domingo, 25 de março de 2007 às 21:01

0 [+]

300: a sangrenta adaptação da graphic novel de Frank Miller

Quando pipocou o primeiro trailer de 300 (300, 2007) na internet fiquei sedento por sangue. Não sei o que há comigo, mas violência cinematográfica é algo que me seduz. Nunca racionalizei sobre isso, mas parece ser uma característica dessa geração doente. Por sorte, ao que parece, inofensiva.

300 é uma adaptação da graphic novel "Os 300 de Esparta", de Frank Miller. O filme reproduz todas as características que mais gosto: estilo visual dos mangás, violência gratuita, script complexo, referências históricas clássicas, enredo derivado das grandes tragédias gregas, cenas de ação estilosas e adaptado para os videogames mais poderosos.

Visualmente incrível, 300 é uma poesia visual inédita a meus olhos. Navegando pela mesma estética visual criada por Robert Rodriguez em "Sin City - A Cidade do Pecado" (2005), o filme inteiro parece ser um "trailer alongado". É uma cena magnífica atrás da outra. Seqüências de ação espantosas, como a tempestade de flechas e a barbárie da muralha de corpos.

      

Sangue é a peça-chave dessa jornada. A revista SET disse que a violência em 300 faz o épico "Tróia" (2004) parecer um episódio de Malhação. Por mais engraçado que isso por ser, é fato. O começo do filme já é devastador. Somos apresentados ao método espartano de recrutamento dos soldados. Tudo começa com a seleção dos bebês.

"Quando um garoto nascia, os velhos espartanos o analisavam detalhadamente. Caso o garoto fosse pequeno, raquítico, doente ou deformado, era descartado. Quando já podia ficar em pé, era batizado no fogo do combate, ensinado a nunca recuar, a nunca se render. Ensinado que a morte no campo de batalha, a serviço de Esparta, era a maior glória que ele poderia alcançar na vida."

"Aos 7 anos, o garoto era tirado de sua mãe e jogado num mundo de violência. A Guilgue - como é chamada - força o garoto a lutar, o deixa faminto, o força a roubar e, se necessário, a matar. Com porretes e chicotes o garoto era punido. Ensinado a não mostrar dor, nem piedade. Constantemente testado, jogado no mundo selvagem, deixado para usar sua inteligência e força de vontade contra a fúria da natureza. Era sua iniciação."

      

Na Esparta de Frank Miller, não há demonstrações de amor. Isso não significa que não exista amor, existe, e muito, mas sua demonstração não é tolerada. A força da Rainha Gorgo (Lena Headey) é o contraponto interessante dessa história. Todo o poder feminino ao longo do filme se concentra nesse personagem. Altivez, inteligência, sedução, humildade, persuasão e força.

Nesse quesito, cada personagem é inovador. A cena com o Oráculo é fantástica. Segundo a tradição, as mais belas mulheres espartanas são levadas pelos Éforos para morar com eles. Éforos são velhos leprosos que representam a lei e vivem isolados no topo de uma colina. Anestesiadas por fumaças alucinógenas, essas mulheres formam o Oráculo. Segundo a lenda, as moças conseguem prever o futuro.

Outro personagem incrível é o deus-rei Xerxes, interpretado pelo brasileiro Rodrigo Santoro. Lembra um pouco a Lady Die do filme "Carandiru" (2003). Achei surpreendente e bem legal o personagem do cara. Gostei também do Gerard Butler, que faz o rei espartano Leônidas. O cara é brilhante naquilo que se propõe. Seus melhores momentos ocorrem nos segundos antes das grandes decisões. As reflexões silenciosas lembram muito os últimos momentos de Maximus, em "Gladiador" (2000).

      

Mas o melhor de tudo é a mensagem final: "Lembrem-se de nós". Era por isso que Leônidas e seus homens lutavam. "Lembrem-se porque morremos". A mais simples das ordens que um Rei pode dar. Ele não quis tributos, canções, monumentos ou poemas de guerra. Seu desejo foi simples. "Lembrem-se de nós". Foi o que ele disse. Essa era sua esperança. Esse foi Leônidas, de Esparta, momentos depois da batalha final no desfiladeiro Termópiles, por volta e 480 a.C.

