domingo, 25 de maio de 2008 às 19:06

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Horton e o Mundo dos Quem!: promovendo a lógica paquiderme da defesa pela vida

Horton e o Mundo dos Quem! "Uma pessoa é uma pessoa, não importa o seu tamanho". Essa frase dita e repetida na animação Horton e o Mundo dos Quem! (Dr. Seuss, Horton Hears a Who!, 2008), da Blue Sky Studios, gerou uma série de polêmicas. Junto com ela, o filme nos apresenta um conjunto de signos bem peculiares. A história provém do livro homônimo, publicado em 1954, de Dr. Seuss (pseudônimo de Theodor Geisel, 1904-1991), um dos escritores infantis mais famosos dos Estados Unidos. Aqui no Brasil, somente o segundo livro da série, "Horton Hatches the Egg", foi lançado, tendo sido intitulado "Tonho Choca o Ovo".

No filme, Horton (voz de Jim Carrey) é um elefante que, um dia, ouve um pedido de socorro vindo de uma partícula de poeira que flutua no ar. Surpreso, ele passa a desconfiar que possa existir vida dentro daquela partícula. Trata-se do Prefeito de Quemlândia (voz de Steve Carell), local habitado pelos Quem, seres que ignoram a existência de vida fora da cidade em que vivem. Mesmo com todos à sua volta acreditando que perdeu o juízo, Horton decide ajudar os moradores de Quemlândia.

Horton e o Mundo dos Quem!      Horton e o Mundo dos Quem!

É a mesma lógica do filme "Homens de Preto" (1997), no qual todos procuram pela galáxia no Cinturão de Órion como se ela fosse gigantesca, quando na verdade é minúscula, cabendo na coleira de um gato. No final, o filme ainda mostra um grupo de alienígenas jogando bola-de-gude com várias galáxias. Esse tipo de teoria serve pra mostrar que o conceito de "grande e pequeno" é absolutamente relativo, dependendo apenas do referencial comparativo que a análise se propõe.

A diferença em relação à MIB é que dessa vez os ativistas anti-aborto e anti-células-tronco, aproveitaram Horton e o Mundo dos Quem! para encorpar os argumentos "a favor da vida". Eu assisti ao filme com essa idéia na cabeça, mas ao final dos 88 minutos, não vi nada que possa levar a esse entendimento. Só defende essa tese quem não prestou atenção na história. Contextualizada a frase tem um sentido diferente daquele pregado pelos ativistas. Ela me provocou a idéia de preservação da natureza, de respeito à diferença entre os povos (criaturas) e ao ódio aos cangurus (brincadeira!).

Fora isso, é interessante ver um elefante no centro de tudo. Logo ele, um gigantesco mamífero, defendendo uma partícula em que há vida. À primeira vista é estranho, porém, faz todo sentido. Elefantes são herbívoros, quem melhor para defender a vida do que aqueles que comem folha?! Elefantes têm grandes orelhas, quem melhor para escutar criaturas microscópicas?! Elefantes têm memória de elefante, quem melhor para lembrar a exata flor dente-de-leão em que habita o povo de Quemlândia?!

Horton e o Mundo dos Quem!      Horton e o Mundo dos Quem!

Em conteúdo, o filme não chega a ser "O Grinch" (história do mesmo autor), mas nos oferece metáforas excelentes, tais como: "terremotos, catástrofes, mudanças climáticas, alguém estaria brincando com nosso planeta?" Deus? Aliens? "Estamos aqui! Estamos aqui! Estamos aqui! Queremos ser salvos!", grita desesperadamente o povo de Quemlândia na esperança que alguém (com orelhas pequenas) os ouça. Esse grito não seria nosso? De que fala nossas orações, nossas promessas, o que prega nossos pastores?

