola de pilotos das Forças Armadas. O cara só se comunica através de curtas frases escritas num pequeno caderninho que carrega no bolso. Mas no final ele mostra-se um super-irmão, divertido e bem-humorado.

Grandpa (Alan Arkin) é o avô hedonista que foi expulso do asilo de idosos por ser viciado em heroína. Mas o velho também tem qualidades, é ele quem treina a pequena Olive para o concurso de beleza. Frank (Steve Carell) é o tio gay suicida. Esse ator é um grande comediante, em Pequena Miss Sunshine ele manteve o nível de qualidade do filme "Virgem aos 40 Anos" (2005).

      

Durante três dias essa família de malucos deixa todas as diferenças de lado e se unem para atravessar o país numa kombi amarela enferrujada. E os frutos da aventura já começam a ser colhidos. Pequena Miss Sunshine recebeu 2 indicações ao Globo de Ouro, nas categorias de Melhor Filme (Comédia/Musical) e Melhor Atriz (Comédia/Musical - Toni Collette). O filme também recebeu 5 indicações ao Independent Spirit Awards e é forte candidato ao Oscar. Nota 4/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2006 às 00:50

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Admirável Mundo Novo: prepare-se para apertar o botão que reseta a "Matrix" cotidiana

Em 1910, Henry Ford estabelecia a primeira planta dedicada exclusivamente à montagem final de automóveis. Dois anos depois ele já aplicava o conceito de linha de montagem, sem mecanização, à fabricação de motores, radiadores e componentes elétricos. E no começo de 1914, a Ford adotava a linha de montagem móvel e mecanizada para chassis.

Esse pequeno acontecimento da história culminou no lançamento do primeiro carro popular, o Ford Modelo T. Parafraseando Armstrong, este pequeno passo significou muito para a humanidade. E se os acontecimentos descritos no livro Admirável Mundo Novo (Editora Globo, 2001), de Aldous Huxley, tornarem-se reais, Ford será alçado ao posto de divindade universal.

A história do romance Admirável Mundo Novo se passa no ano de 632 d.F. (isso mesmo, depois de Ford). Os primeiros capítulos fazem um passeio pelo "Centro de Incubação e Condicionamento de Londres Central". O Diretor do Centro mostra a um grupo de estudantes Alfa Mais, todo o processo de incubação de condicionamento dos seres humanos.

Aqui forma-se um importante conceito que percorre todo o livro. A sociedade futurista de Huxley é segmentada em diversas castas (classes sociais), variando dos vigorosos e inteligentes Alfa Mais, até o pequenos e ignorantes Ípsilon Menos. Além da superioridade associada à inteligência e ao porte físico, existia uma distinção entre as castas por cores. Cada casta é condicionada a gostar de uma cor e detestar as demais.

Continuando a visita, os estudantes encontram o Sr. Henry Foster, que apresenta-lhes o Processo Bokanovsky, um dos principais pilares daquela sociedade. Nesse processo, os seres humanos são gerados a partir de brotos, divididos diversas vezes consecutivas, ou seja, clonagem. Formam-se, então, milhões de gêmeros idênticos. O princípio da produção em série de Ford aplicado à biologia.

E aqui vem a parte mais sacana da história. O Sr.Foster explica aos estudantes que o pseudo-sangue circula mais devagar nas castas mais baixas, por conseguinte, passa pelos pulmões a intervalos mais longos; portanto, fornece menos oxigênio ao embrião. "Nada como a penúria de oxigênio para manter um embrião abaixo do normal".

A conseqüência disso? "O primeiro órgão afetado é o cérebro. Em seguida, o esqueleto. Com setenta por cento de oxigênio normal, obtinham-se anões. Com menos de setenta por cento, monstros sem olhos". Será que no futuro será assim mesmo? Ou será que já vivemos essa realidade. Ouvi dizer que, bem nutridos, os filhos dos ricos crescem inteligentes e fortes, enquanto os pobres...

Outra forma de condicionamento chamou minha atenção. "Túneis quentes alternavam-se com túneis resfriados. Quando chegaravam a ponto de serem decantados, os embriões tinham horror ao frio. Ficavam predestinados a emigrarem para os trópicos, a serem mineiros e operários de fundição. Mais tarde, seu espírito seria formado de maneira a confirmar as predisposições do corpo."