Com direção de Zack Snyder e roteiro do próprio Snyder, junto com Kurt Johnstad e Michael Gordon, 300 é um filme para entrar na história. Um conto sobre glória, liberdade e amor por seu país. Pense comigo: o que seria de nós sem Frank Miller? This is Sparta! Nota 5/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

sexta-feira, 23 de março de 2007 às 03:02

0 [+]

À Procura da Felicidade: qual o preço da dignidade humana?

Baseado em fatos reais, À Procura da Felicidade (The Pursuit of Happyness, 2006) conta uma história simples. Os mais distraídos vão dizer até que é o típico filme de Sessão da Tarde. Porém o roteiro de Steve Conrad e a direção de Gabriele Muccino, nos leva a um passeio pelo assustador mundo do fracasso social.

Chris Gardner (Will Smith) é um chefe de família que não consegue colocar dinheiro em casa. Mesmo sendo um cara tremendamente dedicado e inteligente, Chris não consegue ter sucesso profissional. Ele ganha a vida vendendo uns aparelhos de scanner de densidade óssea. Essa "coisa" prometia ser o sucesso da década de 80. O cara passa o filme todo carregando essas caixas toscas para cima e para baixo, hilário.

Para mim Chris é o cara mais azarado do mundo, parece que a vida conspira contra ele, nada que o pobre faz dá certo. Mas o amor pelo filho e seu apurado senso de oportunidade, faz o cidadão apostar na carreira de corretor de ações. No entanto, nada é fácil. Para conseguir a vaga Chris têm que superar 19 adversários em um rigoroso processo seletivo.

      

No meio desse turbilhão, Chris luta para criar dignamente seu filho Christopher (Jaden Smith), de apenas 5 anos. Detalhe: o garoto também é filho de Will Smith na vida real. É a mesmíssima idéia do filme "A Vida é Bela" (1997), em que o pai simula um universo mágico para o filho. A pobreza é tanta que os dois passam a dormir em abrigos, estações de trem, banheiros e onde quer que consigam um refúgio à noite.

À Procura da Felicidade nos ensina a valorizar o nosso emprego, a nossa casinha, o teto no qual moramos, a comida no prato, a escola do filho e todas as coisas que a gente nem lembra que existem. O final nos revela que dinheiro não traz felicidade, mas ajuda pra cacete. Como prêmio pela surpreendente atuação, Will Smith foi indicado ao Oscar de Melhor Ator. Nota 4/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

domingo, 18 de março de 2007 às 19:56

0 [+]

Rocky Balboa: o último round do touro italiano

Rocky Balboa (Rocky Balboa, 2006) é o 6º filme da série Rocky, que começou com "Rocky, Um lutador" (1976), longa vencedor de 3 Oscar: Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Edição. Apesar de gostar do estilo Rocky de ser feliz, sou contra seqüências arrastadas. De cara Rocky Balboa me parecia um filme enfadonho e repetitivo, abusando da fórmula que o consagrou há 3 décadas atrás.

Rocky pra mim estava morto! Depois do filme, percebi que acabei cometendo o mesmo erro dos antagonistas da história. Rocky Balboa é na verdade o fim glorioso da carreira de um dos personagens mais lendários do cinema. Quando pequeno, cansei de correr dando socos no ar e cantarolando "Gonna Fly Now".

Rocky Balboa não é um filme sobre boxe, Rocky Balboa é o último round da saga de superação dos limites que a vida nos impõe. Particularmente, esse último capítulo fala da derrubada de preconceitos e do exorcismo de velhos fantasmas. Tudo isso, claro, com muito suor, sangue e ossos quebrados. No filme Rocky Balboa (Sylvester Stallone) já não tem a companhia de sua falecida esposa Adrian. E seu filho Rocky Jr. (Milo Ventimiglia), não lhe dá muita atenção, preferindo cuidar de sua própria vida. Sozinho, o garanhão italiano curte a aposentadoria gerenciando seu restaurante suburbano.

      

Sua vida muda após uma simulação de computador colocar Mason Dixon (Antonio Tarver), o atual campeão mundial dos pesos pesados, enfrentando Rocky em seu auge. Dixon fez fama pela facilidade com a qual conseguiu o título, mas como nunca encarou um oponente que realmente o desafiasse é considerado por muita gente como um lutador muito técnico, mas sem alma. A simulação faz com que o agente de Dixon resolva realizar a luta, oferecendo a Rocky uma nova chance de voltar aos ringues.

