quarta-feira, 23 de maio de 2007 às 04:25

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Hotel Ruanda: 800 mil seres humanos assassinados

Ruanda é um pequeno país montanhoso da África, encravado entre o Uganda, Tanzânia e Congo. O episódio mais marcante de sua história ocorreu em 6 de abril de 1994, quando o então presidente Juvénal Habyarimana foi assassinado. Segundo o Wikipédia, o avião em que viajava foi atingido por fogo quando aterrissava em Kigali, capital de Ruanda. Durante os três meses seguintes, os militares e milicianos ligados ao antigo regime, mataram cerca de 800.000 tutsis e hutus oposicionistas, naquilo que ficou conhecido como o "Genocídio de Ruanda".

E de quem é a culpa? Historiados contam que depois da derrota da Alemanha na 1ª Guerra Mundial, Ruanda foi entregue à Bélgica. Utilizando a Igreja Católica, os belgas manipularam a classe alta dos tutsi para reprimir o resto da população (majoritariamente hutus), incluindo a cobrança de impostos e o trabalho forçado, aumentando ainda mais o abismo social existente no país.

Sabe o que é mais cretino nisso tudo? Foram os colonizadores belgas que classificaram os ruandeses em hutus e tutsis. Apesar de absolutamente iguais, os europeus diziam que os tuties eram mais tolerantes e elegantes. Então criaram essa divisão. Escolhiam as pessoas com narizes mais finos e pele mais clara. Costumavam medir os narizes das pessoas. E para piorar, quando os caras foram embora, deixaram o poder na mão dos hutus, que se vingaram dos tutsis pela repressão.

      

Hotel Ruanda (Hotel Rwanda, 2004) é um filme que revela um pouco dessas atrocidades. O longa dirigido por Terry George e escrito em parceria com Keir Pearson, relata a história real de Paul Rusesabagina (Don Cheadle), que salvou a vida de 1.268 pessoas durante o genocídio. E sabe qual o maior barato? Os maiores heróis são aqueles que nunca pensaram em ser heróis. Paul Rusesabagina é gerente do Hotel des Mille Collines, propriedade da empresa belga Sabena. Sempre preocupado em não perder o emprego, o cara é individualista e visa a proteção apenas de sua família, os vizinhos que se danem.

Os belgas fizeram Paul acreditar que ele era um deles. Mas quando a guerra estoura, Paul é abandonado feito lixo. O Coronel Oliver (Nick Nolte) diz: "Paul, você é o homem mais inteligente aqui. Você comanda tudo, poderia ser o dono desse hotel! Exceto por um detalhe. Você é preto! Não é nem um crioulo. É um africano". Dessa forma, todos os brancos abandonam Ruanda. Franceses, italianos e até os belgas da ONU.

Ninguém mais para deter a carnificina. Perguntinha: como o mundo pode não intervir com tantas atrocidades? Sabe o que eu penso? acho que as pessoas assistem ao noticiário, vêem as imagens da guerra, acham horrível, desligam a TV e vão jantar. Ou será que não foi isso que você fez quando viu ontem no Jornal Nacional as tropas libanesas metralhando islâmicos num campo de refugiados palestinos no Líbano?

      

Nada se faz. As imagens do massacre irão chamar a atenção, mas nada será feito. A velha lógica humana: tudo que não me toca, não me diz respeito, é descartável, para alguns até entretenimento. Eu não estou fora disso. O filme passou, e aí? O que vou fazer? Nada, assim como você. E a vida passa. Amanhã tem outro filme, outro en-tre-te-ni-men-to. Uma sugestão para minimizar a dor: não veja TV.

Apesar disso, vale destacar alguns pontos. A cena da estrada de corpos é impressionante. Os rebeldes esquartejando as pessoas também. A fraqueza das Nações Unidas no combate aos rebeldes é absurda. Gostei da atuação emblemática de Don Cheadle. Bom vê mais um filme abordando a loucura de uma guerra civil. Interessante também a idéia de um oásis no meio do mar de sangue e a estratégia de comunicação via rádio usada pelos rebeldes.