Fatiado, Horton e o Mundo dos Quem! funciona também como entretenimento. Fiquei embasbacado com a animação mangá dentro do filme. Uma animação dentro da outra, absolutamente inusitado. Fora as referências à Santa Inquisição, as canções codificadas e as inúmeras perguntas que ficaram pairando como poeira: O que significa aquele bizarro bichinho amarelo chamado Kathy circulando pelo filme? Qual o sentido do rato ser o mocinho da história? Por que o canguru é o rei da floresta? Qual a lógica paquiderme da defesa pela vida? Nota 3/5

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quarta-feira, 21 de maio de 2008 às 22:30

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A Lenda de Beowulf: um conto épico sobre o processo de formação de mitos

“Beowulf” é o mais célebre poema épico tradicional da literatura anglo-saxã, tendo servido de fonte de inspiração para o escritor J.R.R. Tolkien escrever “O Senhor dos Anéis” (leia eu post sobre o livro). Mas não vou comentar sobre essa obra da literatura medieval, meu foco hoje é A Lenda de Beowulf (Beowulf, 2007), filme dirigido por Robert Zemeckis que utiliza uma técnica de captura de movimento, na qual todos os atores atuam em frente a uma tela vazia, com sensores presos a eles. Os dados são repassados a computadores e servem de molde para a criação digital dos personagens do filme.

Essa é a quarta versão para o cinema do poema "Beowulf". As anteriores foram "Grendel Grendel Grendel" (1981), "Beowulf - O Guerreiro das Sombras" (1999) e "A Lenda de Grendel" (2005). Não tive a oportunidade de assistir esses trabalhos, mas posso garantir que a história das aventuras do herói Beowulf (Ray Winstone), que viaja à corte do Rei Hrothgar (Anthony Hopkins) para o livrar o reino da terrível predação do demônio Grendel (Crispin Glover), é fascinante.

      

A Lenda de Beowulf é realmente um filme diferenciado. A história nos faz refletir sobre assuntos instigantes tais como: poder, sedução, sacrifício, destino, religião, amor e o processo de formação de mitos. Todos esses grandes temas contemporâneos estão presentes nessa bela obra. Sempre passeando entre acontecimentos reais e fantasiosos, como o nascimento de Cristo e o impacto disso na vida das pessoas, além da própria idéia da traição da Rainha Wealthow (Robin Wright Penn) e a concepção ocidental do viria a ser "amor perfeito".

Mais do que superar expectativas ideológicas, o filme é um espetáculo para a visão. As aparições de Angelina Jolie nua, por exemplo, é de cair o queixo. Isso nos leva à própria discussão sobre "o que é real". Existe mesmo essa beleza photoshopeada que todos desejam? O monstro só é monstro quando assim parece? Quem não peca por luxúria? E o mais importante: há quem resista aos encantos da mãe de Grendel?

      

No começo do filme achei esse Beowulf marrento demais, mas acabei entendendo o porquê daquilo. A Lenda de Beowulf chama atenção pelo realismo da história, a canalhice do protagonista é proposital, uma estratégia dele para aumentar a amplitude de suas glórias, de ser eternizado e ter seu nome cantado pelos poetas. De tão real, algumas cenas causam ojeriza (similar a clássicos do torture porn). Prepare-se para braços decepados, homens partidos ao meio, cabeças sendo mastigadas.

O filme começa bem, desenvolve-se de forma excelente e finaliza em grande estilo. A derradeira batalha contra o dragão é sensacional! Por tudo isso, A Lenda de Beowulf merecia uma maior atenção. O mundo deveria ter dado mais crédito a esse trabalho. Não sei se foi a concorrência com outros grandes filmes, mas A Lenda de Beowulf é muito melhor do que foi pintado. Que venham novas histórias do grande Beowulf. Nota 5/5

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domingo, 18 de maio de 2008 às 16:48

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Rambo 4: a volta do ex-guerreiro inexorável

Rambo 4 (John Rambo, 2008), acontece vinte anos após a última missão. John Rambo (Sylvester Stallone) se recolheu no norte da Tailândia, onde pilota um barco no rio Salween. O lugar faz fronteira com Mianmar (antiga Birmânia), país que enfrenta a mais longa guerra civil da história, um conflito de quase 60 anos. Mesmo com uma guerra à sua volta, Rambo tem uma vida simples e solitária nas selvas montanhosas da Ásia, tendo há muito tempo desistido de lutar.