Com quase 60 anos de idade, Sylvester Stallone escreveu, dirigiu e protagonizou Rocky Balboa. Um filme limpo, honesto e realista. Nos ensinando que o mundo não é um arco-íris. O mundo é um lugar ruim e asqueroso. E não importa o quão duro você seja, um dia apanhará e ficará de joelhos. Rocky Balboa nos ensina que ninguém bate tão forte quanto a vida. E não importa o quão forte ela possa bater, importa o quão forte você seja capaz de agüentar. Caiu? Levanta e segue adiante. Assim é a vida! Assim foi a vida de Rocky. Nota 3/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

segunda-feira, 12 de março de 2007 às 03:58

0 [+]

Apocalypto: uma viagem a um lugar no qual ninguém esteve antes

Apocalypto (Apocalypto, 2006) é o novo trabalho do polêmico Mel Gibson. Um filme de difícil classificação. Pode ser um drama, pela história comovente dos protagonistas Jaguar Paw (Rudy Youngblood) e Seven (Dalia Hernandez). Pode ser um terror, pela carnificina interminável. Pode ser um épico, pela missão gloriosa da empreitada. Pode ser uma aventura, pela correria alucinada no coração da floresta. Pode ser até ficção-científica, sim, em algumas cenas eu jurava está viajando por um dos planetinhas da saga Star Wars.

Mel Gibson conta em Apocalypto a decadência da civilização maia. A revista "Aventuras na História" ed.43 traz uma reportagem sobre essa civilização. O texto reforça a visão de Mel Gibson e diz que os maias já haviam entrado em declínio antes mesmo da chegada dos espanhóis. Segundo a revista, hoje os arqueólogos se esforçam para criar um retrato fiel da civilização que, por sete séculos, foi uma das mais desenvolvidas do Ocidente.

Gostei muito da dinâmica do filme. No começo somos levados para dentro de uma aldeia maia. Ficamos íntimos de seus hábitos alimentares, sexuais e familiares. A simplicidade e a alegria daquele povo é cativante. Mas não demora muito e a pequena aldeia - que já fazemos parte - é invadida por um grupo rival. Um massacre de fazer vomitar. Mulheres grávidas, idosos, crianças, sangue sem piedade. O objetivo do grupo invasor e capturar os homens para vendê-los como escravos.

      

Os caras são levados a uma imponente cidade maia, é quando descobrem que suas vidas serão sacrificadas num ritual religioso. No topo da escadaria o líder discursa para a multidão. Ele diz que os dias tem sido de grande lamento, que a terra está sedenta, que uma grande praga infesta as colheitas, que a calamidade da doença aflige a todos. Mas o líder faz previsões:

"Grande povo da bandeira do sol, eu digo que somos fortes! Somos um povo destinado! Destinado a ser os senhores do tempo. Destinado a estar mais próximo dos deuses! Poderoso Kukulcan! Cuja fúria poderia queimar a terra até o seu esquecimento. Deixe-nos satisfazê-lo com este sacrifício. Para exaltá-lo na sua glória. Para fazer com que nosso povo prospere. Para nos preparar para o seu regresso! Guerreiro, destemido e voluntarioso! Com o seu sangue renovará o mundo!"

Interessante notar nessa cena um velho costume. Os mais sábios usavam o conhecimento de possuíam sobre os fenômenos da natureza, para demonstrar poder perante os súditos. Os maias conheciam o eclipse solar, inclusive sabendo com precisão a data e a hora que ocorreria. Com isso podiam simular um controle sobre o sol. Achei interessante.

      

Depois disso não há diálogos, só correria. As cenas da perseguição na floresta são excelentes. Mas é injustiça dizer que o filme se resume a isso. Apocalypto também tem muita emoção, principalmente nos olhares. Deve ser por isso que Mel Gibson não está nem aí para o inglês. Todo o filme é falado em dialeto maia. O diretor aposta na universal linguagem dos olhares. Os olhos no filme possuem alma e vida própria.