No final das contas, Paul foi um herói. Incrível a coragem do cara em trocar a própria família por pessoas que ele tinha acabado de conhecer. Quem conhece o filme "A Lista de Schindler" (1993), logo faz uma analogia. O longa recebeu 3 indicações ao Oscar, nas categorias: Ator (Don Cheadle), Atriz Coadjuvante (Sophie Okonedo) e Roteiro Original. Paul Rusesabagina e Oscar Schindler, verdadeiras personificações do altruísmo humano. Nota 3/5

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segunda-feira, 21 de maio de 2007 às 00:40

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O Labirinto do Fauno: uma fábula de gente grande

O Labirinto do Fauno (El Laberinto del Fauno, 2006) é um conto de fadas aterrorizante. No começo achei que fosse uma fábula infantil, mas me enganei. E o bom do filme é justamente a maldade dos personagens dessa história.

O grande astro é o vilão Capitão Vidal (Sergi López), oficial fascista que luta contra os últimos guerrilheiros resistentes ao fim da Guerra Civil Espanhola, em 1944. A brutalidade do Capitão é de arrepiar, principalmente quando contracena com a frágil Ofélia (Ivana Baquero), de 10 anos.

Em um de seus passeios pelo jardim da imensa mansão em que moram, Ofélia descobre um labirinto, um portal para um mundo de fantasias. Dentro a garotinha encontra um Fauno. Segundo a mitologia greco-romana, o Fauno é um deus romano cultuado no monte Palatino, sendo o deus protetor dos pastores e rebanhos. Mas segundo o Wikipédia, ao logo dos anos o Fauno foi perdendo seu caráter divino e passou a ser tido como uma divindade do campo, que protegiam as culturas de trigo e cuidavam dos rebanhos.

      

Esse monstrengo bizarro desafia a menina a realizar três missões. E na última delas ocorre algo inesperado. Tire as crianças da sala, por favor. A cena é forte e interessante, levantando vários pontos para serem debatidos. O primeiro deles: isso é real? O segundo: o que é real?

Escrito e dirigido pelo mexicano Guillermo del Toro, O Labirinto do Fauno foi ganhando fama de cool pelo mundo afora. Cultuado como um dos melhores filmes de 2006, o longa ganhou 3 Oscar (Direção de Arte, Fotografia e Maquiagem), recebeu uma indicação ao Globo de Ouro, ganhou um Independent Spirit Awards, venceu 3 prêmios no BAFTA e faturou 7 prêmios no Goya.

Apesar de todas essas conquistas, confesso que fiquei incomodado com O Labirinto do Fauno. Imagine a seguinte cena: um bebê brincando com uma faca no meio de um tiroteio. É assim que o filme foi se construindo em minha cabeça. Infelizmente a história está um degrau acima de minha capacidade digestiva. Mas recomendo, sem dúvida. Nota 3/5

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segunda-feira, 14 de maio de 2007 às 23:49

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Homem-Aranha 3: a maior de todas as aventuras

Até que enfim me deixaram assistir Homem-Aranha 3 (Spider-Man 3, 2007). Fui na estréia mas não consegui ingresso, lotação esgotada ao meio-dia. E para completar tive que agüentar uns carinhas na fila vestidos com a roupa do Aranha. Fenômeno parecido eu só tinha visto com "Matrix" e "O Senhor dos Anéis". Um amigo disse que deve ser o mesmo cara. Neo cresceu as orelhas e virou Frodo, que foi picado por uma aranha radioativa e transformou-se em Homem-Aranha. Tosco.

Mas não é para menos, a equipe de marketing do filme armou um tremendo circo. Estréia mundial, expectativa de quebra de todos os recordes, capa de tudo que foi revista, foto nas caixas de cereal, trailer espetacular, casamento com Mary Jane, roupa preta e três vilões de uma só vez, incluindo Venom. Pobre Parker.

O capítulo três dessa trilogia traz um Homem-Aranha muito mais divertido do que foi visto no episódio 1 e com problemas muito mais sérios que o episódio 2. Para mim, esse foi o melhor filme de super-herói já feito. Blasfêmia! blasfêmia! gritarão os fãs do Super-Homem dos tempos de Christofer Reeve. Mas Homem-Aranha 3 é uma mistura de comédia, humor, aventura e efeitos tão grandisos, que o homem-de-aço nunca sonhou ser. Tudo montado de uma maneira irresistivelmente contagiante.