Porém, Rambo - o até então guerreiro inexorável - muda de postura quando um grupo de missionários de direitos humanos, liderados pela loira Sarah (Julie Benz), pede que os guie à tribo Karen, para que possam entregar remédios e alimentos aos refugiados. Rambo inicialmente recusa, mas logo concorda em levá-los. Alguns dias depois, o pastor Arthur Marsh (Ken Howard) encontra Rambo, conta que os missionários foram capturados e pede ajuda. Rambo e um grupo de mercenários invadem a selva numa suicida operação de resgate.

      

Pronto! Daí pra frente as únicas coisas que se escutam são tiroteios e explosões. Comandando tudo isso um Rambo velho, inchado e sem a inteligência que o tempo deveria ter dado. É um adeus melancólico na vida de um herói tão significativo para a galera dos anos 80. Seria muito melhor tê-lo matado. O velho guerreiro não precisava de um filme para mostrar que ainda sabe lutar, que ainda tem força, que ainda gosta de sangue.

Junto com Ninja Jiraya (ver vídeo), Jiban, He-Man, Optimus Prime (Transformers), Duke (Comandos em Ação), MacGyver e Lion-O (Thundercats), Rambo é um mito. Espero estar vivo em 2028 para rever "Rambo – Programado para Matar" (1982), "Rambo II" (1985) e "Rambo III" (1988), eterno pano de fundo para brincadeiras e aventuras casa adentro. Por tudo isso fiquei triste com esse Rambo 4, um filme que mal entrou e já saiu da minha memória. Nota 1/5

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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008 às 13:16

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O Cheiro do Ralo: um cachorro tentando morder o próprio rabo

Com exceção de "Tropa de Elite", O Cheiro do Ralo (O Cheiro do Ralo, 2007) — adaptado do livro homônimo do quadrinista Lourenço Mutarelli — foi o filme brasileiro mais comentado do ano passado. Li críticas fabulosas sobre a direção de Heitor Dhalia e a atuação de Selton Mello. Se não bastasse, o longa é vencedor do Prêmio Especial do Júri e de Melhor Ator (Selton Mello) no Festival do Rio. Também bateu os concorrentes na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, vencendo na categoria Melhor Filme - Júri Oficial e o Prêmio da Crítica - Nacional.

O problema é que não gostei do filme. Confesso que estou na dúvida se devo ou não cair na besteira de criticar O Cheiro do Ralo. De um lado meu "refinado" gosto cinematográfico, do outro críticos gabaritados e suas analogias sofisticadas. Esse é meu dilema. Nesse caso, acho melhor ser sincero, mas tomando o cuidado de especificar claramente o que não gostei e o porquê. Pois gosto é que nem nariz.

Começando... Lourenço (Selton Mello) é o dono de uma loja que compra objetos usados. Aos poucos ele desenvolve um jogo de poder com seus clientes. Ele troca a frieza inicial com que conduz as negociações, pelo prazer orgástico que sente ao explorá-los, já que sempre estão em sérias dificuldades financeiras. Ao mesmo tempo Lourenço passa a ver as pessoas como se estivessem à venda, identificando-as através de uma característica ou um objeto que lhe é oferecido.

      

Não gostei do enredo. Romances de obsessão não fazem meu gênero. O protagonista é doente. Eu já vi várias histórias de malucos tarados por alguma coisa, mas Lourenço é o maior. Mesquinho, manipula seus pares em busca de um sentido para sua vida medíocre. É o típico sujeito que nasceu para viver sozinho. Fico imaginando o drama que a pobre da noiva dele iria passar, caso a união tivesse concretizado. O pior é que descobrimos posteriormente, que ela é tão louca quanto ele.

Também não gostei do ritmo da história. Todo tipo de personagem vai entrando e saindo do escritório querendo vender suas tranqueiras. Achei hipnótico demais. Um mantra envolvendo cada negociação e do tal cheiro do ralo. É como um cachorro que tenta morder o próprio rabo. Basta alguém entrar no escritório para sentir o cheiro de merda que sai do ralo. Lourenço sempre avisa: "é o ralo, o cheiro é do ralo do banheiro que está entupido". Mas a porra do cheiro é viciante e aos poucos vai enlouquecendo (ou seria entorpecendo?) o sujeito. O filme não chega a ser engraçado, mas algumas cenas — de tão toscas e grotescas — são de fácil risada.