Isso significa que os caras condicionam as pessoas de tal modo que eles se dão bem com o calor. Morrem felizes debaixo de uma lua de 40 graus. Fiquei com uma má sensação. Será que no futuro vai ser assim? Eu, por exemplo, moro numa terrinha que todo dia faz 45 graus brincando. E sou feliz! Putz, aposto que passei por um desses tuneizinhos de merda!

"É o segredo da felicidade e da virtude: amarmos o que somos obrigados a fazer. Tal é a felicidade de todo condicionamento: fazer as pessoas amarem o destino social de que não podem escapar". E pensar que Huxley escreveu esse livro há 75 anos. Se o cara estivesse vivo, seria um astro das palestras de auto-ajuda. Gostar do que faz! Gostar do que faz! Gostar do que faz! Um dia eu acredito nisso, pode deixar.

Caminhando um pouco mais e os estudantes chegam aos berçários, mais precisamente às "Salas de Condicionamento Neopavloviano". A idéia aqui é condicionar os bebês a odiar livros e flores. Os pobrezinhos são submetidos à cerca de 200 repetições de um exercício que envolve choques elétricos e muito barulho.

O Diretor explica: "Elas crescerão com o que os psicólogos chamavam de um ódio 'instintivo' aos livros e às flores. Reflexos inalteravelmente condicionados". Um dos estudantes ficou na dúvida sobre as flores. Por que se dar ao trabalho de tornar psicologicamente impossível aos Deltas o amor às flores? A resposta do Diretor é bem clara: "As flores do campo e as paisagens têm um grave defeito: são gratuitas."

Na sociedade criada por Huxley, os Adminsitradores abominam tudo que é gratuito. Veja o caso dos esportes. Todos exigem o emprego de aparelhos complicados, fazendo com que as pessoas consumam artigos manufaturados. Nessa parte do livro, parei um pouco para refletir. Será que no futuro vai ser assim? Quando criança eu lembro que bastava uma bola velha e um pedaço de rua para a molecada fazer a festa. Hoje os meninos jogam com a bola da Copa, em campos de grama sintética, calçados em suas chuteiras Nike e vestidos em seus uniformes oficiais. Futuro, sei...

Outro importante pilar dessa sociedade futurista é a hipnopedia, ou, princípio de ensino durante o sono. Na época que Huxley escreveu Admirável Mundo Novo, a hipnopedia havia sido contestada duramente pelos cientistas. Mas no livro, o Diretor do Centro de Incubação e Condicionamento, muda o foco e diz que a hipnopedia não serve como educação intelectual, mas sim como educação moral.

Tanto que, independentemente de castas, todos participavam do "Curso Elementar de Consciência de Classe". Durante o sono as pessoas passavam por 40 a 50 vezes repetições de lições morais antes de acordar. Os Administradores consideravam a hipnopedia, a maior força moralizadora e socializante de todos os tempos.

Logo depois dessas explicações iniciais, começa o romance propriamente dito. O personagem principal é Bernard Marx, um Alfa insatisfeito com o mundo onde vive e discriminado por ser fisicamente diferente dos membros de sua casta.

Segundo o Wikipédia, o sobrenome de Bernard Marx faz uma referência ao Karl Marx (que foi um dos percursores do socialismo científico, uma escola de pensamento econômica que se assemelha, em alguns pontos, com a sociedade retratada com o livro).

Em certo momento da história, Bernard viaja com sua amiga Lenina para Malpaís, uma espécie de "reserva histórica" (semelhante às atuais reservas indígenas). A reserva possui cerca de 60 mil índios e mestiços, absolutamente selvagens, sem comunicação com o mundo civilizado. Nessa reserva os habitantes aindam conservavam hábitos e costumes repugnantes, como o casamento, famílias, Cristianismo etc.

É importante abrir um parênteses. No livro, palavras como "mãe", "pai", "família", "amor", são verdadeiros absursos. Palavras obscenas que ninguém pronuncia. E não é difícil entender porquê. Como as pessoas são criadas em laboratório, nenhuma dessas palavras tem mais sentido, tornando-se inaceitáveis no mundo civilizado deles.

Nessa reserva, Bernand e Lenina encontram Linda, uma mulher oriunda de sua civilização, e o filho dela, John. Bernard vê uma possibilidade de conquista de respeito social pela apresentação de John como um exemplar dos selvagens à sociedade civilizada.