      

No longa, mais uma vez dirigido por Sam Raimi e escrito por Alvin Sargent, Peter Parker (Tobey Maguire) consegue encontrar um meio-termo entre seus deveres como o Homem-Aranha e seu relacionamento com Mary Jane (Kirsten Dunst). Porém o sucesso como herói e a bajulação dos fãs faz com que Peter se torne auto-confiante demais e passe a negligenciar as pessoas que realmente se importam com ele.

Quando o mundo do aracnídeo começa a desabar, Peter vira hospedeiro de uma estranha forma alienígena, deixando seu uniforme negro e muito mais poderoso. Bem legal essa seqüência. O mauricinho nerd Peter Parker torna-se uma espécie de Emo. Melhor ainda, Parker virou Alex, personagem principal do filme "Laranja Mecânica". O negócio é que o cara fica louco de pedra. Um tremendo sacana cheio de estilo.

A situação muda quando Peter se livra da roupa preta. Tendo que lidar com o sentimento de vingança, Peter agora enfrenta outros quatro desafios. O primeiro é recuperar a confiança de Mary Jane. A segunda é reconquistar a amizade de Harry Osborn (James Franco), o Duende-Verde Júnior. A terceira é acabar com a força alien, agora hospedada na pele do fotógrafo Eddie Brock (Topher Grace), o famoso Venom. E por fim, enterrar Flint Marko (Thomas Church), o Homem-Areia.

      

Eu achei Homem-Aranha 3 espetacular. Claro que depois de algumas horas conversando com uns amigos mais chatos, eles vão colocar defeitos. Mas acredite, isso não existe. Vale cada centavo gasto no cinema, no cereal, no bonequinho, na máscara azul e vermelha, na revista e em todos os trecos que você venha a comprar.

Vamos aos recordes. O filme é o mais caro da história do cinema (US$ 300 milhões). Homem-Aranha 3 bateu o recorde de arrecadação durante o primeiro final de semana no mundo (US$ 227 milhões em 105 países), golpeando com sabre de luz "Star Wars III - A Vingança de Sith". No Brasil bateu bateu o recorde de número de salas em exibição. O mesmo recorde também foi quebrado nos EUA (4.252 cinemas).

Cansado de números? Homem-Aranha 3 também bateu o recorde de melhor bilheteria para um sexta-feira (US$ 59.3 milhões), afundando "Piratas do Caribe - O Baú da Morte" e melhor bilheteria para um sábado (US$ 51 milhões), escarrando "Shrek 2", fazendo desse o melhor fim de semana da história. É ou não é um circo com direito a palhaços, mágicos e trapezistas?! Nota 4/5

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segunda-feira, 23 de abril de 2007 às 00:39

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Cartas de Iwo Jima: os horrores da guerra na visão dos inocentes

Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima, 2006) mostra a "versão japonesa" da guerra envolvendo Estados Unidos e Japão pela conquista da ilha de Iwo Jima, durante a 2ª Guerra Mundial em 1944. O diretor Clint Eastwood foi muito feliz ao contar a mesma história sob duas perspectivas. A primeira foi mostrada no filme "A Conquista da Honra" (leia meu post), em que o foco é a crítica à criação dos "heróis de guerra americanos".

Em Cartas de Iwo Jima o papo é outro. Clint explora a fragilidade do comando militar japonês. Tadamichi Kuribayashi (Ken Watanabe) é um tenente-general do Exército Imperial. Muito respeitado por ser um hábil estrategista e profundo conhecedor da capacidade tecnológica do exército ocidental, o Japão colocou em suas mãos o destino de Iwo Jima, considerada a última linha defesa do país. O problema é que os militares japoneses mais tradicionais não aceitavam o fato de serem comandados por um general "americanizado". Resultado: quebra de comando.