      

No meio da história surge um caso de amor entre Lourenço e a bunda de uma garçonete. Tarado pela bunda dela, ele todo dia vai à lanchonete comer hambúrguer. A comida do lugar é péssima, mas a bunda da garçonete é linda. O hambúrguer, claro, não cai bem no seu estômago, resultado: quando chega no escritório corre ao vaso sanitário. Mas o vaso está entupido, o que deixa todo o ambiente com cheiro de merda. Concluindo: o cheiro de merda é culpa da bunda da garçonete.

Com jeitão de anos 80 e uma temática bem acima de minha capacidade cultural, não conseguiu alcançar o conteúdo ideológico do filme. Antigüidades, bundas, merda, perversão, revólver, olho de vidro. Não saquei. É como se O Cheiro do Ralo estivesse trancado num quarto. Pela fechadura consigo enxergar boas coisas lá dentro (a bunda, por exemplo), o problema é que ainda não tenho a chave. Por não saber o que contém O Cheiro do Ralo, digo que não gostei do filme. Nota 1/5

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segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008 às 18:46

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Morte no Funeral: para quem gosta de velório, café e piadas

Piadas de funeral nunca me agradaram muito. Talvez por isso tenha assistido Morte no Funeral (Death at a Funeral, 2007) meio cabreiro. Mas logo fui seduzido pelo texto rápido e inteligente. A história é singular, fiquei abismado com o nível de criatividade do roteiro de Dean Craig. O cara conseguiu transformar um enterro numa tragédia grega. Pastelão tipicamente inglês.

Morte no Funeral mostra as conseqüências do falecimento do patriarca de uma família inglesa de classe média alta. Dividida por ciúmes e segredos, eles reúnem amigos e parentes para o último adeus. Daniel (Matthew Macfadyen), um dos filhos, promete para a sua mulher uma nova vida e faz de tudo para que a despedida do pai seja boa. Mas seu irmão, um romancista de sucesso, só pensa em paquerar belas mulheres.

      

O namorado da prima ingere acidentalmente drogas e passa a ter delírios. Como se não bastasse, um anão chega ao velório pedindo dinheiro para não revelar um grande segredo de seu pai. Daniel, então, precisa arranjar uma forma de resolver a confusão para que a calamidade não aumente. Em meio a tantos personagens bem desenhados, o tio ranzinza em cadeira de rodas é o melhor. Um velho rabugento pitoresco.

Dirigido pelo mestre jedi Frank Oz, Morte no Funeral é a prova que para poucos sorrir da morte é. Logo eu, que nunca vi graça na morte, consegui ter meus momentos de diversão, imagine agora o que o filme fará com alguém que adora velório, café e piadas. E para completar, o título do filme é uma sacada genial, entregando o ouro e roubando logo em seguida. É massa, vai fundo. Nota 4/5

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segunda-feira, 21 de janeiro de 2008 às 00:59

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A Última Legião: um pequeno César brincando de Rei Arthur

Roma, 476 D.C. No dia da cerimônia de coroação do novo imperador Romulus Augustus (Thomas Sangster), um pivete de apenas 12 anos, o general bárbaro Odoacer (Peter Mullan) propõe um acordo com Orestes (Iain Glen), pai do pequeno César. O bárbaro exige uma recompensa por seu apoio ao império, mas Orestes recusa o acordo.

Preocupado com a segurança do filho e com a previsão do xamã Ambrosinus (Ben Kingsley), Orestes coloca o legionário Aurelius (Colin Firth) como guarda pessoal do garoto. Mas naquela mesma noite Odoacer e sua tropa invadem Roma, capturam o pequeno César e matam seus pais.

O órfão é levado para a ilha-fortaleza de Capri. No local garoto encontra a espada mitológica de César (Excalibur?). O guarda-costas do garoto monta um pequeno exército para resgatá-lo. Todos viajam para a Inglaterra em busca de proteção. Lá encontram um inimigo e travam uma batalha.