Dirigido, escrito, produzido e financiado por Gibson, o longa só recebeu 3 indicações ao Oscar 2007: Melhor Som, Melhor Edição de Som e Melhor Maquiagem. Apocalypto também significa "um novo começo" para Mel Gibson. Uma oportunidade para abandonar preconceitos antisemitistas e continuar nos presenteando com outros grandes filmes. Nota 4/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

Outros posts sobre o assunto:

domingo, 11 de março de 2007 às 01:08

0 [+]

Dreamgirls - Em Busca de um Sonho: um musical de causar alergia

Dreamgirls - Em Busca de um Sonho (Dreamgirls, 2006) foi o campeão de indicações ao Oscar 2007. O longa de Bill Condon concorreu em oito categorias e venceu duas: Melhor Atriz Coadjuvante (Jennifer Hudson) e Melhor Mixagem de Som. Ficou de fora das principais disputas, mas tudo bem.

Para antecipar minha opinião sobre o filme, vou logo adiantando que tenho alergia a musicais. Acho engraçado demais quando os personagens começam a conversar através de canções "improvisadas". É bizarro! No entanto, quando descobri que Dreamgirls se ambienta na magnífica década de 60, comecei a criar uma certa expectativa. Imaginei um universo de Rock, R&B, Jazz, Blues, tudo fervilhando numa panela musical destampada.

Tudo começa quando Curtis Taylor Jr. (Jamie Foxx), um vendedor de carros, põe em prática o sonho de deixar seu nome marcado no mundo da música. O sujeito então conhece o grupo The Dreamettes, formado pelas cantoras Deena Jones (Beyoncé Knowles), Lorrell Robinson (Anika Noni Rose) e Effie White (Jennifer Hudson). Logo as meninas são convidadas a fazer backing vocal para o astro James "Trovão" Early (Eddie Murphy), o pioneiro de um novo som em Detroit. Tudo desanda quando a beleza de Deena se torna mais importante que a voz de Effie.

      

O mais legal em Dreamgirls é acompanhar as disputas raciais entre brancos e negros americanos. É chocante saber que a autoria de vários sucessos da Black Music era roubada por cantores brancos, como Elvis Presley. E não havia "direitos autorais", os caras escutavam a música e regravavam como se fossem deles. Ridículo.

Na rapa do tacho de Dreamgirls, quem saiu por cima foi Jennifer Hudson. A moça gordinha - excluída do programa de TV "American Idol" - faturou o Oscar logo no primeiro filme de sua carreira. E olha que para interpretar o papel de Effy White, Hudson teve que vencer outras 782 atrizes, incluindo sua rival no programa, Fantasia Barrino. Essas gordinhas são arretadas mesmo. Nota 1/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

domingo, 25 de fevereiro de 2007 às 01:17

0 [+]

Babel: muito falatório para pouco resultado

Segundo a teoria do caos, o bater de asas de uma borboleta pode provocar um tufão noutro extremo do planeta. Babel (Babel, 2006), filme do diretor Alejandro González-Iñárritu e redator Guillermo Arriaga, fala disso.

São quatro histórias e um roteiro todo entrelaçado. Muito parecido com "Crash - No Limite", Babel começa numa região montanhosa do Marrocos. Os meninos Ahmed (Said Tarchani) e Youssef (Boubker At El Caid) brincam com o rifle de seu pai. Acidentalmente um dos garotos acerta um tiro em Susan (Cate Blanchett), uma turista americana que passava de ônibus pelo local com seu marido, Richard (Brad Pitt).

Esse acidente provoca conseqüências em vários pontos do planeta. Nos Estados Unidos a babá mexicana Amelia (Adriana Barraza), que cuidava dos filhos do casal americano, resolve levar os garotos para o casamento de seu filho no México. Muito legal o processo de descoberta de um novo mundo a partir da perspectiva das crianças. A volta pra casa é que acabou mal.

Resquícios de pólvora também resvalam no Japão, onde vive Yasujiro (Kôji Yakusho), o primeiro dono do rifle. O cidadão é pai da adolescente surda-muda Chieko (Rinko Kinkuchi). Muito boa a história da japinha. As cenas da moça se drogando e curtindo as loucas baladas orientais é bem legal. O Japão parece um outro planeta, incrível.