Mas o que chamou mesmo minha atenção foi a vontade que os caras tinham de "morrer com honra". Os malucos nipônicos dão de pau na tropa de Leônidas do filme "300" (leia meu post). Os caras preferem o suicídio a lutar. Na cena mais forte do filme uma guarnição inteira se mata. Um a um os caras vão estourando granadas no próprio peito. Eles acham lindo decidir sobre a própria morte. Grande merda.

      

Cartas de Iwo Jima me deixou meio perturbado. Difícil entender o raciocínio deles. Fiquei entusiasmado para assistir aos clássicos de Akira Kurosawa. Quero vê se compreendo essa tradição que vêm desde os Samurais. Em decorrência disso, o Japão tem hoje a mais alta taxa de suicídio do mundo industrializado (02,1 por 100.000 habitantes, segundo a AFP).

Outra coisa que não entendo é a dinâmica da guerra. Como pode, dois povos com culturas tão ricas e de características tão excepcionais como Japão e Estados Unidos, guerrear? Jovens matando uns aos outros, famílias destruídas pela intolerância humana, sangue a troco de nada. Eu realmente não entendo.

Mas no final das contas, o bom mesmo foi mudar de lado nessa batalha. Mesmo derrotado, gostei da tática militar das cavernas. Os orientais pareciam uns tatus correndo entre as grandes escavações. E olha que o filme começa meio sonolento, mas a história vai ganhando dramaticidade a cada minuto. Cartas de Iwo Jima mostra os horrores da guerra a partir dos olhos inocentes do padeiro Saigo (Kazunari Ninomiya), um soldado cujo único objetivo é voltar vivo para sua família.

Com roteiro de Iris Yamashita, baseado em livro de Tadamichi Kuribayashi e em história de Paul Haggis. Cartas de Iwo Jima contou com produção do mestre Steven Spielberg. Não por acaso o longa ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e o Oscar de Melhor Edição de Som, além de ser indicado nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro Original. Nota 4/5

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terça-feira, 17 de abril de 2007 às 01:35

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Firewall - Segurança em Risco: um filme altamente previsível

Firewall - Segurança em Risco (Firewall, 2006) é um bom suspense. Recheado com brinquedinhos tecnológicos, o filme ganhou minha simpatia. Apesar de repetitiva, a história é legal. Jack Stanfield (Harrison Ford) é um dos mais respeitados especialistas em segurança de computadores. O sistema antifraude desenvolvido pelo cara é praticamente impenetrável.

Mas em casa de ferreiro, espeto de pau. O assaltante Bill Cox (Paul Bettany) sabe desse ditado e passa a monitorar a vida de Jack. Tudo é hackeado, desde suas atividade na internet até suas conversas telefônicas. Para dá conta disso tudo, os assaltantes usam uma rede de câmeras digitais e microfones parabólicos.

      

Por saber tudo da vida de Jack, Bill e uma equipe de mercenários conseguem invadir sua casa e manter Beth e seus filhos como reféns. Para que sua família sobreviva, Jack precisa participar de um esquema para roubar US$ 100 milhões. Com todas as rotas de fuga possíveis tendo sido bloqueadas por Bill, Jack é obrigado a encontrar uma falha em seu próprio sistema de segurança que possibilite a transferência da quantia desejada para uma conta no exterior.

Eu confesso: Firewall é um filme altamente previsível. Nem mesmo as fracas reviravoltas surpreendem. Mas um bom espectador não deve levar o filme muito a sério. Pensa bem, vê o Indiana Jones acessando internet wireless num laptop no meio do deserto é ou não tremendamente legal?! Nota 2/5

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domingo, 15 de abril de 2007 às 23:07

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Filhos da Esperança: apesar das excelentes referências, um filme chato

Quem me conhece sabe: bastar falar em distopia para fisgar minha atenção. Sociedades futuristas com governos totalitários é meu tema predileto. Acho que isso ainda vai render um bom trabalho acadêmico, quem sabe.

Filhos da Esperança
(Children of Men, 2006), filme que recebeu 3 indicações ao Oscar (Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Fotografia e Melhor Edição), fala desse assunto. No futuro retratado no filme, as mulheres não conseguem engravidar, com isso a humanidade corre o risco de extinção. Até que surge, em Londres, uma jovem refugiada africana grávida, isso dá início a perseguições e disputas entre governo, rebeldes e ativistas.