      

Não se deixe enganar pela sinopse, A Última Legião (The Last Legion, 2007) é um lixo. Elenco ruim, figurino ruim, fotografia ruim, direção ruim, lutas mal coreografadas. Chega a ser patético. É um filme infantil querendo ser adulto. Tosco, bizarro, idiota. O antipático garoto César é jogado como protagonista de uma história ridícula e enfadonha. Pobre Rei Arthur. Nota 1/5

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terça-feira, 15 de janeiro de 2008 às 23:58

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Senhores do Crime: vodka e muita coragem para despir a humanidade

Dirigido por David Cronenberg e escrito por Steve Knight, Senhores do Crime (Eastern Promises, 2007) é um filme que não quero assistir novamente. Os desprevenidos, assim como eu, são surpreendidos logo de cara com um degolamento à moda alqaediana e o sangrento nascimento de um bebê pré-maturo. Cenas fortes, feitas sob medida para chocar o espectador.

Levar um golpe direto no queixo, logo no início da luta, faz você ficar na defensiva, com atenção máxima até o final. Comigo aconteceu assim, não consegui piscar um só segundo na esperança de saber como aquilo tudo começou e como iria terminar. Todavia, Senhores do Crime é uma história sem começo e sem fim, apenas um pequeno capítulo no meio de uma odisséia russa.

No filme, Anna Ivanovna (Naomi Watts) é uma parteira que trabalha num hospital em Londres. Um dia testemunha a morte de uma jovem de 14 anos, durante um parto realizado na noite de natal. Com o diário da moça em mãos, ela decide procurar a família para dar a notícia do falecimento pessoalmente, o que a faz decobrir segredos sobre a menina.

A busca acaba colocando-a em contato com o misterioso tráfico do sexo, comandado pela organização criminosa russa dos Vory V Zakone. Logo Anna conhece Semyon (Armin Mueller-Stahl), o patriarca da família. Eu não conhecia esse ator, mas o cara merece um prêmio. Seu personagem exala um terror psicológico digno de Hannibal Lecter.

      

Mas o foco da história é a relação entre Anna e o motorista do velhote, Nikolai Luzhin (Viggo Mortensen, o Aragorn de "O Senhor dos Anéis"). O personagem, apesar de parecer secundário, representa o papel masculino mais importante no filme. Inclusive, Viggo Mortensen concorreu ao Globo de Ouro por essa atuação. Particularmente achei que faltou um pouco mais de nuances à caracterização.

Senhores do Crime me fez refletir: o cinema está cada dia mais violento, obsceno e explícito? Comparando com a década de 90, os filmes estariam mais apelativos? O fato é que há um abuso no uso de crianças prostituídas, mulheres escravizadas e um preconceito descompassado, quase visceral. Tudo é mostrado sem delongas, com muito mais realismo e ousadia. A chaga foi aberta e a humanidade nunca esteve tão nua. Nota 2/5

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sexta-feira, 11 de janeiro de 2008 às 01:10

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O Gângster: Russell Crowe colocando água benta no chopp de Denzel Washington

Excelente filme: tenso, brutal e didático. Com toda certeza O Gângster (American Gangster, 2007) merece entrar no TOP 5 da corrida ao Oscar 2008. O filme abrilhanta a carreira de Ridley Scott e posiciona-se ao lado de "Gladiador" (2000) e "Blade Runner" (1982) entre os melhores trabalhos do diretor. De quebra O Gângster pode representar uma nova estatueta aos já premiados Denzel Washington e Russel Crowe.

Baseado em fatos reais, o filme se passa no final da década de 60, com o mundo de olho na Guerra do Vietnã. A história mostra a ascensão do rei do tráfico de heroína Frank Lucas (Denzel Washington) até sua queda, comandada pelo incorruptível policial Richie Roberts (Russell Crowe). Richie não só liderou a força tarefa federal que levou o traficante à justiça, como pôs na cadeira três quartos dos policiais do Departamento de Narcóticos de New York.

      

Mas o que difere O Gângster de outros filmes sobre máfia é que a Frank Lucas não é um traficante qualquer. Negro, cresceu numa Carolina do Norte segregada pelo racismo. Quando criança viu seu primo ser morto por membros da Ku Klux Klan, por simplesmente olhar para uma garota branca. Frank conseguiu chegar a Harlem em New York, mudando o mercado do tráfico ao cortar atravessadores e negociar diretamente com os plantadores de papoula do sudeste asiático.