A última parte do livro desenvolve-se a partir das experiências do "selvagem" John, vivenciando os costumes desse "Admirável Mundo Novo". Ele acaba descobrindo que essa tal sociedade não é tão perfeita quanto ele acreditava. E para nós? O que é um mundo perfeito?

Num mundo perfeito, todos seriam jovens! Pois em Admirável Mundo Novo isso é possível. Os Administradores mantém artificialmente as secreções internas das pessoas no nível de equilíbrio da juventude. Além disso, não deixam cair a taxa de magnésio e cálcio abaixo do quer era aos trinta anos. Fazem transfusão de sangue jovem e mantém o metabolismo estimulado permamentemente.

Num mundo perfeito, o sexo é liberado! Exatamente como acontece em Admirável Mundo Novo. Mais do que isso, o adultério é incentivado como uma obrigação, relações monogâmica são proibidas, todos são de todos [ou seria ninguém é de ninguém?].

Num mundo perfeito, não existem sogras! Admirável Mundo Novo foi além, acabou com os pais, as mães, as esposas, as amantes, os filhos, a família. A idéia é que não exista mais ninguém para encher o saco com emoções violentas.

Nesse Admirável Mundo Novo ninguém vive sozinho, o mundo é estável, as pessoas são felizes, nunca desejam o que não podem ter, sentem-se bem, estão em segurança, nunca adoecem, não têm medo da morte, vivem na ditosa ignorância da paixão e da velhice. Nesse mundo perfeito, o sentimento religioso é supérfluo. Afinal, para que serve a religião quando se já está no paraíso?

Por fim, sempre há o soma para acalmar os excessos, uma droga legalizada que permite uma fuga da realidade. "Tomam-se dois ou três comprimidos de meio grama e pronto. Todos podem ser virtuosos agora. Pode-se carregar consigo mesmo, num frasco, pelo menos a metade da própria moralidade. O Cristianismo sem lágrimas, eis o que é o soma."

Eu cresci cercado pelas idéias de Aldous Huxley. Para onde olho, vejo Huxley. Zé Ramalho é um dos músicos que mais gosto. Um de seus maiores sucessos é "Admirável Gado Novo", um passei criativo pela obra de Huxley. Sou fanático por Matrix, uma releitura moderna de Admirável Mundo Novo. Isso sem contar o inúmeros filmes que usam as idéias de Huxley como pano de fundo de suas histórias.

Navegar pelo Admirável Mundo Novo significa acessar a fonte de todas as influências, significa conversar com o Arquiteto, significa redescobrir caminhos, significa encontrar atalhos, significa apertar o botão que reseta essa "Matrix" cotidiana. Admirável Mundo Novo é isso, a materialização da arrogância humana. Nota 5/5

segunda-feira, 25 de dezembro de 2006 às 20:30

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Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América

Depois que os caras do Jackass apareceram pela primeira vez na TV, nunca mais surgiu algo tão tosco, estúpido, trash, politicamente incorreto e engraçado. Isso até ontem, pois está chegando aos cinemas Borat - O Segundo Melhor Repórter do Glorioso País Cazaquistão Viaja à América (Borat: Cultural Learnings of America for Make Benefit Glorious Nation of Kazakhstan, 2006).

Por favor, não deixe de conferir o trailer no final deste post. Dá para ter uma idéia do quão louco é o comediante britânico Sacha Baron Cohen, o bigodudo que protagoniza o filme mais bizarro da história.

No longa, Borat é um jornalista do Cazaquistão enviado para os Estados Unidos para aprender mais sobre a cultura do país. No entanto, quando chega a Nova York, Borat assiste SOS Malibu e se apaixona por Pamela Anderson. O bigodudo joga tudo pro alto e faz uma jornada até a Califórnia para se casar com a loira.

      

Pouco tempo após o lançamento e Borat já acumula diversas polêmicas e processos. A começar pela sacanagem que fizeram com o Cazaquistão. Se você ficou ofendido com a imagem negativa que o polêmico filme "Turistas" fez do Brasil, imagine o que estão sentido os cazaques.