Dirigido pelo mexicano Alfonso Cuarón, escrito pelo mesmo em parceria com Timothy J. Sexton e baseado no romance "The Children of Men" (1992), da inglesa P. D. James, Filhos da Esperança prometia povoar minha mente com perguntas e idéias. Prometeu, mas não cumpriu. Mergulhar na idéia que as mulheres não conseguem mais engravidar é tosco.

      

No livro "Admirável Mundo Novo" (leia meu post) de Aldous Huxley, as mulheres também não engravidam. A questão é que não o fazem por opção. Os bebês são "cultivados" em laboratórios. Tudo bem que Filhos da Esperança se passa em 2027, mas ainda assim é um enredo difícil de engolir. Até mesmo hoje, nossa ciência já seria capaz de criar clones humanos.

Partindo dessa premissa, ficou difícil gostar do filme. A idéia foi legal, a intenção merece aplausos, a fotografia é nebulosa, os movimentos de câmera criam um clima legal, gostei das referências ao Pink Floyd, ao George Orwell, gostei das críticas políticas e do engajamento social. Mas o filme é chato e sem graça. Nota 2/5

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domingo, 25 de março de 2007 às 21:01

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300: a sangrenta adaptação da graphic novel de Frank Miller

Quando pipocou o primeiro trailer de 300 (300, 2007) na internet fiquei sedento por sangue. Não sei o que há comigo, mas violência cinematográfica é algo que me seduz. Nunca racionalizei sobre isso, mas parece ser uma característica dessa geração doente. Por sorte, ao que parece, inofensiva.

300 é uma adaptação da graphic novel "Os 300 de Esparta", de Frank Miller. O filme reproduz todas as características que mais gosto: estilo visual dos mangás, violência gratuita, script complexo, referências históricas clássicas, enredo derivado das grandes tragédias gregas, cenas de ação estilosas e adaptado para os videogames mais poderosos.

Visualmente incrível, 300 é uma poesia visual inédita a meus olhos. Navegando pela mesma estética visual criada por Robert Rodriguez em "Sin City - A Cidade do Pecado" (2005), o filme inteiro parece ser um "trailer alongado". É uma cena magnífica atrás da outra. Seqüências de ação espantosas, como a tempestade de flechas e a barbárie da muralha de corpos.

      

Sangue é a peça-chave dessa jornada. A revista SET disse que a violência em 300 faz o épico "Tróia" (2004) parecer um episódio de Malhação. Por mais engraçado que isso por ser, é fato. O começo do filme já é devastador. Somos apresentados ao método espartano de recrutamento dos soldados. Tudo começa com a seleção dos bebês.

"Quando um garoto nascia, os velhos espartanos o analisavam detalhadamente. Caso o garoto fosse pequeno, raquítico, doente ou deformado, era descartado. Quando já podia ficar em pé, era batizado no fogo do combate, ensinado a nunca recuar, a nunca se render. Ensinado que a morte no campo de batalha, a serviço de Esparta, era a maior glória que ele poderia alcançar na vida."

"Aos 7 anos, o garoto era tirado de sua mãe e jogado num mundo de violência. A Guilgue - como é chamada - força o garoto a lutar, o deixa faminto, o força a roubar e, se necessário, a matar. Com porretes e chicotes o garoto era punido. Ensinado a não mostrar dor, nem piedade. Constantemente testado, jogado no mundo selvagem, deixado para usar sua inteligência e força de vontade contra a fúria da natureza. Era sua iniciação."

      

Na Esparta de Frank Miller, não há demonstrações de amor. Isso não significa que não exista amor, existe, e muito, mas sua demonstração não é tolerada. A força da Rainha Gorgo (Lena Headey) é o contraponto interessante dessa história. Todo o poder feminino ao longo do filme se concentra nesse personagem. Altivez, inteligência, sedução, humildade, persuasão e força.