O mais interessante, e também perturbador, é que toda a heroína vinda do Vietnã era embarcada em aviões do Exército Americano, dentro de caixões que traziam os soldados mortos na guerra. Rapidamente Frank tinha a melhor heroína do mercado, fazendo até um milhão de dólares por dia. Numa jogada de mestre, o cara começou a vender a droga com o dobro de qualidade e pela metade do preço. A "Magia Azul" monopolizou o mercado, batendo de frente com a máfia italiana.

O Gângster é um filme que assusta. Quando assisti "Tropa de Elite" (2007) e vi o poder do tráfico, a logística da droga e a corrupção impregnada na força policial, fiquei com vergonha de vê esse filme rodando no exterior. Mas O Gângster é bem mais pesado, apesar de menos explícito. Um thriller político sensacional para nos fazer debater sobre a força da droga e a forma como ela invade nossos lares e todas as corporações. A conclusão óbvia é que a droga é a maior invenção da humanidade.

      

Ambientado na New York da década de 1970, foi uma ótima idéia conduzir o filme na batida dos noticiários e eventos históricos que culminaram na batalha vietcongue. Incrível saber que além de fervorosos consumidores, os militares americanos ajudaram no tráfico de drogas. Outro aspecto notável é o contraponto visual entre a viagem de Frank aos campos vietnamitas de fabricação de heroína e o abuso de cenários urbanos apocalípticos que dominam a história.

Baseado no artigo "The Return of Superfly", de Mark Jacobson, e adaptado por Steve Zaillian (ganhador do Oscar em 1993 pelo roteiro de a "Lista de Schindler"), O Gângster é um seara de luxúria e ambição, pondo em cheque o velho "sonho americano." Afinal, a vida não deve ser melhor, mais rica e cheia para todos? Então me deixem fazer sucesso com minha habilidade de ganhar dinheiro com o tráfico. Infelizmente para Frank, o discurso não funcionou. Ele foi preso e condenado. Anos mais tarde, curiosamente a vida se encarregou de unir os personagens. Lucas saiu da cadeia, tornou-se advogado e ajudou a colocar Frank em liberdade. Água benta, por favor. Nota 5/5

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sábado, 5 de janeiro de 2008 às 12:59

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Os Indomáveis: um duelo de princípios em que é impossível sair moralmente vivo

Os Indomáveis (3:10 to Yuma, 2007) é uma refilmagem do faroeste "Galante e Sanguinário" (1957), baseado em história de Elmore Leonard originalmente publicada na revista Dime Western Magazine, em 1953. Nem sei quanto tempo faz meu último western. Acho que foi "Maverick" (1994) com Mel Gibson e Jodie Foster [se é que esse pode ser levado em conta].

Mas ao contrário dos faroestes que apareceram nos últimos 15 anos, Os Indomáveis volta às origens. Nada de comédia pastelão e heróis engraçadinhos. A conversa aqui é de homem pra homem. No filme, Daniel Evans (Christian Bale) é um fazendeiro que sofre com a estiagem prolongada. O cidadão vive num pequeno rancho com a mulher e dois filhos. Luta para sobreviver meio às dívidas e pressões para ceder suas terras à construção de uma estrada de ferro.

      

Num dos acasos da vida, Dan cruza o caminho da quadrilha de saqueadores chefiada por ninguém menos que Ben Wade (Russell Crowe), o mais temido pistoleiro do Velho Oeste. Pouco depois Ben Wade é pego de calças curtas e acaba sendo preso. Mas não dá para simplesmente matá-lo, o cara é um mito. Ele precisa ser levado até o tribunal de Yuma, no Colorado. Por 200 dólares Dan se oferece para participar da comitiva que acompanhará o fora-da-lei.