Tanto que o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Cazaquistão, Yerzhan Ashykbayev, divulgou uma nota oficial dizendo que Cohen estaria seguindo uma ordem política para apresentar o seu país e o seu povo de um modo depreciativo.

O mais hilário é que em resposta, o comediante produziu um vídeo, no estilo dos grupos terroristas, para negar qualquer ligação com "Cohen" e apoiar plenamente o governo se este quisesse processar o humorista.

E não para por aí. Dois aldeões do povoado romeno utilizado para rodar as supostas imagens do Cazaquistão, abriram um processo no valor de US$ 30 milhões por terem sido mostrados, junto com outros habitantes de sua vila, como "estupradores, defensores do aborto, prostitutas, ladrões, racistas, invejosos e rudes".

      

A maioria das cenas mostradas no filme é real. E aí está outro problema. Os produtores fizeram as pessoas que aparecem no filme, acreditar que se tratava de um documentário sobre a "pobreza extrema". A promessa era de que o documentário seria exibido apenas no Cazaquistão.

No entanto Borat já venceu o primeiro round. O juiz Joseph Biderman rejeitou a queixa contra estúdio 20th Century Fox, movida pelos dois estudantes norte-americanos que apareceram no filme fazendo comentários racistas. Os caras disseram que a produtora convidou os dois a beber álcool antes de assinar o contrato. Vai saber. Outro que está tentando ganhar uma grana por danos morais é um morador da Carolina do Sul. O cidadão apareceu numa cena cortada do filme sendo assediado num banheiro público por Borat.

Uma coisa é certa: é fácil ri das desgraças dos outros. Numa das cenas Borat compra uma espingarda para se proteger dos judeus, ou seja, sacaniando com ele mesmo já que Cohen é judeu. Em outra ele bebe água da privada e defeca num saco plástico. O cara pergunta aos convidados onde colocar suas fezes! Diferenças culturais são compreensíveis. Ele também faz piada com as feministas, com os rappers e com qualquer um que cruze seu caminho.

Em uma das cenas mais engraçadas, Borat encontra o amigo olhando as fotos de sua deusa Pamela na Playboy. O cara enlouquece, pula em cima dele e os dois começam a lutar completamente nus. Peladão mesmo. Um com a bundona peluda na cara do outro. Bizarro!!! Ou melhor, niiiiiice! Nota 4/5

Confira a compilação dos dois melhores trailers clicando no botão play da imagem abaixo.

domingo, 24 de dezembro de 2006 às 03:52

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Os Infiltrados: parte a parte tudo é perfeito no filme de Martin Scorsese

A imprensa especializada já decretou Os Infiltrados (The Departed, 2006) o melhor filme do ano. O longa é dirigido por Martin Scorsese e roteirizado por William Monahan, a partir do texto de Siu Fai Mak e Felix Chong. Na verdade Os Infiltrados é um remake do filme "Conflitos Internos" (Mou Gaan Dou, 2002), sucesso em Hong Kong.

Os Infiltrados foi indicado para o Globo de Ouro nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor (Martin Scorsese), Melhor Ator (Leonardo DiCaprio), Melhor Ator Coadjuvante (Jack Nicholson e Mark Wahlberg). E se não bastasse, o longa é vencedor do National Board of Review como Melhor Diretor (Martin Scorsese), está no topo lista de melhores da revista Rolling Stone e faz presença em praticamente todos os outros prêmios. O filme também é sucesso no Brasil, tendo sido escolhido o melhor do ano pela Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro. Provavelmente vai liderar a lista do Oscar 2007.

      

Pessoalmente achei o roteiro um dos mais inteligentes dos últimos anos. Eu ia dizer original, mas fiquei na dúvida sobre quem deveria receber os méritos, já que não assisti "Conflitos Internos". Outra coisa que chama atenção é a montagem, deixa o espectador intrigado e curioso. Isso é bom. Adorei o final. Pá! Pá! Pá! "Esses americanos são mesmo uns ratos". Gosto de finais assim, sem espaços para continuações [aparentemente].

A história se passa em Boston, Estados Unidos. O tema é a luta entre a polícia e o crime organizado da máfia irlandesa comandada pelo amoral Frank Costello (Jack Nicholson). Sou fã desse cara. Logo no começo do filme seu personagem mostra como funciona a cabeça de um líder transformacional: "Eu não quero ser um produto do meu meio. Eu quero que o meio seja um produto meu". Arrogante, mas divertido.