Por fim, o tiro dos pequenos marroquinos cria muita confusão com as autoridades locais e termina de jeito trágico. A seqüência em que Richard cuida do ferimento de Susan numa aldeia é forte. Nos faz refletir sobre barreiras culturais e preconceitos.

      

Babel foi o eleito o Melhor Drama de 2007 pelo Globo de Ouro. Além disso, o filme irá concorrer ao Oscar com 7 indicações: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Atriz Coadjuvante (Adriana Barraza e Rinko Kinkuchi), Melhor Roteiro Original, Melhor Trilha Sonora e Melhor Edição.

Segundo o Wikipédia, Babel, em acadiano, é Bab ilu. Deriva de Bad ("porta", "portão") e ilu ("Deus") e significa "Porta de Deus". Para os judeus adquiriu o significado de "confusão" em harmonia. Gênesis 11:9, conta e a história da construção da Torre de Babel. Descendentes de Noé (o cara da arca) tentaram construir uma torre para alcançar o céu. Deus (tinha que ser ele), irritado com a blasfêmia, teria feito os trabalhadores falarem línguas diferentes, criando confusão e paralisação da obra.

Em Babel a história da Bíblia se repete. Os personagens não falam a mesma língua e não compreendem as necessidades uns dos outros. O filme fala sobre política e globalização, através de um bonito conto sobre pais e filhos. Excelente, mas não é o melhor filme do ano. Sorte dos concorrentes. Nota 3/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007 às 02:54

0 [+]

O Último Rei da Escócia: uma nova visão de um ditador sanguinário

O Último Rei da Escócia (The Last King of Scotland, 2006) é o filme que dará o Oscar 2007 de melhor ator para Forest Whitaker, eu não tenho dúvidas. E isso não será nenhum favor. Whitaker conseguiu brilhantemente capturar todas as nuances do ditador ugandense Idi Amin Dada.

Li na revista SET que nem mesmo nos intervalos das gravações, Whitaker tirava o uniforme de general, incrível. Segundo ele o objetivo era "não deixar o personagem escapar, pois seria muito difícil trazê-lo de volta". As expressões faciais desse cidadão são aterrorizantes.

Com direção de Kevin Macdonald e roteiro da dupla Jeremy Brock e Peter Morgan, baseado no livro de Giles Foden, o filme conta a aventura do médico recém-formado Nicholas Garrigan (James McAvoy). O jovem escocês viaja para o país africano de Uganda, em busca de aventura, romance e alegria.

Em 1971, logo após a chegada Nicholas, o país sofre um golpe militar que derruba o então presidente Milton Obote do poder. O líder desse governo insurgente é o general Idi Amin, um homem vindo de família pobre e consciente das mazelas de seu povo. Nicholas participa de um comício com o novo presidente e fica encantado com discurso do general Amin.

"Eu sou Idi Amin. E quero lhes prometer que este será um governo de ação, não de palavras. Construiremos novas escolas, novas estradas e um novo hospital. Eu uso o uniforme de um general, mas em meu coração, sou um homem simples. Como vocês. Sei quem são e tudo o que são. Eu sou vocês. Perguntem a meus soldados. Jamais em minha vida comi, se meus soldados não comessem primeiro. E assim será em Uganda agora. Juntos faremos deste um país melhor."

      

Por um acaso do destino Nicholas conhece o general Amin, que o convida para ser seu médico particular. A afeição entre os dois surgiu rapidamente pelo carinho que Amin tinha pelos escoceses. Nicholas passa a morar na mansão presidencial e a ter acesso a intimidade do general.

No começo é só alegria. Amin é um líder bonachão, cheio de carisma e amigo de Nicholas. Porém, com o passar do tempo, seu governo torna-se tão sanguinário quanto os antecessores. Amin acaba com as tribos locais, expulsa os asiáticos do país, instala pelotões de execução e aprisiona opositores. Organismos internacionais apontam que durante seu regime (1971 e 1979), o ditador assassinou mais de 300 mil ugandenses. Já vi essa história antes...