Nesse quesito, cada personagem é inovador. A cena com o Oráculo é fantástica. Segundo a tradição, as mais belas mulheres espartanas são levadas pelos Éforos para morar com eles. Éforos são velhos leprosos que representam a lei e vivem isolados no topo de uma colina. Anestesiadas por fumaças alucinógenas, essas mulheres formam o Oráculo. Segundo a lenda, as moças conseguem prever o futuro.

Outro personagem incrível é o deus-rei Xerxes, interpretado pelo brasileiro Rodrigo Santoro. Lembra um pouco a Lady Die do filme "Carandiru" (2003). Achei surpreendente e bem legal o personagem do cara. Gostei também do Gerard Butler, que faz o rei espartano Leônidas. O cara é brilhante naquilo que se propõe. Seus melhores momentos ocorrem nos segundos antes das grandes decisões. As reflexões silenciosas lembram muito os últimos momentos de Maximus, em "Gladiador" (2000).

      

Mas o melhor de tudo é a mensagem final: "Lembrem-se de nós". Era por isso que Leônidas e seus homens lutavam. "Lembrem-se porque morremos". A mais simples das ordens que um Rei pode dar. Ele não quis tributos, canções, monumentos ou poemas de guerra. Seu desejo foi simples. "Lembrem-se de nós". Foi o que ele disse. Essa era sua esperança. Esse foi Leônidas, de Esparta, momentos depois da batalha final no desfiladeiro Termópiles, por volta e 480 a.C.

Com direção de Zack Snyder e roteiro do próprio Snyder, junto com Kurt Johnstad e Michael Gordon, 300 é um filme para entrar na história. Um conto sobre glória, liberdade e amor por seu país. Pense comigo: o que seria de nós sem Frank Miller? This is Sparta! Nota 5/5

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sexta-feira, 23 de março de 2007 às 03:02

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À Procura da Felicidade: qual o preço da dignidade humana?

Baseado em fatos reais, À Procura da Felicidade (The Pursuit of Happyness, 2006) conta uma história simples. Os mais distraídos vão dizer até que é o típico filme de Sessão da Tarde. Porém o roteiro de Steve Conrad e a direção de Gabriele Muccino, nos leva a um passeio pelo assustador mundo do fracasso social.

Chris Gardner (Will Smith) é um chefe de família que não consegue colocar dinheiro em casa. Mesmo sendo um cara tremendamente dedicado e inteligente, Chris não consegue ter sucesso profissional. Ele ganha a vida vendendo uns aparelhos de scanner de densidade óssea. Essa "coisa" prometia ser o sucesso da década de 80. O cara passa o filme todo carregando essas caixas toscas para cima e para baixo, hilário.

Para mim Chris é o cara mais azarado do mundo, parece que a vida conspira contra ele, nada que o pobre faz dá certo. Mas o amor pelo filho e seu apurado senso de oportunidade, faz o cidadão apostar na carreira de corretor de ações. No entanto, nada é fácil. Para conseguir a vaga Chris têm que superar 19 adversários em um rigoroso processo seletivo.

      

No meio desse turbilhão, Chris luta para criar dignamente seu filho Christopher (Jaden Smith), de apenas 5 anos. Detalhe: o garoto também é filho de Will Smith na vida real. É a mesmíssima idéia do filme "A Vida é Bela" (1997), em que o pai simula um universo mágico para o filho. A pobreza é tanta que os dois passam a dormir em abrigos, estações de trem, banheiros e onde quer que consigam um refúgio à noite.

À Procura da Felicidade nos ensina a valorizar o nosso emprego, a nossa casinha, o teto no qual moramos, a comida no prato, a escola do filho e todas as coisas que a gente nem lembra que existem. O final nos revela que dinheiro não traz felicidade, mas ajuda pra cacete. Como prêmio pela surpreendente atuação, Will Smith foi indicado ao Oscar de Melhor Ator. Nota 4/5

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domingo, 18 de março de 2007 às 19:56

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Rocky Balboa: o último round do touro italiano

Rocky Balboa (Rocky Balboa, 2006) é o 6º filme da série Rocky, que começou com "Rocky, Um lutador" (1976), longa vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Edição. Apesar de gostar do estilo Rocky de ser feliz, sou contra seqüências arrastadas. De cara Rocky Balboa me parecia um filme enfadonho e repetitivo, abusando da fórmula que o consagrou há 3 décadas atrás.