            

Quando os cadetes Billy Costigan (Leonardo DiCaprio) e Colin Sullivan (Matt Damon) se formam policiais, ambos recebem uma missão. No caso de Costigan é se infiltrar na gangue de Costello. E no caso de Sullivan é liderar o grupo que investiga Costello. Acontece que Sullivan é um integrante da gangue de Costello, infiltrado na polícia. Rato comendo rato. Por tudo isso Os Infiltrados fede do começo ao fim, um ambiente contaminado pela corrupção, violência e traição.

E não dá para respirar sangue sem ficar com medo. No caso de Costigan e Sullivan, eles vão além. O clima é de pânico, principalmente o caso do DiCaprio. O cara passou o filme todo com uma faca no pescoço, um passo errado e era degola na certa.

      

Muita gente anda dizendo que Os Infiltrados é uma obra-prima do gênero policial. Para mim é difícil reconhecer um rótulo dessa categoria. Mas quem sabe daqui uns anos eu mude meu ponto de vista. Hoje, não acho Os Infiltrados um clássico. Para mim é um bom filme, nada mais.

Porém... analisando o filme parte a parte, eu diria que tudo é perfeito. Até a trilha sonora é contagiante. Rolling Stones, Pink Floyd, Beatles, Beach Boys, tudo do jeito que o diabo gosta! Palavrões cuspidos para todos os lados, dentes voando na tela, armas, fumaça, sexo, drogas, uma verdadeira Sin City. O problema é que ao juntar tudo isso, o resultado não contagia, ou melhor, não tem magia. Juro que gostaria de terminar dizendo que o filme maravilhoso, mas não é o caso. Nota 4/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

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sábado, 9 de dezembro de 2006 às 06:18

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A Revolução dos Bichos: hoje teremos leitão assado no jantar

A Revolução dos BichosImagine que você é um jovem operário. Numa bela manhã você está indo trabalhar e vê ao longe uma gigantesca tsunami vermelha chamada "Revolução Bolchevique". Ela vem em sua direção e o golpe é inevitável. Quase sufocado pela água, você olha para cima e vê seus companheiros a bordo de um navio chamado "Socialismo". Homem ao mar! Homem ao mar!

O capitão do navio é Josef Stalin, um velho companheiro admirado por todos. Você se enche de esperança, entusiasmo, alegria, começa a imaginar um mundo perfeito, um mundo livre da exploração, do trabalho forçado, da ganância, um mundo governado por operários. Mas tão logo assume o poder, o capitão começa a eliminar inimigos, reprimir companheiros, executar intelectuais, prender militares e deportar todos que são contrários à nova filosofia stalinista.

Você não acredita no que seus olhos vêem. Como nosso Companheiro foi capaz de fazer isso?! Se não bastasse, o capitão manda expulsar Leon Trotski do barco e o joga aos tubarões. Leon Trotski, um velho amigo, fundador do Exército Vermelho, impossível!, pensa você. Os poucos marujos que restam fazem as contas e calculam que entre fuzilamentos, trabalhos forçados e deportações, o capitão chegou a vitimar 20 milhões de ex-companheiros.

Pois bem, o escritor britânico George Orwell (1903-1950) transformou essa tragédia russa numa fábula animalesca e publicou sua história no livro A Revolução dos Bichos (Animal Farm, 1945). Alçado à categoria de grande clássico político no século XX, A Revolução dos Bichos é um prelúdio ideológico da complexa obra "1984" (leia a resenha).

O livro se passa numa fazendinha britânica chamada "Granja do Solar", pertencente ao Sr.Jones. A história começa quando o velho porco chamado Major convoca uma reunião com a bicharada. No silencioso movimento do galpão da granja, os animais começam a chegar. Os primeiros foram os três cachorros, depois os porcos, as galinhas, as pombas, as ovelhas, as vacas, os cavalos, a cabra, o burro, os patinhos e demais convidados vão se acomodando.

O porco agradece a presença dos camaradas e começa um discurso convocando todos a uma revolução, um basta na dominação humana. O velho porco sonhava um mundo perfeito, um mundo livre da exploração, do trabalho forçado, da ganância, um mundo governado pelos animais [déjà vu?].