Essas atrocidades perturbam Nicholas, fazendo-o querer voltar para Escócia. Impedido de sair de Uganda, Nicholas se envolve com uma das mulheres do general, piorando ainda mais sua situação. A verdade é que Amin foi ficando isolado. Odiado por governos africanos, chamado de canibal pelos países europeus e alvo de críticas da imprensa de todo o mundo, o general foi ficando cada vez mais paranóico.

Baseado em fatos reais, O Último Rei da Escócia nos oferece uma aula de moral e ética. Uma nova visão de um ditador sanguinário. Uma visão humana? Não, apenas uma perspectiva nunca antes contada. O Amin que seduz o expectador no começo do filme, é o mesmo que no final o pendura com ganchos pela pele. Bizarro! Com um homem pode mudar tão rapidamente de humor? Como um líder dessa magnitude pode ser tão infantil? Como um ser humano pode ser tão selvagem? Nota 3/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2007 às 16:29

0 [+]

Happy Feet - O Pinguim: mostrando às crianças a capacidade destruidora dos adultos

Segundo os caras que fazem o Oscar, Happy Feet - O Pinguim (Happy Feet, 2006) é um dos três melhores filmes de animação do ano passado. Um musical repleto de vozes famosas, incluindo: Nicole Kidman, Robin Williams, Brittany Murphy, Hugh Jackman (o Wolverine de "X-Men") Hugo Weaving (o agente Smith de "Matrix") e o Elijah Wood (o Frodo de "O Senhor dos Anéis").

Os primeiros minutos do filme lembram muito o documentário francês "A Marcha dos Pinguins" (2005), vencedor do Oscar 2006. Com a diferença que em Happy Feet a turma de imperadores é cantora. Comecei a ficar entediado.

O filme conta a história de Mano (Elijah Wood), um jovem pinguim imperador que sofreu um acidente quando ainda estava no ovo e nasceu com um problema nas patas. Acontece que esse problema lhe deu uma elevada capacidade para a dança, o garoto é o rei do sapateado. Mas entre os imperadores você só é alguém se souber cantar. Mano é um péssimo cantor, logo nosso Fred Aster se vê rejeitado por sua comunidade.

      

Os pinguins líderes culpam o jovem dançarino pela escassez de peixes na Antártica. Mano então enfrenta uma jornada para provar a todos que os alienígenas (os humanos) são os verdadeiros responsáveis pela falta de comida. O fato é que o filme só começa a ganhar conteúdo da metade em diante.

Apesar disso, Happy Feet não é um grande filme. Fiquei empolgado apenas com duas ótimas seqüências de ação e a excelente trilha sonora. Nada como as músicas de Frank Sinatra, Queen, Prince e Steve Wonder para aquecer esse frio congelante. Mas valeu a pena o ingresso.

Fiquei curioso para vê a reação de uma criança ao filme. O que deve pensar uma jovem cabecinha com tamanhas atrocidades cometidas por nossa raça? Quais as conclusões que uma pequena mente tira disso tudo? Como será seu comportamento diante do fim desses pinguins? Como ficará sua alma, sabendo que aquele lindo final feliz só ocorre no cinema? Devo contar-lhes que Papai Noel não existe? Nota 3/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

0 [+]

A Conquista da Honra: um filme aquém do padrão Clint Eastwood

"Qualquer imbecil acha que sabe o que é a guerra. Mesmo que nunca tenha estado em uma". É dessa forma que começa o filme A Conquista da Honra (Flags of Our Fathers, 2006) de Clint Eastwood. Imbecil ou não, uma coisa é certa: Clint é o melhor diretor da atualidade.

E se não bastasse o talento do velho cowboy na direção, A Conquista da Honra conta com produção do mestre Steven Spielberg e roteiro de William Broyles Jr. e Paul Haggis, baseado na história originalmente contada por James Bradley e Ron Powers em livro homônimo, veja na Submarino.

Não li o livro, então minhas impressões serão baseadas no que Clint mostrou na tela. O filme nos leva até fevereiro de 1945, quando todos já davam como certa a vitória dos Aliados na Segunda Guerra Mundial. E foi justamente nesse período que ocorre uma das mais importantes e sangrentas batalhas da história dos EUA: a posse da ilha de Iwo Jima.