Um a um o grupo vai se esfacelando. Ao chegar no destino, Dan e os sobreviventes são surpreendidos pelo bando de Wade, temporariamente liderado por Charlie Prince (Ben Foster). É o início de uma grande batalha de pistolas e espingardas. Destaque para a interpretação debochada feita por Russell Crowe. O bad boy imprime uma dinâmica inovadora na interpretação do vilão sanguinário. Destaque também para a forte atuação de Christian Bale e, principalmente, Ben Foster, bandido na verdadeira acepção da palavra.

            

Os Indomáveis é um clássico faroeste: roupas estilosas, saloon, dançarinas de can-can, xerifes, tiroteios sobre cavalos, trem fumaçento, cidadelas de madeira, chapéus que nunca se perdem, chacinas, demonstrações de habilidade no gatilho. Só faltou um duelo final com aquela tradicional contagem dos passos, gravetos voando ao vento e bangue-bangue. A participação dos índios Apaches também é diminuta, apesar de politicamente incorreto, poderiam ter explorado mais esse tema.

As aventuras de Ben Wade provam que é preciso muito mais que balas para se formar um mito. O pistoleiro imoral deixa um legado de honradez, cavalheirismo e conduta ética. A prova máxima do que digo é a forma como Wade ajudou a transformar Dan Evans em herói. Surpreendente. Os Indomáveis, vivo ou morto, ninguém consegue sair do jeito que entrou. Nota 4/5

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quarta-feira, 2 de janeiro de 2008 às 15:27

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Eu Sou a Lenda: Will Smith iluminando a escuridão com ajuda de Bob Marley

Aos 47 minutos do 2º tempo, a Warner Bros. Pictures comemora um feito histórico. O filme Eu Sou a Lenda (I Am Legend, 2007), ficção científica estrelada por Will Smith, bateu o recorde de maior bilheteria de um fim de semana no último mês do ano (US$ 76,5 milhões), que pertencia ao ultrapoderoso "O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei" (2003). Isso significou também o maior trabalho da carreira do astro de "Homens de Preto" (1997).

Com direção de Francis Lawrence ("Constantine", 2005) e roteiro de Mark Protosevich e Akiva Goldsman, Eu Sou a Lenda é uma adaptação cinematográfica da clássica história de horror publicada em livro homônimo por Richard Matheson. O livro original de 1954 inclusive já foi filmado outras duas vezes com os títulos de "Mortos que Matam" (The Last Man on Earth, 1964) e "A Última Esperança da Terra" (The Omega Man, 1971). A obra de Richard Matheson é considerada por muitos como a mais inteligente e empolgante ficção sobre vampiros desde Drácula.

O romance distópico centra-se em Robert Neville (Will Smith), um brilhante cientista que não pôde conter o terrível Krypton Vírus, criado pelo próprio homem com intuito de achar a cura para o câncer. De alguma forma imune, Neville é agora o último ser humano que sobrevive na cidade de Nova York, e talvez no mundo. Por três anos, o cientista tem enviado mensagens de rádio diariamente, desesperado para encontrar outros sobreviventes que possam estar em algum lugar.

      

Mas ele não está sozinho. Vítimas mutantes da praga, os infectados (vampiros? zumbis?) espreitam nas sombras observando cada passo de Neville, esperando que cometa um erro fatal. Talvez a única esperança da humanidade, motivado somente por uma missão: achar um meio de reverter os efeitos do vírus usando seu próprio sangue imune. Mas ele sabe que está em desvantagem... e rapidamente ficando sem tempo.

O filme começa numa New York abandonada. Logo pegamos carona no lendário Mustang Shelby Cobra GT 500. O cara persegue uma manada de antípoles em plena Manhattan, dando de cara com uma família de leões. A Warner Bros. disponibilizou os três primeiros minutos do filme na internet (clique aqui). O trabalho da direção de arte é perfeito, deixando a Big Apple de maneira inacreditável. Consta que os produtores precisaram da autorização de 14 agências governamentais para rodar as cenas abertas. O custo estimado para a realização de seis noites de filmagens foi de US$ 5 milhões.

Ao contrário de outros filmes de terror, Eu Sou a Lenda não nos apresenta os infectados logo de cara. O filme trabalha numa espécie de espiral. Com isso, temos uma bela ambientação da situação de Neville, sem pressa. As explicações vêm em formato de flashback, que ajudam a criar um clima de emoção, humanizando o personagem principal. A despedida de Neville da sua família, por exemplo, é comovente. Tudo com muita sutileza, nada explícito. O diretor trabalha o tempo todo com a sugestão de imagens.