Rocky pra mim estava morto! Depois do filme, percebi que acabei cometendo o mesmo erro dos antagonistas da história. Rocky Balboa é na verdade o fim glorioso da carreira de um dos personagens mais lendários do cinema. Quando pequeno, cansei de correr dando socos no ar e cantarolando "Gonna Fly Now".

Rocky Balboa não é um filme sobre boxe, Rocky Balboa é o último round da saga de superação dos limites que a vida nos impõe. Particularmente, esse último capítulo fala da derrubada de preconceitos e do exorcismo de velhos fantasmas. Tudo isso, claro, com muito suor, sangue e ossos quebrados. No filme Rocky Balboa (Sylvester Stallone) já não tem a companhia de sua falecida esposa Adrian. E seu filho Rocky Jr. (Milo Ventimiglia), não lhe dá muita atenção, preferindo cuidar de sua própria vida. Sozinho, o garanhão italiano curte a aposentadoria gerenciando seu restaurante suburbano.

      

Sua vida muda após uma simulação de computador colocar Mason Dixon (Antonio Tarver), o atual campeão mundial dos pesos pesados, enfrentando Rocky em seu auge. Dixon fez fama pela facilidade com a qual conseguiu o título, mas como nunca encarou um oponente que realmente o desafiasse é considerado por muita gente como um lutador muito técnico, mas sem alma. A simulação faz com que o agente de Dixon resolva realizar a luta, oferecendo a Rocky uma nova chance de voltar aos ringues.

Com quase 60 anos de idade, Sylvester Stallone escreveu, dirigiu e protagonizou Rocky Balboa. Um filme limpo, honesto e realista. Nos ensinando que o mundo não é um arco-íris. O mundo é um lugar ruim e asqueroso. E não importa o quão duro você seja, um dia apanhará e ficará de joelhos. Rocky Balboa nos ensina que ninguém bate tão forte quanto a vida. E não importa o quão forte ela possa bater, importa o quão forte você seja capaz de agüentar. Caiu? Levanta e segue adiante. Assim é a vida! Assim foi a vida de Rocky. Nota 3/5

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segunda-feira, 12 de março de 2007 às 03:58

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Apocalypto: uma viagem a um lugar no qual ninguém esteve antes

Apocalypto (Apocalypto, 2006) é o novo trabalho do polêmico Mel Gibson. Um filme de difícil classificação. Pode ser um drama, pela história comovente dos protagonistas Jaguar Paw (Rudy Youngblood) e Seven (Dalia Hernandez). Pode ser um terror, pela carnificina interminável. Pode ser um épico, pela missão gloriosa da empreitada. Pode ser uma aventura, pela correria alucinada no coração da floresta. Pode ser até ficção-científica, sim, em algumas cenas eu jurava está viajando por um dos planetinhas da saga Star Wars.

Mel Gibson conta em Apocalypto a decadência da civilização maia. A revista "Aventuras na História" ed.43 traz uma reportagem sobre essa civilização. O texto reforça a visão de Mel Gibson e diz que os maias já haviam entrado em declínio antes mesmo da chegada dos espanhóis. Segundo a revista, hoje os arqueólogos se esforçam para criar um retrato fiel da civilização que, por sete séculos, foi uma das mais desenvolvidas do Ocidente.

Gostei muito da dinâmica do filme. No começo somos levados para dentro de uma aldeia maia. Ficamos íntimos de seus hábitos alimentares, sexuais e familiares. A simplicidade e a alegria daquele povo é cativante. Mas não demora muito e a pequena aldeia - que já fazemos parte - é invadida por um grupo rival. Um massacre de fazer vomitar. Mulheres grávidas, idosos, crianças, sangue sem piedade. O objetivo do grupo invasor e capturar os homens para vendê-los como escravos.