A conquista de Iwo Jima gerou uma das mais conhecidas fotografias da humanidade: cinco fuzileiros e um integrante do corpo médico da Marinha erguendo a bandeira dos Estados Unidos no monte Suribachi. O responsável pela fotografia, Joe Rosenthal, viu sua imagem tornar-se o símbolo da guerra.

A imagem corre os Estados Unidos. Os três dos soldados que "integravam" o hasteamento da bandeira, regressaram à América para receber honras de heróis. Mas o verdadeiro objetivo do regresso é a participação dos três numa campanha de arrecadação de fundos para o governo. A partir de então os personagens começam a viver uma série de flashbacks, que os fazem pensar sobre essa tal "jornada heróica". Heróis? Apenas porque levantaram uma bandeira? E os demais que continuavam na sangrenta Iwo Jima?

      

Desse ponto em diante A Conquista da Honra nos convida a refletir sobre a criação dos heróis de guerra. "Talvez não existam heróis. Os heróis são coisas que criamos. Algo que necessitamos. É a forma de entender o que é quase incompreensível: como esses soldados podem se sacrificar por seu país?"

A resposta para essa pergunta é dada no final do filme. A verdade é que os riscos que esses soldados correm e as feridas que sofrem, não são pelo país e sim por seus amigos. "Lutam por seu país, mas morrem por seus amigos. Pelo homem à sua frente, pelo homem ao seu lado. E se - de verdade - queremos honrar estes homens, devemos lembrar deles como realmente eram". Não é por acaso que a frase "ao lado de todo soldado existe um herói" estampa o cartaz do filme.

Pessoalmente confesso que esperava mais. Somente lendo as críticas, acreditei durante um tempo que A Conquista da Honra deveria integrar a lista de melhores filmes do Oscar. Hoje penso que não. Gostei do filme, mas acho que o resultado ficou aquém de outras obras de Clint Eastwood, como "Sobre Meninos e Lobos" (2003) e "Menina de Ouro" (2004).

Merecidamente A Conquista da Honra recebeu 2 indicações ao Oscar 2007: Melhor Som e Melhor Edição de Som. Fraco, já que todos apostavam que o filme seria um dos mais premiados da noite do Oscar. Fiquei sabendo que o problema foi a bilheteria. Orçado em US$ 55 milhões, A Conquista da Honra foi um fracasso de público (nos EUA), tendo arrecadado somente US$ 33,5 milhões. Já estou louco para assistir "Cartas de Iwo Jima" (2006), o outro lado dessa história. Nota 3/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2007 às 02:48

0 [+]

Diamante de Sangue: uma espécie de "Cidade de Deus" na savana africana

Diamante de Sangue (Blood Diamond, 2006) é uma espécie de "Cidade de Deus" na savana africana. Uma história que choca, comove e nos transforma. O filme mostra uma realidade inimaginável para os padrões humanos "civilizados".

A história tem como pano de fundo o caos e a guerra civil que dominou Serra Leoa na década de 1990. Leonardo DiCaprio é Danny Archer, um ex-mercenário paramilitar do Zimbábue, e Djimon Hounsou interpreta Solomon Vandy, um pescador de etnia Mende. Embora ambos tenham vidas totalmente diferentes, o destino os reúne numa busca para recuperar um raro diamante rosa, um tipo de tesouro que pode transformar vidas.

No primeiro massacre mostrado no filme, Solomon é arrancado de sua família pelo grupo de rebeldes denominado R.U.F. (Revolutionary United Front). O cara é forçado a trabalhar nos campos de diamante, encontra a pedra extraordinária e se arrisca a escondê-la, mesmo sabendo o perigo que corre. A idéia de Solomon é usar a pedra para salvar a esposa e as filhas de uma vida de refugiadas, e resgatar seu filho, Dia, recrutado de maneira bárbara como soldado infantil.

Archer, que vivia da troca de diamantes por armas, fica sabendo da pedra de Solomon enquanto está na prisão por contrabando. Ele quer roubar o diamante e comprar seu bilhete de saída da África e do ciclo de violência e corrupção. Então surge Maddy Bowen (Jennifer Connelly), uma jornalista americana idealista que está em Serra Leoa para desvendar a verdade por trás dos diamantes de sangue, expondo a cumplicidade dos chefes da indústria das pedras, que optaram pelo lucro no lugar dos princípios.