Para ele "o Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante. Nosso trabalho amanha o solo, nosso estrume o fertiliza, e, no entanto, nenhum de nós possui mais que a própria pele".

Três noites depois e o velho Major morre. Mas as palavras do porco já haviam entrado na mente de todos os animais daquela fazendinha. Ninguém sabia quando a rebelião começaria, mas todos tinham a certeza que um dia ela viria, e começaram a se preparar. A tarefa de organizar os insurgentes ficou para os porcos, segundo Orwell, o mais inteligente dos bichos. Destaque para Bola-de-Neve e Napoleão, dois jovens barrões que o Sr.Jones criava para vender.

Pouco tempo depois da morte de Major, os animais rebelam-se e expulsam os humanos da fazenda. Os porcos mudam o nome do lugar para "Granja dos Bichos" e implantaram um novo sistema de pensamento chamado "Animalismo". Era possível resumir seus princípios em sete mandamentos:
  1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimiga.
  2. O que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
  3. Nenhum animal usará roupa.
  4. Nenhum animal dormirá em cama.
  5. Nenhum animal beberá álcool.
  6. Nenhum animal matará outro animal.
  7. Todos os animais são iguais.
Os mandamentos foram escritos na parede da fazenda, para que todos os animais pudessem enxergar. Mas com o passar do tempo, os animais observam que nem todos trabalhavam e que o leite e as maçãs estavam sumindo. Descobriram que os porcos estavam por trás de tudo isso. Eles se defendem:

"Camaradas, não imaginais, suponho, que nós, os porcos, fazemos isso por espírito de egoísmo e privilégio. Muitos de nós até nem gostamos de leite e de maçã. Eu, por exemplo, não gosto. Nosso único objetivo ao ingerir essas coisas é preservar a saúde. O leite e a maçã (está provado pela ciência, camaradas) contém substâncias absolutamente necessárias à saúde dos porcos. Nós, porcos, somos trabalhadores intelectuais. A organização e a direção desta granja repousam sobre nós. Dia e noite velamos pelo vosso bem-estar. É por vossa causa que bebemos aquele leite e comemos aquelas maçãs. Sabeis o que sucederia se os porcos falhassem em sua missão? Jones voltaria! Sim, Jones voltaria!"

Com esse mantra terrorista: "Jones pode voltar!", os porcos aumentam seu poder. Até que Bola-de-Neve e Napoleão, os porcos líderes, divergem sobre a construção de um moinho de vento. E num golpe, Napoleão põe os cachorros contra Bola-de-Neve e expulsa-o da fazenda. Com esse acontecimento, muita coisa começa a mudar. O porco Napoleão começa a adotar novas políticas, muda-se para a ex-casa do Sr.Jones e a passa a dormir na cama.

Bola-de-Neve vira uma espécie de entidade invisível, tudo de ruim que acontecia na granja era culpa dele, um bode expiatório para justificar os insucessos do Animalismo. Paralelamente, o porco Napoleão começa a desconfiar de todos a seu redor. Começa a eliminar seus amigos porcos, assassinar outros animais e ameaçar os contrários à sua filosofia. O porco promove um verdadeiro massacre. Põe os outros animais para efetuar trabalhos forçados e diminui a ração.

Para suprimir insatisfações, Napoleão repassa dados estatísticos que "provam" que a situação na granja melhorou. "A fazenda prospera, existe mais ração, a água é de melhor qualidade e as pulgas já não incomodam tanto". Era como se a granja se houvesse tornado rica sem que nenhum animal tivesse enriquecido. Com exceção dos porcos, evidentemente.

Indignados com tanto trabalho, os outros animais desejam saber o que tanto os porcos fazem trancados na casa do Sr.Jones. Um deles responde dizendo que "os porcos despendiam diariamente enormes esforços com coisas misteriosas chamadas 'arquivos', 'relatórios', 'minutas' e 'memos'. Eram grandes folhas de papel que precisavam ser miudamente cobertas com escritas e, logo depois, queimadas no forno".

O livro termina quando os porcos começam a andar sobre duas patas, beber litros de cerveja e jogar pôquer com os fazendeiros vizinhos. Pela janela do velho casarão, "as criaturas olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco".