      

Já que temos tempo de sobra, vamos passear por New York. Pela manhã Neville assiste as notícias na TV (gravação, evidentemente), depois visita uma locadora para alugar um DVD (o cidadão fala com os bonecos como se fossem humanos), à tarde joga golfe em cima de um avião da Força Aérea Americana. Tudo acompanhado de Samantha, uma cadela pastor-alemão. A relação entre os dois é bem parecida com a que Tom Hanks desenvolveu com a bola Willson, no filme "Náufrago" (2000).

Falando nisso, o filme trabalha muito bem o lado psicológico da história. Uma das melhores passagens ocorre quando Neville, depois de passar mais de mil dias sozinho, encontra a brasileira Anna (Alice Braga). Imagine você: há três anos sem família, de repente encontra na bandeja uma mulher (tão linda quanto a sua) e um garoto (da idade de sua filha). Fica bem claro ao expectador que Neville sucumbirá. Mas não há tempo. Eles agora estão encurralados. E naquele momento, olhando para a foto da família, diante do ódio e da loucura humana, parte para o sacrifício máximo e torna-se a própria divindade, o Salvador. Eu Sou a Lenda seria um anagrama da história de Cristo?

Isso eu não sei, mas posso garantir que o filme é uma tremenda homenagem a Bob Marley. O reggae real domina a história por completo. Músicas como "Three Little Birds", “I Shot The Sheriff” e "Stir It Up" sonorizam a história e deixam tudo mais colorido. Numa das cenas Neville explica quem é Bob Marley à Anna, que diz não conhecer o mito. Ainda que o filme se passe em 2012, existiria alguém incapaz de saber quem é Bob Marley? Não sei. Talvez seja uma dura crítica do roteirista querendo dizer que a humanidade está esquecendo o legado desse gênio da música.

O cientista conhece Bob Marley, mas não conhece Deus. Quando Anna o chama a fugir de New York em busca de sobreviventes, Neville explode: "Deixa-me te falar sobre o plano do teu Deus. Havia seis bilhões de pessoas na Terra, quando começou a infecção. O vírus K teve uma taxa de 90% de mortes. Isso são 5,4 bilhões pessoas mortas! Esmigalhadas e esvaídas em sangue. Mortas! Restou menos de 1% de imunidade. Os outros 588 milhões tornaram-se seus piores pesadelos. E eles ficaram famintos, mataram e alimentaram-se de todos. Todos! Não existe Deus. Não existe Deus!"

      

Como você pode ver, Eu Sou a Lenda é um filme denso. Mas nem por isso chato. Longe disso. Além dos vários sustos com o estilo "Counter Strike" de filmar, fique atento aos easter eggs (àquelas referências que passam despercebidas aos olhos menos atentos e acabam se tornando uma espécie de versão subliminar da história). Eu consegui perceber imagens de Bob Marley nas paredes da casa, quadro com a pintura "O Grito" (do norueguês Edvard Munch), banner do hipotético filme "Batman vs. Superman", cartaz com os dizeres "Deus ainda nos ama" e trechos do filme "Shrek" passando na TV.

O final é brilhante. Com tudo prestes a um destino trágico... o barulho cessa. Lentamente a voz de sua pequena filha invade seus pensamentos. É um momento mágico! Na hora lembrei do filme "Matrix" (1999), com Neo descobrindo que tinha surperpoderes. Está provado que grandes se tornaram gênios após esse mergulho cósmico mental. Tudo começa a se encaixar envolto a um silêncio sepulcral: "Eu tenho a cura! Eu tenho a cura! Eu posso salvá-los!" Não há mais tempo. Tudo agora é um grande nada. Minerva. Eu Sou a Lenda é um filme para deitar, pensar, pensar, pensar... Nota 5/5

Confira o trailer legendado clicando no botão play da imagem abaixo.


P.S.: A Vertigo anunciou uma revista online com histórias que ajudam a contextualizar o filme (clique aqui).

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