      

Nossa rotina é tão escrota, que muitas vezes não nos permite um tempo para reflexão. Coisas simples, como imaginar a vida de refugiados. Nessa circunstância, um filme do quilate de Diamante de Sangue preenche parte dessa lacuna. São 138 minutos de tiros, mortes, massacres, carnificina, correria, terrorismo e espanto.

Mas no meio dessa confusão o filme nos convida a refletir sobre o amor de um pai por seu filho. Mas não um filho qualquer, um menino tirado de seus braços, seqüestrado por bárbaros, treinado como um soldado guerrilheiro mirim, intoxicado com drogas e álcool. Um menino desses tem salvação? É possível reverter um trauma psicológico desse nível?

A ética jornalística é outro assunto que percorre o longa. Numa das cenas Maddy Bowen desabafa sobre a eficácia de seu trabalho: "Quer saber, isso é droga. É como um desses comerciais informativos. Você sabe que garotinhos negros lançam bombas que voam diante dos seus olhos. Então aqui eu tenho mães mortas, mas não é nada novo, e talvez seja o suficiente para fazer algumas pessoas chorarem quando lerem. Talvez até dêem um cheque, mas não será o suficiente para fazer isso parar. Estou cansada de escrever sobre as vítimas. Mas essa porra é tudo o que eu posso fazer."

      

É por esse tipo de reflexão que adorei Diamante de Sangue. Há uma saída para essa guerra dos diamantes? Houve uma saída para a guerra do marfim? E do ouro? E do petróleo, haverá? No final o filme quer saber se é possível respirar sabendo dessa realidade. É?

Dirigido pelo ótimo Edward Zwick e roteirizado por Charles Levitt, com base na história dele em parceria com C. Gaby Mitchell, Diamante de Sangue concorre ao Oscar 2007 com 5 indicações: Melhor Ator (Leonardo DiCaprio), Melhor Ator Coadjuvante (Djimon Hounson), Melhor Edição, Melhor Som e Melhor Edição de Som.

Leonardo DiCaprio como melhor ator é possível, realmente foi uma excelente atuação. Mas o destaque pra mim é Djimon Hounsou. Esse ator negro é incrível. Ele protagonizou as duas melhores cenas do filme. Agora uma curiosidade. Em vários momentos cheguei a pensar estar assistindo "Apocalipse Now", do Francis Ford Coppola. O DiCaprio com o rosto coberto de lama atravessando o selva, um oásis mágico no meio do inferno, o ataque de bombas com campo de mineração, tudo muito real.

E a história ficou perfeita com aquele final incrível, de fazer chorar. Foi um erro não colocar Diamante de Sangue na lista de melhores filmes de 2006. Poucas histórias conseguiram me comover tanto. E pensar que é a sede dos americanos por diamante que alimenta essa indústria da mutilação, carnificina infantil e ganância. Não é à toa que o chão africano é tão vermelho quanto o sangue. Nota 3/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2007 às 01:58

0 [+]

Syriana - A Indústria do Petróleo: uma história de difícil digestão

Syriana - A Indústria do Petróleo (Syriana, 2005) é um dos filmes mais chatos que já vi. Os diálogos são longos, confusos, cheios de detalhes burocráticos e com muitas palavras técnicas.

O tema é a geopolítica do petróleo. Mas no final dos 126 minutos de exibição, nem sabia mais como aquilo tudo tinha começado. Mais de 70 personagens se revezam na tela em 4 tramas paralelos. Informações demais para o dono deste blog.

Escrito e dirigido por Stephen Gaghan (o mesmo de "Traffic") e baseado no livro "See No Evil" do veterano da CIA, Robert Baer, Syriana deu o Oscar de "Melhor Ator Coadjuvante" em 2006 a George Clooney.

      

Entendo a importância do assunto, achei louvável a coragem das empresas envolvidas nesse projeto, gostei das locações no Oriente Médio e fiquei empolgado com o destino dos personagens principais. Mas até agora não consegui digerir o filme. Quem sabe ruminando mais um ou duas vezes eu conseguisse captar alguma coisa, por hora detestei Syriana. Nota 1/5

Confira o trailer clicando no botão play da imagem abaixo.