Droga!!! Começo a lê esses livros distópicos e minha cabeça entra em parafuso. Leio Max Weber e aprendo que o trabalho é o único caminho para o Éden. Aí leio um ensaio orwelliano como esse e descubro que sou dominado por porcos. Porcos!

Descubro que são os porcos que fazem as leis, são os porcos que nos obrigam a fazer hora-extra, é neles que se concentra a riqueza, nos tiram a educação, a cultura. Os porcos roubam nossos filhos, encurtam nossas aposentadorias, chicoteiam, racionam a comida e a água. E ainda por cima dizem que a situação está ótima. Eles nos amedrontram com fantasmas invisíveis, mudam nosso foco e limitam nossa inteligência. Que meu colesterol vá pro inferno, mas hoje teremos leitão assado no jantar!

Alguns minutos depois de saborear o livro, fiquei brincando de Orwell. Imaginei uma história dessas sobre o Brasil. Meu conto se chamaria: "A Revolução dos Bichos Marinhos". E para liderar o novo governo subaquático eu escolheria o mais inteligente dos animais marinhos. Nota 5/5

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006 às 02:08

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Volver: Almodóvar falando de mortes, memórias e lembranças

Volver (Volver, 2006) é o mais recente filme do espanhol Pedro Almodóvar. E não precisa ser um cinéfilo almodovariano para saber que o cara é um profundo desbravador do útero feminino. Seus filmes deveriam fazer parte da grande curricular dos jovens amantes, no mínimo didático.

Muitas vezes já me referi ao Almodóvar com um sorriso sacana nos lábios, mas na comédia dramática Volver aconteceu algo novo. Divertimento da forma mais infantil possível. Era como se estivesse cercado de parentes, entre amigos, vivenciando cenas de um cotidiano latino, natural, humano.

Não que não tenha aquelas putarias de sempre. Tem. A primeira é um pai (Lola Dueñas) olhando entre as pernas da própria "filha" (Yohana Cobo) e depois a filha matando o próprio pai. Filha que é irmã. Irmã que é filha. Mãe que matou. Mãe que fingiu que morreu. Complexo, louco, complicado, Almodóvar. Mas o que realmente fica marcado é o desenrolar dessa trama cheia de humor, crendices, mistérios e emoção.

      

Superficialmente falando, Volver conta um pedacinho da vida de Raimunda (Penélope Cruz), uma jovem mãe trabalhadora, que tem um marido desempregado e uma filha adolescente. Atuação primorosa. Outro destaque é a estabanada Sole (Lola Dueñas), irmã mais velha de Raimunda. Ela possui um salão de beleza ilegal e vive sozinha desde que o marido a abandonou para fugir com uma de suas clientes. Uma comédia essa atriz.

Numa bela noite ocorrem duas importantes mortes na família. Aliás, o filme já começa num cemitério e dele parece não querer sair. A morte é o principal personagem de Volver. Mas isso não torna o filme melancólico, não mesmo. O roteiro - do próprio Almodóvar -, é tão cativante que a faz parecer natural. O que de fato o é [ou pelo menos deveria ser].

Volver é um filme bastante premiado, o longa já recebeu 5 prêmios da Academia do Cinema Europeu: Melhor Diretor, Melhor Atriz (Penélope Cruz), Melhor Compositor (Alberto Iglesias), Melhor Câmera (José Luis Alcaide) e da Melhor Filme segundo escolha do público. E anotem aí: Volver será indicado ao Oscar 2007 nas principais categorias.

      

Li uma entrevista de Almodóvar em que ele diz ter voltado às suas próprias raízes e às memórias de sua mãe. "O filme é baseado totalmente em minha vida, minhas lembranças e as da minha família". Deve ser por isso que o diretor/roteirista conseguiu fazer uma obra tão comunicativa. A cena da Penélope Cruz farejando o rastro do peido da mãe, sem saber que ela estava escondida embaixo da cama, foi extracomunal. Acho que nunca mais vou esquecer aquilo. Clássico, acredite.

Deixei por último um comentário sobre a fotografia de José Alcaine. Tudo muito colorido, moderno e vivo. Uma fotografia viva para representar a morte, lembrei de "A Noiva Cadáver" (leia meu post). E putz, os closes na Penélope Cruz totalmente crua são demais [eu disse crua]. ¿Después de todo, cuál sería de nuestras vidas sin estas mujeres? Nota 4/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.