      

Os caras são levados a uma imponente cidade maia, é quando descobrem que suas vidas serão sacrificadas num ritual religioso. No topo da escadaria o líder discursa para a multidão. Ele diz que os dias tem sido de grande lamento, que a terra está sedenta, que uma grande praga infesta as colheitas, que a calamidade da doença aflige a todos. Mas o líder faz previsões:

"Grande povo da bandeira do sol, eu digo que somos fortes! Somos um povo destinado! Destinado a ser os senhores do tempo. Destinado a estar mais próximo dos deuses! Poderoso Kukulcan! Cuja fúria poderia queimar a terra até o seu esquecimento. Deixe-nos satisfazê-lo com este sacrifício. Para exaltá-lo na sua glória. Para fazer com que nosso povo prospere. Para nos preparar para o seu regresso! Guerreiro, destemido e voluntarioso! Com o seu sangue renovará o mundo!"

Interessante notar nessa cena um velho costume. Os mais sábios usavam o conhecimento de possuíam sobre os fenômenos da natureza, para demonstrar poder perante os súditos. Os maias conheciam o eclipse solar, inclusive sabendo com precisão a data e a hora que ocorreria. Com isso podiam simular um controle sobre o sol. Achei interessante.

      

Depois disso não há diálogos, só correria. As cenas da perseguição na floresta são excelentes. Mas é injustiça dizer que o filme se resume a isso. Apocalypto também tem muita emoção, principalmente nos olhares. Deve ser por isso que Mel Gibson não está nem aí para o inglês. Todo o filme é falado em dialeto maia. O diretor aposta na universal linguagem dos olhares. Os olhos no filme possuem alma e vida própria.

Dirigido, escrito, produzido e financiado por Gibson, o longa só recebeu 3 indicações ao Oscar 2007: Melhor Som, Melhor Edição de Som e Melhor Maquiagem. Apocalypto também significa "um novo começo" para Mel Gibson. Uma oportunidade para abandonar preconceitos antisemitistas e continuar nos presenteando com outros grandes filmes. Nota 4/5

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domingo, 11 de março de 2007 às 01:08

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Dreamgirls - Em Busca de um Sonho: um musical de causar alergia

Dreamgirls - Em Busca de um Sonho (Dreamgirls, 2006) foi o campeão de indicações ao Oscar 2007. O longa de Bill Condon concorreu em oito categorias e venceu duas: Melhor Atriz Coadjuvante (Jennifer Hudson) e Melhor Mixagem de Som. Ficou de fora das principais disputas, mas tudo bem.

Para antecipar minha opinião sobre o filme, vou logo adiantando que tenho alergia a musicais. Acho engraçado demais quando os personagens começam a conversar através de canções "improvisadas". É bizarro! No entanto, quando descobri que Dreamgirls se ambienta na magnífica década de 60, comecei a criar uma certa expectativa. Imaginei um universo de Rock, R&B, Jazz, Blues, tudo fervilhando numa panela musical destampada.

Tudo começa quando Curtis Taylor Jr. (Jamie Foxx), um vendedor de carros, põe em prática o sonho de deixar seu nome marcado no mundo da música. O sujeito então conhece o grupo The Dreamettes, formado pelas cantoras Deena Jones (Beyoncé Knowles), Lorrell Robinson (Anika Noni Rose) e Effie White (Jennifer Hudson). Logo as meninas são convidadas a fazer backing vocal para o astro James "Trovão" Early (Eddie Murphy), o pioneiro de um novo som em Detroit. Tudo desanda quando a beleza de Deena se torna mais importante que a voz de Effie.

      

O mais legal em Dreamgirls é acompanhar as disputas raciais entre brancos e negros americanos. É chocante saber que a autoria de vários sucessos da Black Music era roubada por cantores brancos, como Elvis Presley. E não havia "direitos autorais", os caras escutavam a música e regravavam como se fossem deles. Ridículo.

Na rapa do tacho de Dreamgirls, quem saiu por cima foi Jennifer Hudson. A moça gordinha - excluída do programa de TV "American Idol" - faturou o Oscar logo no primeiro filme de sua carreira. E olha que para interpretar o papel de Effy White, Hudson teve que vencer outras 782 atrizes, incluindo sua rival no programa, Fantasia Barrino. Essas gordinhas são arretadas mesmo. Nota 1/5

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